quarta-feira, maio 09, 2007

As fogueiras

As fogueiras nos largos iluminavam apenas
não os astros imóveis suspensos por fios divinos
mas o seu movimento constante
a intolerância
as evidências que as labaredas procuravam
ainda desmentir

Foi assim no séc. XVII
foi ontem no telejornal

sábado, maio 05, 2007

[Campanhas felizes]

Também eu não acabei os estudos.
Sirvo cafés num bar perto da estação dos comboios
e adorava ter um curso superior
como os meus amigos desempregados
que passam as segundas feiras
nos serviços da segurança social
sem problemas de iliteracia
a receber o subsídio
ou a preencher formulários
anexando o Diploma.

Nuvem, 2

jcb

Uma cidade do Sul

A matemática e a música são contemporâneas
uma deriva da outra
como a nuvem deriva da água e a água deriva da nuvem
num rectângulo inscreve-se
o valor do intervalo da terça menor da oitava
e os três sobre dois dão a quinta justa
e os nove sobre cinco dão a sétima menor

A emoção o desejo os alexandrinos os versos do amor
a sinfonia número trinta e oito em ré maior
uma cidade do Sul
a altura das empenas das casas da Praça
a frase que Borges repetiu de Cervantes que a repetiu
dum tratado antigo de geometria
as coincidências e labirintos do Número dois vírgula quatro
a raiz quadrada de dois mais um

tudo reverte da emoção e do desejo
que são contemporâneos da música e da matemática

quinta-feira, maio 03, 2007

[Ainda a Lesma]

«(...) certamente nostálgicos, mais do que de um regulador dos inconvenientes do livre pensamento, de um messias que os salve e que lhes indique o rumo.»

Texto completo, aqui.

terça-feira, maio 01, 2007

Nuvem

jcb

[Letra]

Memória digital


Eu vivo do momento
que passa e não regressa
se corro é contra o tempo
desculpem tenho pressa

Não quero as melodias
tão lentas do vinil
um ano são dois dias
e num cabem dois mil

Não quero o amor sereno
das cenas de hollywood
eu prefiro o veneno
prefiro a inquietude

Antes poder errar
que ter sempre razão
antes dois a voar
que um pássaro na mão

Memória digital
imagens virtuais
o tridimensional
é pouco e eu quero mais

Memória digital
imagens virtuais
o tridimensional
é pouco e eu quero mais

Viajo no futuro
contigo já se vê
basta no quarto escuro
ligar o meu PC

Mas não quero tocar-te
que o tacto compromete
só poderei amar-te
se for na Internet

Memória digital
imagens virtuais
o tridimensional
é pouco e eu quero mais

segunda-feira, abril 30, 2007

O Tempo

Trémulas
as tuas mãos
suspendem o Tempo

domingo, abril 29, 2007

Livro

Nada reverte do acaso
numa árvore: o número de folhas
ou os desenhos do tronco
estavam inscritos no Livro.

A raiz do poema, 2





Imagens: afonso pinto, 6 anos; maria constança videira, 8 anos; inês trigueiros, 10 anos; maria pinto, 9 anos; mariana videira, 6 anos.

A raiz do poema, 1





Imagens: afonso pinto, 6 anos; maria constança videira, 8 anos; inês trigueiros, 10 anos; maria pinto, 9 anos; mariana videira, 6 anos.

quinta-feira, abril 26, 2007

Lume

Uma única palavra: lume: vagaroso
lume de novembro poisado na pele.

quarta-feira, abril 25, 2007

Isto é como quem diz

Pois assim exactamente nada a opor
unidos o falcão e a pomba numa paz corporativa
e a sombra o grande silêncio o imenso
lodo forrado com papel de lustro
que mais queres o empregozinho na repartição o
papel de vinte e cinco linhas
o chefe de família
isto já vinha de longe e não haveria razões de mudança
oh que tão antiga genealogia
como sugeria o avisado d. francisco manuel
e isto é só um exemplo que elas ficam sempre muito
à mão para fazer os retratos das épocas
«que seria bom ocupar a mulher no governo doméstico» e necessário
«não só para que ela viva ocupada senão
para que o marido tenha menos
esse trabalho»
ou não se dedicando à linha e ao fogão
então que lavrasse em santidade as páginas do seu nome
e se publicitassem os seus feitos na colecção educativa
da direcção geral do ensino primário
como por ensinamento santa iria casta discípula de frei remígio
como por ensinamento santa maria que da última vez
que desceu à terra o fez em
nosso solo pátrio altar do mundo
como por ensinamento santa comba dão
que a nenhuma de tão inumeráveis santas desta terra
como é sabido se ficou atrás em milagres
e nos deu a gesta que deu
pois assim exactamente nada a opor
a sombra repetindo a sombra repetindo a sombra
a sombra repetindo a sombra sem nenhum sobressalto
o grande silêncio o imenso
lodo forrado com purpurina
e papel de lustro

terça-feira, abril 24, 2007

[Um poema antigo]

Os meus amigos que nasceram depois
do vinte e cinco de abril chegam a
pensar que a tortura do sono é não ter pedalada
para ficar na discoteca até às
cinco da manhã por falta
de pastilhas
e que uma falha na corrente
eléctrica a meio da noite é o que
melhor pode definir o
conceito de Sombra.

sábado, abril 21, 2007

[PUB]

Poesia: «Las Moradas Inútiles». Tradução de Manuel Moya. Edição bilingue (português/castelhano). Pode ser adquirido aqui.



quinta-feira, abril 19, 2007

A poderosa Arte da Evocação, 2

jcb



Os grandes desígnios

Aqueles que têm como desígnio a salvação do mundo
às vezes tropeçam nas guias
dos passeios

quarta-feira, abril 18, 2007

2: A poderosa arte da Evocação

jcb



1: Árvore

jcb



segunda-feira, abril 16, 2007

Cicatriz

As marcas do amor não
ficam
na pele.