domingo, agosto 26, 2007
sábado, agosto 25, 2007
Já não nos motiva
Já não nos motiva nenhuma ideologia
e não acreditar em Deus não
é propriamente uma crença.
Resta-nos pois provavelmente a Icologia
e a filosofia do Paroxismo:
talvez fundemos uma espécie de igreja
onde o que nos move não seja
tanto a Paisagem mas um Catecismo.
O mundo deveria ser como antes:
sem electricidade nem combustíveis fósseis.
Nós somos contra os automóveis
e contra os desodorizantes.
É verdade que comemos hambúrgueres
e vivemos em apartamentos nas Telheiras.
Mas se dependesse de nós só se semeavam girassóis
e só se plantavam oliveiras.
e não acreditar em Deus não
é propriamente uma crença.
Resta-nos pois provavelmente a Icologia
e a filosofia do Paroxismo:
talvez fundemos uma espécie de igreja
onde o que nos move não seja
tanto a Paisagem mas um Catecismo.
O mundo deveria ser como antes:
sem electricidade nem combustíveis fósseis.
Nós somos contra os automóveis
e contra os desodorizantes.
É verdade que comemos hambúrgueres
e vivemos em apartamentos nas Telheiras.
Mas se dependesse de nós só se semeavam girassóis
e só se plantavam oliveiras.
sexta-feira, agosto 24, 2007
Tantas vezes a única
Essa é a tua estrela
essa que chega a quase nem brilhar
essa que fica tantas vezes escondida durante a
noite pelo brilho de todas as outras estrelas
essa que não é sequer um ponto na carta de rumos
essa é a tua estrela
minúscula estrela quase apagada
tantas vezes a única
minha única estrela
essa que chega a quase nem brilhar
essa que fica tantas vezes escondida durante a
noite pelo brilho de todas as outras estrelas
essa que não é sequer um ponto na carta de rumos
essa é a tua estrela
minúscula estrela quase apagada
tantas vezes a única
minha única estrela
quinta-feira, agosto 16, 2007
O poeta no Instituto de Medicina Legal
lamentavam muito
mas que não podiam aceitar doações
de veias poéticas
mas que não podiam aceitar doações
de veias poéticas
terça-feira, agosto 14, 2007
Espero mais uma vez
espero mais uma vez
entre uma cerveja e um cigarro
no caminho que leva do bosque de bétulas
ao tanque do meio da aldeia
nos caules da margem esquerda do único
e primeiro rio
na encosta da urze
na taberna com parabólica onde
passam os jogos do barcelona e do real madrid
no terreiro da festa
nas mesas da esplanada de s. vicente
espero mais uma vez
como se não houvesse nenhuma constelação
nenhum livro de poemas
nenhuma metáfora
que devolvessem à noite a revelação
dos teus
olhos nos meus
olhando-me
como se mais nada existisse no mundo
como se só então as coisas começassem a ter um nome
como se só então
o mundo pudesse começar
entre uma cerveja e um cigarro
no caminho que leva do bosque de bétulas
ao tanque do meio da aldeia
nos caules da margem esquerda do único
e primeiro rio
na encosta da urze
na taberna com parabólica onde
passam os jogos do barcelona e do real madrid
no terreiro da festa
nas mesas da esplanada de s. vicente
espero mais uma vez
como se não houvesse nenhuma constelação
nenhum livro de poemas
nenhuma metáfora
que devolvessem à noite a revelação
dos teus
olhos nos meus
olhando-me
como se mais nada existisse no mundo
como se só então as coisas começassem a ter um nome
como se só então
o mundo pudesse começar
sábado, agosto 11, 2007
O que é o Tempo
1.
em casa dos meus avós
no inverno
adormeciam todos muito cedo
a noite chegava
quando o silêncio
poisava
as suas inamovíveis âncoras
nas mesas
nas tábuas de esquadria
hoje regressamos
(o que é o tempo)
as paredes escalavradas
a ruína
e o mesmo silêncio antigo
como se permanecesse
como se ficasse
como se nunca
se tivesse desprendido
ano após ano
dos nossos
sucessivos
gestos
2.
(a meio da tarde que
rumor é este
igual ao silêncio)
3.
descemos ao pátio
abrimos os braços
e quase
não cabemos nesse espaço
outrora amplo
onde corríamos
e jogávamos
à bola
em casa dos meus avós
no inverno
adormeciam todos muito cedo
a noite chegava
quando o silêncio
poisava
as suas inamovíveis âncoras
nas mesas
nas tábuas de esquadria
hoje regressamos
(o que é o tempo)
as paredes escalavradas
a ruína
e o mesmo silêncio antigo
como se permanecesse
como se ficasse
como se nunca
se tivesse desprendido
ano após ano
dos nossos
sucessivos
gestos
2.
(a meio da tarde que
rumor é este
igual ao silêncio)
3.
descemos ao pátio
abrimos os braços
e quase
não cabemos nesse espaço
outrora amplo
onde corríamos
e jogávamos
à bola
terça-feira, agosto 07, 2007
domingo, agosto 05, 2007
Mas é o Verão
O vento instala a desordem: nas sombrinhas, nos guardanapos de papel das esplanadas, nas toalhas coloridas estendidas no areal. Mas é o Verão: uma criança corre à beira da água com as mãos abertas e a espuma do mar agarrada aos cabelos soltos.
A Filarmónica
A aldeia ficou bem na fotografia
quando foi visitada pelo sr. Presidente.
Arrumaram a lenha quase em esquadria
e limparam as ruas meticulosamente.
Alinharam palcos com estrados de madeira
e estenderam grinaldas até ao coreto.
A Filarmónica tocou à maneira
e o cheiro a merda desapareceu por completo.
Sentimo-nos tão orgulhosos dos nossos fatos
com flores na lapela de murta e alecrim.
A aldeia ficou tão bonita nos retratos.
Quem nos dera que fosse sempre assim.
quando foi visitada pelo sr. Presidente.
Arrumaram a lenha quase em esquadria
e limparam as ruas meticulosamente.
Alinharam palcos com estrados de madeira
e estenderam grinaldas até ao coreto.
A Filarmónica tocou à maneira
e o cheiro a merda desapareceu por completo.
Sentimo-nos tão orgulhosos dos nossos fatos
com flores na lapela de murta e alecrim.
A aldeia ficou tão bonita nos retratos.
Quem nos dera que fosse sempre assim.
quarta-feira, agosto 01, 2007
quarta-feira, julho 25, 2007
quinta-feira, julho 19, 2007
Má sombra
Aí está, com toda a força, o Verão. Assim com maiúscula. Durante os próximos dois meses, digamos, a produção poética deveria ser proibida por decreto. Vai-se a ver, e os melhores espíritos da nossa geração dificilmente ultrapassam o costume sobre «a madrugada», sobre «o azul», sobre a ideia de «todas as águas». Os poetas com qualidades abundam por esta época, eles e os mosquitos, e fazem má sombra quando não são insuportáveis.
domingo, julho 15, 2007
Tokyo
Uma pérola
Uma pérola
a súbita flor da amendoeira
nos teus ombros
Apenas tocar-te
Eu quero apenas tocar-te
como se me despedisse
de ti
Luta
Imperceptível estremecer das folhas
do salgueiro
o aceno dos lutadores de sumo
Uma pétala
Quarenta e dois andares de cimento
e na varanda
uma pétala
Férias
No próximo ano meu amor
haveremos de tirar uma tarde inteira
só para nós
Uma pérola
a súbita flor da amendoeira
nos teus ombros
Apenas tocar-te
Eu quero apenas tocar-te
como se me despedisse
de ti
Luta
Imperceptível estremecer das folhas
do salgueiro
o aceno dos lutadores de sumo
Uma pétala
Quarenta e dois andares de cimento
e na varanda
uma pétala
Férias
No próximo ano meu amor
haveremos de tirar uma tarde inteira
só para nós
quinta-feira, julho 12, 2007
Só depois da luz
Só depois da luz imensa do solstício; só depois dos figos de S. João; só depois do calor e do lume dos meses de julho; só depois de nenhuma sombra na água dos tanques. As ameixas: o fruto que decorre do Verão e que traz os seus nomes atados à pele incandescente.
quarta-feira, julho 11, 2007
[Intervalo: livros, por exemplo]
O meu amigo João, provocador, mete-me assim sem mais aquelas numa corrente de escritas imaginando que citarei, de sopetão, o «Eu, Carolina, oh ai ai ai» – tendo o correspondente pretexto de me cair em cima fazendo depois piadinhas com, é um supor, o Derlei. Dessa estou eu livre – muitas felicidades à mocinha e ao FCP, e que no próximo ano o destino lhes permita, a eles, ao FCP e a ela, um lugar na Europa – cheios de dinheiro e sem Pepe nem outra gente de génio que se veja tirante o Pinto, o Castro, o Rui Pedro e o Hélder Barbosa.
Aconselhar cinco livros? Aí vai: não se pedindo necessariamente os que se levariam para a ilha deserta, deixemos os óbvios (D. Quixote, sempre, o Borges todo, sempre, o Camilo, sempre, o Sthendal, sempre, por exemplo) e passemos aos que, sendo obrigatórios, nem sempre aparecem por aí muito citados:
1: Michael Kohlhaas, o Rebelde, de Heinrich von Kleist. Livro maior da literatura universal, deveria ser obrigatório nas escolas e nos governos. «O príncipe Cristiano von Meissen, bastante preocupado com o aspecto que as coisas tomavam, ameaçando ofuscar perigosamente o bom nome do seu soberano, foi imediatamente ter com ele ao palácio e, embora adivinhando o interesse dos von Tronka em perder Kohlhaas, se possível apoiados em novos delitos, pediu-lhe autorização para submeter imediatamente o negociante a um novo interrogatório.»
2: Carta de Guia de Casados, de D. Francisco Manuel de Melo. Prosa límpida, de estudar-se nas escolas se as escolas tivessem a preocupação de ensinar-se a língua pátria. Um cibo reaccionariozinho, sim, que sei eu do século dezassete se nem muito do nosso vinte e um? «Ame-se a mulher, mas de tal sorte que se não perca por ela seu marido. Aquele amor cego fique para as damas, e para as mulheres o amor com vista. Ou cure os olhos que tem, ou os peça emprestados ao entendimento desses que lhe sobejam.»
3: A Noite e o Riso, de Nuno Bragança. Título maior do romance português do século vinte, caso Jorge de Sena não nos tivesse deixado (em versão por burilar?) os «Sinais de Fogo»? «Ainda eu me achava tonto de ejaculado e já ela sacudia, erguendo-se. Ao rebolar, magoei o sexo num calhau. O tempo de verificar estragos e sentar-me e já a rapariga se sumia através de canas.»
4: Portugal – o Mediterrâneo e o Atlântico, de Orlando Ribeiro. É apenas, dizia ele, «um esboço de relações geográficas». Para compreender o país como em nenhum outro lugar ou demanda. Literatura, também, como raras vezes a literatura portuguesa alcançou. «O frio moderado não provoca na vegetação o repouso hibernal. Uma única árvore tipicamente mediterrânica perde as folhas: a figueira; onde predominarem as árvores de folha caduca é sinal de que as condições setentrionais, atlânticas ou de altitude já se vão fazendo sentir.»
5: Anfíbios e Répteis de Portugal, de Nuno Ferrand de Almeida et all. Dezenas de anos de estudo e dedicação sobre a distribuição, o comportamento e a ecologia de espécies perseguidas e temidas em razão de antiquíssimos medos e generalizadas crenças e superstições. «O seu principal mecanismo de defesa [cobra-rateira, Malpolon monspessulanus] é a fuga. Por vezes, quando ameaçada, pode tornar-se agressiva, erguendo a região anterior do corpo, soprando e chegando a morder. Produz um forte veneno de características neurotóxicas. No entanto, não é perigosa para o Homem, já que se trata de uma espécie opistoglifa.»
A quem passo a corrente (e seja o que Deus quiser)? Ao António, ao Hélder, à Sílvia, ao nrc e à Lenor.
Aconselhar cinco livros? Aí vai: não se pedindo necessariamente os que se levariam para a ilha deserta, deixemos os óbvios (D. Quixote, sempre, o Borges todo, sempre, o Camilo, sempre, o Sthendal, sempre, por exemplo) e passemos aos que, sendo obrigatórios, nem sempre aparecem por aí muito citados:
1: Michael Kohlhaas, o Rebelde, de Heinrich von Kleist. Livro maior da literatura universal, deveria ser obrigatório nas escolas e nos governos. «O príncipe Cristiano von Meissen, bastante preocupado com o aspecto que as coisas tomavam, ameaçando ofuscar perigosamente o bom nome do seu soberano, foi imediatamente ter com ele ao palácio e, embora adivinhando o interesse dos von Tronka em perder Kohlhaas, se possível apoiados em novos delitos, pediu-lhe autorização para submeter imediatamente o negociante a um novo interrogatório.»
2: Carta de Guia de Casados, de D. Francisco Manuel de Melo. Prosa límpida, de estudar-se nas escolas se as escolas tivessem a preocupação de ensinar-se a língua pátria. Um cibo reaccionariozinho, sim, que sei eu do século dezassete se nem muito do nosso vinte e um? «Ame-se a mulher, mas de tal sorte que se não perca por ela seu marido. Aquele amor cego fique para as damas, e para as mulheres o amor com vista. Ou cure os olhos que tem, ou os peça emprestados ao entendimento desses que lhe sobejam.»
3: A Noite e o Riso, de Nuno Bragança. Título maior do romance português do século vinte, caso Jorge de Sena não nos tivesse deixado (em versão por burilar?) os «Sinais de Fogo»? «Ainda eu me achava tonto de ejaculado e já ela sacudia, erguendo-se. Ao rebolar, magoei o sexo num calhau. O tempo de verificar estragos e sentar-me e já a rapariga se sumia através de canas.»
4: Portugal – o Mediterrâneo e o Atlântico, de Orlando Ribeiro. É apenas, dizia ele, «um esboço de relações geográficas». Para compreender o país como em nenhum outro lugar ou demanda. Literatura, também, como raras vezes a literatura portuguesa alcançou. «O frio moderado não provoca na vegetação o repouso hibernal. Uma única árvore tipicamente mediterrânica perde as folhas: a figueira; onde predominarem as árvores de folha caduca é sinal de que as condições setentrionais, atlânticas ou de altitude já se vão fazendo sentir.»
5: Anfíbios e Répteis de Portugal, de Nuno Ferrand de Almeida et all. Dezenas de anos de estudo e dedicação sobre a distribuição, o comportamento e a ecologia de espécies perseguidas e temidas em razão de antiquíssimos medos e generalizadas crenças e superstições. «O seu principal mecanismo de defesa [cobra-rateira, Malpolon monspessulanus] é a fuga. Por vezes, quando ameaçada, pode tornar-se agressiva, erguendo a região anterior do corpo, soprando e chegando a morder. Produz um forte veneno de características neurotóxicas. No entanto, não é perigosa para o Homem, já que se trata de uma espécie opistoglifa.»
A quem passo a corrente (e seja o que Deus quiser)? Ao António, ao Hélder, à Sílvia, ao nrc e à Lenor.
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