quarta-feira, setembro 26, 2007

Um fim de tarde no bosque de carvalho alvarinho, 2


J. C. Barros. Acrílico sobre tela, 60x60 cm, 2007.

[Fragmentos, 3]

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[Fragmentos, 2]

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[Fragmentos, 1]

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segunda-feira, setembro 24, 2007

Um fim de tarde no bosque de carvalho alvarinho

jcb

Amo-te

«amo-te»
dizias tu a olhar
pelo retrovisor

Fim de tarde, 2

a água das nascentes
vem
do fim de tarde

sexta-feira, setembro 21, 2007

Fim de tarde

jcb

quinta-feira, setembro 20, 2007

Lugar, 3

Um dia as mulheres da casa fecham os armários
à chave e um caderno de deve e haver fica esquecido
na cómoda. O inverno espalhará as suas sombras
nas varandas viradas ao nascente.
A humidade e a insídia entram nas gavetas
até não se distinguirem os rostos
das fotografias.
É sempre tarde. Os filhos
nunca regressam.

terça-feira, setembro 18, 2007

Lugar, 2

Somos estrangeiros quando chegamos
e nenhuma criança vem a correr ao nosso encontro
com os seus archotes de vela
de navio. Somos estrangeiros quando
uma fina película de oxigénio
separa os nomes das coisas
e a memória de cada uma das coisas
nomeadas.

Lugar, 1

Vinha de longe como se viesse do futuro.
E misturava no ar as substâncias desconhecidas: o gasóleo
e a fuligem, o tisne, a pedra volátil.
As mulheres ficavam à porta, deixando por algum tempo
a lida de casa, a olhar a camioneta da carreira,
a poeira levantada dos caminhos de saibro.
Há sempre um instante preciso
a delimitar a fronteira
entre dois mundos: é o fim de uma manhã de setembro
e um milhafre desenha-se sobre a cumeada
enquanto a camioneta da carreira
faz estremecer de um modo quase imperceptível
as folhas minúsculas do espinheiro da virgínia
do largo.

segunda-feira, setembro 17, 2007

A protecção

Nos seus pesadelos
os monstros vêem a meio da tarde
os nossos olhos a perfurá-los por dentro

e esperam a noite
a protecção das sombras
um relâmpago

Ainda e sempre os monstros afáveis





jcb

domingo, setembro 16, 2007

Ainda a luz de Setembro

jcb

O mundo, 2

O mundo
é como vês o mundo.
A pedra é o que vês
olhando a pedra.
A água existe
porque mergulhas as mãos
na água.
O vento faz mexer
as folhas das árvores
porque vês as folhas das árvores
a ondular
quando o vento corre.

O mundo

jcb

quinta-feira, setembro 13, 2007

O que muda

A luz é a mesma.
Tu é que, caminhando,
a vês de maneira diferente.

segunda-feira, setembro 10, 2007

A luz de Setembro

jcb




[Quase nada, 3]

Nenhum poema

Tu, Dolfo, cavador
de enxada, quanto me ensinaste
da vida que não vem
nos livros. E em tua casa,
na cozinha de terra
batida, que vinho
haveria de suplantar
esse que bebemos do jarro
em bouquet, em coloração,
em extracto etéreo, em substâncias
voláteis? E o que dizemos
sobre o mundo
visto assim a olhar
a floração da urze ou
os talvegues que descem
a caminho da veiga,
Dolfo, que outra sabedoria antiga
contrapõe? E amanhã
estaremos juntos de novo
e isso nenhum poema
conta
verdadeiramente.

sábado, setembro 08, 2007

[Quase nada, 2]

Um leilão em Cacela

O porte, claro. A curva
do pescoço, a cabeça, a coloração,
o tamanho da pupila,
a aerodinâmica, as últimas
três penas da asa. Mas sobretudo
a linha antecedente: a
genealogia, o nome, o livro, o saber-se
de onde vem há quantas
gerações. E nem mulheres
de filme os deixariam assim: embevecidos
a olhar os pombos.