Os cordeiros ficavam suspensos
de paus espetados nos intervalos das pedras
da parede para que melhor
depois de soprados à cana
se lhes tirasse a pele e as enxúndias viessem
inteiras na precisão do corte. As primeiras moscas
do ano seguiam os movimentos da navalha
e poisavam nos panos ou rondavam
os alguidares das vísceras. À distância
ouviam-se os gritos metálicos e trémulos
e lancinantes dos bichos. Mas
havia que estar presente e
ter seis anos e ver o sangue
a escorrer em fio na pedra de granito inclinada
do pátio de tão abundante e
inverosímil. O meu tio
sorria então a olhar-me e a limpar num
pano de cozinha as mãos
cumprida com mestria a função de esfolar
e amanhar os cordeiros da páscoa.
E nas assadeiras e nas mesas festivas
não haveria já no dia seguinte
memória nenhuma do sangue
escorrendo na pedra do pátio.
sexta-feira, outubro 05, 2007
Nenhuma máscara
Não sabemos ainda como
perdemos as asas: se
nos lancis dos terraços
em voo sobre os pomares de amendoeiras, se
nas sobrevoadas cumeadas
dos bosques de bétulas em novembro, se
nos olhos de água, se
na puta da vida emitindo recibos
e avenças. Sabemos apenas
que nos olhamos hoje
e nenhuma máscara
nos cabe
no rosto.
perdemos as asas: se
nos lancis dos terraços
em voo sobre os pomares de amendoeiras, se
nas sobrevoadas cumeadas
dos bosques de bétulas em novembro, se
nos olhos de água, se
na puta da vida emitindo recibos
e avenças. Sabemos apenas
que nos olhamos hoje
e nenhuma máscara
nos cabe
no rosto.
A questão energética
(dedicado ao anónimo da caixa de comentários)
Há uma lâmpada que ficou acesa
para sempre. O último a sair
tinha um sentido de responsabilidade
filho da puta.
Há uma lâmpada que ficou acesa
para sempre. O último a sair
tinha um sentido de responsabilidade
filho da puta.
quarta-feira, outubro 03, 2007
Nas ruínas, 2
As caixas de comentários têm momentos deliciosos. Como este, por exemplo, a propósito do poema anterior (Nas ruínas):
«Presumo que o último a sair esqueceu-se de a apagar.»
«Presumo que o último a sair esqueceu-se de a apagar.»
segunda-feira, outubro 01, 2007
No fundo do mar
dizes uma única palavra
e os sismógrafos desesperam
entre richter e mercalli
como se as tempestades ou a chuva pudessem nascer
em vez dos sismos
no fundo do mar
e os sismógrafos desesperam
entre richter e mercalli
como se as tempestades ou a chuva pudessem nascer
em vez dos sismos
no fundo do mar
domingo, setembro 30, 2007
quarta-feira, setembro 26, 2007
O que fica
de um poeta inovador de meados do séc. XX
culto e atento às coisas do seu tempo
escreve agora um crítico literário de
vinte e quatro anos acabado
de sair da faculdade de letras
definitivo a dissecar-lhe a vasta obra
que «é um poeta datado»
e pronto
culto e atento às coisas do seu tempo
escreve agora um crítico literário de
vinte e quatro anos acabado
de sair da faculdade de letras
definitivo a dissecar-lhe a vasta obra
que «é um poeta datado»
e pronto
Um fim de tarde no bosque de carvalho alvarinho, 3

J. C. Barros. Acrílico sobre tela, 60x60 cm, 2007.
Um sonho de Eduardo Gageiro no Alentejo em 1981

J. C. Barros. Acrílico e pastel sobre tela, 60x60 cm, 2007.
Um fim de tarde no bosque de carvalho alvarinho, 2

J. C. Barros. Acrílico sobre tela, 60x60 cm, 2007.
segunda-feira, setembro 24, 2007
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