domingo, novembro 11, 2007

somos

nenhum espelho ohlepse muhnen
evloved son nos devolve
a imagem megami a
somos euq od do que somos
verdadeiramente etnemariedadrev

sábado, novembro 10, 2007

Os brinquedos

No futuro que objectos haverão
de substituir-se às rodas dentadas de
madeira e aos automóveis de plástico
da feira dos santos com as suas quatro rodas
deslizando nas mesas de castanho? Autómatos?
Hologramas movidos no espaço
por comandos de funções múltiplas? O mundo
corre contra o passado e o seu
dédalo de fios imperecíveis. E assim
é que está certo. Quando envelhecemos
ficamos atados aos brinquedos de madeira
de pinho com rodas dentadas
a mover-se desajeitadamente nos
carreiros de saibro dos pátios.

sexta-feira, novembro 09, 2007

A paz insustentável

Na infância nenhuma máquina
ou artefacto se comparava a um helicóptero.
Nem o caterpilar com a sua pá imensa.
Os helicópteros voavam sobre os lancis ou ficavam
imóveis movendo apenas as hélices
quase silenciosas nas linhas de separação
dos passeios de cimento. Nas revistas
de banda desenhada os helicópteros por esse
tempo sobrevoavam as matas densas
do vietname. Na televisão a preto
e branco os helicópteros movimentavam
as tropas de um para outro
cenário de guerra em territórios lusos
do ultramar. Vivíamos fascinados com esse vórtice
e simultaneamente desiludidos
com a paz insustentável que se vivia na vila
entre duas linhas de fronteira
desenhadas nos passeios de cimento.

quinta-feira, novembro 08, 2007

Fotografias de viagem, 2





jcb

Fotografias de viagem, 1





jcb

Teoria

Eu disse-lhe a tua poesia assim não
pára sequer na irrisão: à demasiada prosa
dos teus versos falta densidade e sobressalto.
Eu disse-lhe a displicência deve decorrer
nunca do ofício mas
da respiração sem adornos: a prosa
ressente-se da excessiva artificialidade
dos teus elaborados versos.
Eu disse-lhe não escrevas
sobre bicicletas se temes o juízo
dos contemporâneos e a história.

quarta-feira, novembro 07, 2007

Quietude

A estranha nostalgia de um tempo
e de um lugar onde nada acontece. Um cântaro
com água reverbera o silêncio das nascentes
ou das raízes obscuras das folhosas.
Uma criança corre desamparada no terreiro
do largo e tudo fica suspenso desse voo contra
a inverosímil quietude dos nomes.

segunda-feira, novembro 05, 2007

A invenção da bicicleta

Tudo o que fizemos no domínio
dos transportes desde a invenção da bicicleta
só contribuiu para melhor compreendermos
como a bicicleta é útil e bela
e comovente. E é mais bela e útil
e comovente quanto mais
os corredores aéreos enchem os mapas
dos controladores de voo e quanto
mais os viadutos se cruzam
e sobrepõem para dar vazão às filas
de automóveis nas pontes
dos feriados. As crianças
conhecem os segredos do vento numa
roda pedaleira. As bicicletas
e os bosques abrem no verão em simultâneo
os pequenos açudes luminosos
da infância. Depois do vidro e da roda
a bicicleta foi uma das mais
belas e úteis e comoventes
invenções da história do homem.

A mesa da varanda

Joguei crapô durante três verões
porque ela gostava de jogar crapô.
Passávamos tardes inteiras sentados
à mesa da varanda do pátio. Na adolescência
o amor pode ser a raiz venenosa
do loendro crescendo por dentro
das tijoleiras das casas. Jogávamos crapô
porque sobre todas as coisas
ela gostava de jogar crapô.
Hoje não sei o que seria capaz de fazer
pelo amor. Mas sei que não passaria
três verões na mesa da varanda
do pátio a jogar crapô.

Os subterrâneos da cidade

Num sonho visitei os subterrâneos da cidade.
Somos outros depois de conhecer ainda
que em sonho os subterrâneos da cidade.
Quando lavamos os dentes ou a meio
da noite acendemos o candeeiro
da mesinha de cabeceira não
imaginamos que a água e a electricidade
chegam a casa percorrendo os
labirintos subterrâneos da cidade.
Quando ligamos o esquentador ou puxamos
o autoclismo com a displicência
de quem voga dois
palmos acima do terreno mundo
não imaginamos que o gás e o esgoto
não obstante em sentido diverso
correm nas tubagens e nas manilhas
dos subterrâneos da cidade.
Ao movermos o rato para navegar
na internet ninguém imagina
que os ratos verdadeiros e a fibra
óptica partilham as mesmas condutas
nos subterrâneos da cidade.

O teu nome

Para não cortá-los eu
pedi na casa de tatuagens
que me gravassem o teu nome
nos pulsos.

terça-feira, outubro 30, 2007

As garrafas de água

Há pessoas que metem gasolina nas garrafas
de água. Há pessoas que metem chá verde
nas garrafas de água de litro e meio.
As pessoas metem quase tudo nas garrafas de plástico
se não for água de nascente. Metem água rás. Metem aguardente.
Eu sei de uma pessoa que gostava de mostrar ufana
que pela sua garrafa de água do luso
nos piqueniques servia aniz escarchado
caseiro aos amigos.

segunda-feira, outubro 29, 2007

Letra (com refrão e tudo)

Caídas em desuso
há tantas expressões
o linho, a roca, o fuso
as privatizações

o comité central
a anop, o proletário
a intersindical
o amor no calendário

as cartas do correio
os fios do telefone
travões de servo ao freio
telex, gramofone

Há tantas situações
que passaram de moda
as contas com cifrões
os bailinhos de roda

o comunismo, a AD
a cerveja marina
a laranjina C
a pública latrina

os emplastros leão
o trato por você
o sporting campeão
na ardósia o abc

As letras com refrão
o verão quando é o verão

As letras com refrão
o verão quando é o verão

Cicatriz

os desgostos
não
se discutem

quinta-feira, outubro 25, 2007

Algumas regras

Não perder o pé. Nestes primeiros anos que já não
vão sendo tão poucos como isso
do século vinte e um a lírica
ainda compensa. Não vem nenhum
propriamente mal ao mundo literário quer dizer
aos seis críticos literários de serviço
e quase me atrevia a acrescentar o manuel senão é
ver se por exemplo o rui não entrou na antologia
em deixar a gente escapar-se-lhe
a descrição da serração antiga ou a emoção de topar-se
de súbito num imprevisto fim de tarde com
as encostas frias onde a bétula teima em erguer-se.
Mas com parcimónia bom será de ver. Porque
um elevado grau de abstracção
decorrendo directamente de questões filosóficas
ou a concisão ou a perturbação
descritiva que rejeita nexos lógicos
ou sobretudo uma poesia assumidamente urbana
ou uma poesia com permanentes
referências cultas que pode mesmo
abusar da sinestesia num delírio surrealizante
já sem relações algumas com o objecto de partida
é outra loiça. Depois há o óbvio: não enxamear a coisa
de adjectivos ou mesmo reduzi-los ao osso
não falar do corpo ou falar que a
metáfora não faz mal a ninguém mas então não
escrever a palavra corpo
e sobretudo não escrever a palavra pele
e as questões sociais por amor de deus.
As qualidades claro não é devagar que se perdem
mas o poeta ou tem um ofício
ou então que vá mas é com mais previsível
proveito trabalhar nas obras.

terça-feira, outubro 23, 2007

Os destroços das anémonas mortas


para o Hugo Cavaco


Sei hoje, Thereza, quão pouco e precário é o poder de quem governa os impérios e os reinos ou os lugares da terra. Sei hoje que só ilusoriamente nos pertencem as mercês que não vêm do povo a que pertencermos. Sei hoje que o nosso pecado maior, e o nosso erro maior, é procurarmos em Deus a pequena parte de Deus que nos serve para justificar o exercício do domínio e do arbítrio.

Deixa-me ficar contigo mais uma noite, Thereza. Deixa-me tocar de novo os teus ombros nus, os teus joelhos breves, as tuas mãos trémulas, o teu corpo igual a esta noite de Junho quando a manhã começa a anunciar-se em terras de Castela e depois avança, vagarosamente, erguendo-se na linha do horizonte numa luz tão leve que fica sobre as águas da baía dos mares de Monte Gordo como se o mundo só então estivesse a nascer e só então as coisas começassem a ter um nome.

Eu conheci a glória, Thereza. Fui capitão de Alcácer Seguer e Sainal, de Azamor e Mazagão. Mas conheci também a cicatriz da conquista, as lágrimas e o ultraje, o logro de submeter pela espada, o sonho e o seu reverso nos campos de batalha em que ninguém venceu, em que ninguém poderia ter vencido. Nós avançávamos protegidos pela bandeira de um Deus que julgávamos ser nosso dever impor aos infiéis. Era essa a ilusão dos que, como eu, estiveram nas margens do Umme Arrebia ou na foz do rio Sebou, ou que, muitos anos antes, acompanharam D. Afonso em Alcácer Seguer com as mãos manchadas de sangue e se dirigiram assim à mesquita convertida de súbito em igreja cristã sob a invocação de Santa Maria da Misericórdia.

Deixa-me ficar contigo para sempre, Thereza. Deixa-me ficar a ver-te adormecer nestas noites em que apenas as estrelas desenham o mundo, em que o mar parece de súbito apaziguado pela nossa presença e da memória do levante ficam apenas os destroços das anémonas mortas no areal. Deixa-me ver-te respirar enquanto dormes, enquanto o quarto crescente começa a iluminar os medos de areia que vão de Cacela a Santo António de Arenilha. Deixa-me ficar contigo, aqui, em Monte Gordo. Deixa-me ficar contigo e com a tua gente rude que desespera o poder instituído, neste lugar de gente livre cuja honra foi transformada em insídia pelas posturas da lei.

Em Mamora, em nome de Deus, perdemos cem navios num único dia. Muitas vezes penso como terá reagido D. Manuel ao saber que quatro mil dos seus homens haviam sucumbido na foz do rio Sebou. Que Deus era este que levávamos desenhado nos estandartes, que desígnio era este de nos expandirmos em nome da fé? Terá a indecisão, a dúvida, a descrença, tocado por um instante o coração magnânimo de sua majestade? Do outro lado, do outro lado de Deus, outros homens lutavam em nome de Deus. Davam-lhe um nome diferente, claro, e lutavam em seu nome. A verdade é que os sonhos de conquista de D. Manuel iam provocando nos mouros uma reacção violenta que passou a ancorar-se mais num crescente fundamentalismo religioso, numa guerra santa, do que na simples necessidade de defesa dos territórios. De que lado estava a intolerância? Não sei. Sei que regressei ao reino, investido como senhor de Santo António de Arenilha por mercê de D. João III, e que só agora compreendo, junto do meu povo, quão pouco e precário é o poder de quem governa os impérios e os reinos ou os lugares da terra se as mercês não vêm desse mesmo povo a que pertencemos.

Aqui, em Monte Gordo, sinto-me finalmente livre. Aqui, Thereza, sinto-me livre pela primeira vez. Entre gente rude, é certo. Gente de faca e sovelão, de estoque e adaga, de alevantamentos e distúrbios. Gente que desrespeita os decretos e as normas do reino. Gente que procura apenas o seu próprio destino num mundo em que Deus e as leis não deveriam ter uma única face.

Também por isso abdico da glória e das mercês. Também por isso quero apenas ficar aqui contigo, Thereza, nos areais e nas cabanas precárias dos areais de Monte Gordo. Fora do mundo. Olhando assim a noite, como hoje, como nesta noite em que só as estrelas desenham o universo e as águas do mar parecem ter ficado paradas para que o silêncio seja a única testemunha do preciso momento em que toco as tuas mãos, os teus ombros nus, o teu corpo adormecido no meu corpo.



in Jornal do Baixo Guadiana, Outubro de 2007

segunda-feira, outubro 22, 2007

[PUB. Impossível perder]

No DOCLISBOA, hoje, o já tão premiado filme de Sofia Trincão e Óscar Clemente: «Praia de Monte Gordo». Impossível perder. A comovente – mas sobretudo intensa – história dos pescadores que viram desaparecer os seus barcos e, em mais que um sentido, partes das suas vidas.



Hoje, na CULTURGEST,às 16.30 h, no Grande Auditório; no dia 24, às 14 h, na sala 2 do Cinema Londres.

domingo, outubro 21, 2007

As Indecisões do Príncipe Perfeito, 3 [versão 2]


J. C. Barros, acrílico sobre papel, 80x60 cm.

As Indecisões do Príncipe Perfeito, 2



J. C. Barros, acrílico sobre papel, 80x60 cm.

sábado, outubro 20, 2007

O pó

O pó das argilas vinha da água
a casa crescia irredutível
todos os inumeráveis nomes da infância revertem
dessa primeira coluna imemorial
incólume.