O mato cresceu nos carreiros, nas veredas,
nos atalhos, no desvio que levava aos terraços
das vinhas, à parcela onde procuravas
temporão o renovo. A casa era uma consequência
da paisagem: dos lugares onde florescia
a planta inúmera das sete pétalas, do modo
como as argilas se depositavam nos vales
ou nas vertentes da encosta, dos declives,
das linhas de encontro ou de separação das águas.
A ruína começou nas paredes, nos telhados,
nos muros de pedra: quando começou
o mato a crescer no desvio que levava aos terraços
das vinhas, à parcela onde procuravas
temporão o renovo. E tudo é agora indiferente:
se as palhas ficam nos solos, se os medos não exigem
as rezas, se já nos montes não vagueiam as luzes.
domingo, junho 10, 2007
quinta-feira, junho 07, 2007
Um único objecto
São tantas as coisas que se misturam
para que a memória devolva um único objecto:
as toalhas e um cântaro com água, uma caixa de música,
as manchas da humidade nas fotografias
da parede, a chuva a bater nos vidros da janela,
a escaleira de pedra, uma árvore. Mas antes
a água primeiro escorrendo num fio por entre
os caules das ervas; as argilas, os finíssimos grãos
da aluvião; uma horta defendida pelos muros
altos; os matos; o bosque: só depois
o segredo de curar ou enlouquecer
tocando com as mãos nos ombros das crianças:
só depois da casa e dos caminhos de terra
batida; só depois dos minúsculos açudes e do labirinto
dos canais de rega; só depois das sementes
espalhadas num chão lavrado; só depois do fogo
e do rumor do vento nos arames das vinhas.
São tantas as coisas que se misturam
para que a memória devolva um único objecto:
a faca de cortar o pão.
para que a memória devolva um único objecto:
as toalhas e um cântaro com água, uma caixa de música,
as manchas da humidade nas fotografias
da parede, a chuva a bater nos vidros da janela,
a escaleira de pedra, uma árvore. Mas antes
a água primeiro escorrendo num fio por entre
os caules das ervas; as argilas, os finíssimos grãos
da aluvião; uma horta defendida pelos muros
altos; os matos; o bosque: só depois
o segredo de curar ou enlouquecer
tocando com as mãos nos ombros das crianças:
só depois da casa e dos caminhos de terra
batida; só depois dos minúsculos açudes e do labirinto
dos canais de rega; só depois das sementes
espalhadas num chão lavrado; só depois do fogo
e do rumor do vento nos arames das vinhas.
São tantas as coisas que se misturam
para que a memória devolva um único objecto:
a faca de cortar o pão.
sábado, junho 02, 2007
quarta-feira, maio 30, 2007
O olhar
Difusas periferias.
Entre o desastre e os antigos
canais de rega, entre pomares abandonados
e paredes escalavradas,
entre a aluvião e o asfalto,
fasquias,
barracas de zinco.
E no entanto
se uma criança se aproximasse e dissesse
«isto é a minha casa»
compreenderias
que numa certa perspectiva
a periferia é o centro.
Entre o desastre e os antigos
canais de rega, entre pomares abandonados
e paredes escalavradas,
entre a aluvião e o asfalto,
fasquias,
barracas de zinco.
E no entanto
se uma criança se aproximasse e dissesse
«isto é a minha casa»
compreenderias
que numa certa perspectiva
a periferia é o centro.
Uma fotografia
Muitos anos depois, muitos mais
do que na verdade foram, vês a fotografia
por acaso ao folhear um livro.
Era o começo do Verão. Ela
está sentada no muro do tanque
e segura nas mãos uma garrafa de cerveja.
A memória não devolve
unicamente os factos, os esbatidos
limites das imagens: agora compreendes
que tudo era diferente
do que está nos retratos.
É certo que um flash
apenas regista o tempo coevo do disparo.
Mas dispara para além dele
em direcção ao futuro.
do que na verdade foram, vês a fotografia
por acaso ao folhear um livro.
Era o começo do Verão. Ela
está sentada no muro do tanque
e segura nas mãos uma garrafa de cerveja.
A memória não devolve
unicamente os factos, os esbatidos
limites das imagens: agora compreendes
que tudo era diferente
do que está nos retratos.
É certo que um flash
apenas regista o tempo coevo do disparo.
Mas dispara para além dele
em direcção ao futuro.
segunda-feira, maio 28, 2007
Pássaro
O estilo é o que une o pássaro
e a sua abstracção. O estilo
é o que permite à ideia de pássaro
ganhar súbita leveza e aventurar-se
num voo real sobre os telhados
e as árvores. O estilo
é o que transfigura as palavras
em objectos sensíveis
ao tacto. O estilo
é uma cicatriz, uma incisão
nos pulsos protegidos pela tradição
e pelos muros altos das casas.
e a sua abstracção. O estilo
é o que permite à ideia de pássaro
ganhar súbita leveza e aventurar-se
num voo real sobre os telhados
e as árvores. O estilo
é o que transfigura as palavras
em objectos sensíveis
ao tacto. O estilo
é uma cicatriz, uma incisão
nos pulsos protegidos pela tradição
e pelos muros altos das casas.
sábado, maio 26, 2007
quarta-feira, maio 23, 2007
Em vez do silêncio [Actualizado]
Riscar aos poucos, uma
a uma, as imagens, as palavras.
Reduzi-las a um breve núcleo
substantivo. E depois apagar
de novo, uma e outra, uma
e outra. Até à ilusão
da nascente, à nuvem
das águas subterrâneas.
Por uma poesia
que não dissesse. Que não enunciasse.
Que apenas deixasse
nas folhas das árvores
o que se esconde por dentro
do obscuro rumor
indecifrável das palavras.
A arquitectura e a árvore:
um sistema filosófico
dividido entre a perfeição
da matemática e
a claridade iniludível
da experiência. Entre
a razão e a verdade.
Apagar as palavras, uma
a uma, até à ilusão
da primitiva vertigem
criadora. As raízes
da árvore erguendo-se
em vez do silêncio
e em vez do poema.
a uma, as imagens, as palavras.
Reduzi-las a um breve núcleo
substantivo. E depois apagar
de novo, uma e outra, uma
e outra. Até à ilusão
da nascente, à nuvem
das águas subterrâneas.
Por uma poesia
que não dissesse. Que não enunciasse.
Que apenas deixasse
nas folhas das árvores
o que se esconde por dentro
do obscuro rumor
indecifrável das palavras.
A arquitectura e a árvore:
um sistema filosófico
dividido entre a perfeição
da matemática e
a claridade iniludível
da experiência. Entre
a razão e a verdade.
Apagar as palavras, uma
a uma, até à ilusão
da primitiva vertigem
criadora. As raízes
da árvore erguendo-se
em vez do silêncio
e em vez do poema.
domingo, maio 20, 2007
Ao pé de ti
Não discuto as alterações climáticas.
Estou ao pé de ti e compreendo
que a coisa não vai acabar
muito bem.
Estou ao pé de ti e compreendo
que a coisa não vai acabar
muito bem.
Água, lume
Dizê-lo de novo
como se fosse preciso
dizê-lo de novo:
água, lume.
Em vez da página.
Em vez do poema.
Em vez das duas tão
breves sílabas do teu nome.
como se fosse preciso
dizê-lo de novo:
água, lume.
Em vez da página.
Em vez do poema.
Em vez das duas tão
breves sílabas do teu nome.
Nenhum rumor
Nenhum rumor. Nenhum movimento. Nenhuma ave. Nenhum barco. Nenhuma onda. Nenhuma sombra. Nenhuma pedra nas vertentes declivosas. Nenhuma fogueira acasa nas clareiras. Nenhum fruto. Nenhuma água. Nem a indiferença.
sábado, maio 19, 2007
quarta-feira, maio 16, 2007
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