domingo, junho 10, 2007

O desvio, 1

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quinta-feira, junho 07, 2007

Um único objecto

São tantas as coisas que se misturam
para que a memória devolva um único objecto:
as toalhas e um cântaro com água, uma caixa de música,
as manchas da humidade nas fotografias

da parede, a chuva a bater nos vidros da janela,
a escaleira de pedra, uma árvore. Mas antes
a água primeiro escorrendo num fio por entre
os caules das ervas; as argilas, os finíssimos grãos

da aluvião; uma horta defendida pelos muros
altos; os matos; o bosque: só depois
o segredo de curar ou enlouquecer
tocando com as mãos nos ombros das crianças:

só depois da casa e dos caminhos de terra
batida; só depois dos minúsculos açudes e do labirinto
dos canais de rega; só depois das sementes
espalhadas num chão lavrado; só depois do fogo

e do rumor do vento nos arames das vinhas.
São tantas as coisas que se misturam
para que a memória devolva um único objecto:
a faca de cortar o pão.

sábado, junho 02, 2007

Lua cheia

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Uma luz muito leve, vagarosa, fica poisada nos muros de cal e nas folhas das árvores. Como se só então os pássaros de Junho pudessem adormecer.

sexta-feira, junho 01, 2007

Memórias

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quarta-feira, maio 30, 2007

O olhar

Difusas periferias.
Entre o desastre e os antigos
canais de rega, entre pomares abandonados
e paredes escalavradas,
entre a aluvião e o asfalto,
fasquias,
barracas de zinco.

E no entanto
se uma criança se aproximasse e dissesse
«isto é a minha casa»
compreenderias
que numa certa perspectiva
a periferia é o centro.

Uma fotografia

Muitos anos depois, muitos mais
do que na verdade foram, vês a fotografia
por acaso ao folhear um livro.
Era o começo do Verão. Ela
está sentada no muro do tanque
e segura nas mãos uma garrafa de cerveja.

A memória não devolve
unicamente os factos, os esbatidos
limites das imagens: agora compreendes
que tudo era diferente
do que está nos retratos.

É certo que um flash
apenas regista o tempo coevo do disparo.
Mas dispara para além dele
em direcção ao futuro.

segunda-feira, maio 28, 2007

Pássaro

O estilo é o que une o pássaro
e a sua abstracção. O estilo
é o que permite à ideia de pássaro
ganhar súbita leveza e aventurar-se
num voo real sobre os telhados
e as árvores. O estilo
é o que transfigura as palavras
em objectos sensíveis
ao tacto. O estilo
é uma cicatriz, uma incisão
nos pulsos protegidos pela tradição
e pelos muros altos das casas.

sábado, maio 26, 2007

Não é verdade

Não é verdade que o mar
e os teus olhos se confundam.
Isso diz-se nos poemas.

quarta-feira, maio 23, 2007

Em vez do silêncio [Actualizado]

Riscar aos poucos, uma
a uma, as imagens, as palavras.
Reduzi-las a um breve núcleo
substantivo. E depois apagar
de novo, uma e outra, uma
e outra. Até à ilusão
da nascente, à nuvem
das águas subterrâneas.

Por uma poesia
que não dissesse. Que não enunciasse.
Que apenas deixasse
nas folhas das árvores
o que se esconde por dentro
do obscuro rumor
indecifrável das palavras.

A arquitectura e a árvore:
um sistema filosófico
dividido entre a perfeição
da matemática e
a claridade iniludível
da experiência. Entre
a razão e a verdade.

Apagar as palavras, uma
a uma, até à ilusão
da primitiva vertigem
criadora. As raízes
da árvore erguendo-se
em vez do silêncio
e em vez do poema.

[Actualização]

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ao pé de ti

domingo, maio 20, 2007

Ao pé de ti

Não discuto as alterações climáticas.
Estou ao pé de ti e compreendo
que a coisa não vai acabar
muito bem.

Água, lume

Dizê-lo de novo
como se fosse preciso
dizê-lo de novo:
água, lume.

Em vez da página.
Em vez do poema.
Em vez das duas tão
breves sílabas do teu nome.

Nenhum rumor

Nenhum rumor. Nenhum movimento. Nenhuma ave. Nenhum barco. Nenhuma onda. Nenhuma sombra. Nenhuma pedra nas vertentes declivosas. Nenhuma fogueira acasa nas clareiras. Nenhum fruto. Nenhuma água. Nem a indiferença.

sábado, maio 19, 2007

Se tu soubesses

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Se eu te dissesse

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Uma viagem antiga

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Máscara

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Cão, lua, sombra

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quarta-feira, maio 16, 2007

[PUB]

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Terra, ar, água e lume: os albricoques da Casa de Cacela.

[nas páginas dos livros]

Alguns dos melhores escritores portugueses estão a escrever sobre Vila Real de Santo António. Hoje, às 18 horas, A. M. Pires Cabral vai estar no Centro Cultural António Aleixo para falar disso - e dos seus livros, e do que realmente importa: o mundo, o riso, o silêncio, o «sentimento/ de que a vida não é prazo bastante/ para dar ao amor seu preço isento».