domingo, setembro 16, 2007

Ainda a luz de Setembro

jcb

O mundo, 2

O mundo
é como vês o mundo.
A pedra é o que vês
olhando a pedra.
A água existe
porque mergulhas as mãos
na água.
O vento faz mexer
as folhas das árvores
porque vês as folhas das árvores
a ondular
quando o vento corre.

O mundo

jcb

quinta-feira, setembro 13, 2007

O que muda

A luz é a mesma.
Tu é que, caminhando,
a vês de maneira diferente.

segunda-feira, setembro 10, 2007

A luz de Setembro

jcb




[Quase nada, 3]

Nenhum poema

Tu, Dolfo, cavador
de enxada, quanto me ensinaste
da vida que não vem
nos livros. E em tua casa,
na cozinha de terra
batida, que vinho
haveria de suplantar
esse que bebemos do jarro
em bouquet, em coloração,
em extracto etéreo, em substâncias
voláteis? E o que dizemos
sobre o mundo
visto assim a olhar
a floração da urze ou
os talvegues que descem
a caminho da veiga,
Dolfo, que outra sabedoria antiga
contrapõe? E amanhã
estaremos juntos de novo
e isso nenhum poema
conta
verdadeiramente.

sábado, setembro 08, 2007

[Quase nada, 2]

Um leilão em Cacela

O porte, claro. A curva
do pescoço, a cabeça, a coloração,
o tamanho da pupila,
a aerodinâmica, as últimas
três penas da asa. Mas sobretudo
a linha antecedente: a
genealogia, o nome, o livro, o saber-se
de onde vem há quantas
gerações. E nem mulheres
de filme os deixariam assim: embevecidos
a olhar os pombos.

sexta-feira, setembro 07, 2007

10 livros que não mudaram a minha vida

Em resposta ao desafio do António Manuel Venda (a proposta inicial é de Manuel A. Domingos e o assunto tem dado pano para mangas: aqui, aqui, aqui e aqui, só a título de exemplo) escolho aquilo que supostamente serão dez grandes livros. Critério: títulos sobre os quais criei ou me criaram imensas expectativas e no entanto me deixaram indiferente ou de pé atrás. O mais certo, portanto, é que se trate de grandes livros que apenas não encontraram em mim o leitor que o seu mérito literário justificava ou merecia.

- «A Fogueira das Vaidades», Tom Wolfe
- «A Misteriosa Chama da Rainha Loana», Umberto Eco
- «A Cruz de Santo André», Camilo José Cela
- «A Cidade das Flores», Augusto Abelaira
- «Big Sur», Jack Kerouac
- «Pedro Páramo», Juan Rulfo
- «As Rosas de Atacama», Luís Sepúlveda
- «José e os seus Irmãos», Thomas Mann
- «Os Duros não Dançam», Norman Mailer
- «Olhai os Lírios do Campo», Erico Veríssimo

Gostaria que continuassem o desafio: o Fernando, o Luís, o Diogo, M e a Isabela.

segunda-feira, setembro 03, 2007

[Quase nada, 1]

Os incêndios

Eu assim também
lia o oráculo: esta mata
vai arder. Não era preciso
um fósforo
ou o horóscopo
ou um rastilho aceso.
Mais que certo:
os pinheiros bravos
destinados
aos incêndios
do Verão.

domingo, setembro 02, 2007

[Ainda as caixas de comentários]

Como outros se lavam
recatadamente há os que
escolhem conspurcar-se
em público abrindo

a boca escorrendo-lhes
baba ou deixando em blogs
alheios o seu próprio
ranço nas caixas

de comentários
em mau português. E quase
nunca é propositado

mas apenas quase
sempre a falta de sexo
ou de ternura ou

a ignorância acrescida
de nunca terem tido
um espelho onde pudessem
vagarosamente olhar-se

nem livros na infância.
E é enfim o pretexto
para nos lamentarmos
a meio de conversas

sobre o campeonato
de se ter demitido
por razões pedagógicas

o sistema de ensino
de baixar a bola
a refractários deste calibre.

sexta-feira, agosto 31, 2007

L.

agora sabemos que às vezes é preciso morrer
para que algumas coisas fiquem vivas para sempre:

a manhã de novembro em que caiu a neve
e foste a minha casa oferecer-me agasalhos;

as tuas mãos nas minhas mãos quando
quase adoeceste por me ter assaltado a febre.

havia tantas coisas que era preciso esclarecer:
falámos ao telefone e combinámos um encontro.

mas foi preciso que morresses para compreender
que as coisas decisivas ficam sempre por dizer.

Pai

Pai:
nunca escrevi
sobre ti:

nunca
saberia
o que dizer:

nunca
a flor do junco
haveria

de juntar
a sua inúmera
flor

e o gesto
de fazer dela
o amor.

quinta-feira, agosto 30, 2007

Esse lugar

o lugar que separa
os venenos dos seus perigos
aí adormeces

segunda-feira, agosto 27, 2007

Noite

que a maré desça
quando tiras o vestido
pela cabeça

Nascente

um rio que subisse
até encontrar
o teu nome

Dos malefícios da música pimba

a baía de Cascais
passava bem
sem os Delfins

Quando chove

nos teus olhos a água
nem uma nuvem
nem uma lágrima

Três imagens

jcb


[Fala a namorada do lutador de sumo]

vales
quanto pesas
meu amor

O teu nome

o teu nome
as tuas sílabas
em tudo quanto cintila