
sábado, fevereiro 17, 2007
quarta-feira, fevereiro 14, 2007
O princípio
Desenhavam os mapas, erguiam
os muros. Erguiam os muros,
desenhavam os mapas.
A cartografia era uma ciência
recente. Como ter uma casa.
Ou delimitar uma propriedade.
os muros. Erguiam os muros,
desenhavam os mapas.
A cartografia era uma ciência
recente. Como ter uma casa.
Ou delimitar uma propriedade.
domingo, fevereiro 11, 2007
sábado, fevereiro 10, 2007
segunda-feira, fevereiro 05, 2007
Ainda O Livro
Borges, em «Prólogo de Prólogos» (ed. Teorema, vol. IV, pg. 11), escreve: «Cerca de 1926 incorri num livro de ensaios de cujo nome não me quero lembrar…». «Dom Quixote de la Mancha», na edição da editora quase homónima (Dom Quixote), começa assim: «Num lugar da Mancha, de cujo nome não quero lembrar-me…»
A literatura não é outra coisa senão as repetições, o eco de um verbo antigo, um nome ou uma frase que se repete, o sobressalto de reconhecermos numa voz uma outra voz que se prolonga num texto, que a renova, que lhe dá um novo sentido.
A literatura não é outra coisa senão as repetições, o eco de um verbo antigo, um nome ou uma frase que se repete, o sobressalto de reconhecermos numa voz uma outra voz que se prolonga num texto, que a renova, que lhe dá um novo sentido.
quinta-feira, fevereiro 01, 2007
Agora que o inverno
Agora que o inverno parece ficar poisado
pelo fim da tarde nos ramos sem uma única folha
de tantas árvores do pomar
olhas de novo as laranjas
a sua luz imensa
a iluminar uma parede de cal.
pelo fim da tarde nos ramos sem uma única folha
de tantas árvores do pomar
olhas de novo as laranjas
a sua luz imensa
a iluminar uma parede de cal.
quarta-feira, janeiro 31, 2007
Os estudos de impacte ambiental
o aprendiz do estaleiro de construção naval
morreu afogado num
tanque de rega com pouco
mais que três palmos de água
há quem anuncie uma crise
na náutica de recreio
morreu afogado num
tanque de rega com pouco
mais que três palmos de água
há quem anuncie uma crise
na náutica de recreio
terça-feira, janeiro 30, 2007
As quatro estações
Talvez nunca tivesse sido bem
assim. Talvez nunca tivesse existido uma fronteira
nítida entre as estações do ano, uma linha
rigorosa a separar o inverno
e a primavera, o outono e o verão.
Porque a memória meteorológica é a mais
débil das memórias - pior que a memória
do amor, a memória das mulheres que desejámos
ou julgámos terem-nos amado
verdadeiramente. Mas é isso
que fica da infância: os dias de chuva
sucedendo-se um após o outro,
ponto; as flores imensas nos canteiros dos jardins,
ponto; as folhas dos plátanos nas alamedas,
primeiro amarelas, e depois
vermelhas, e depois castanhas,
ponto; um sol impiedoso a cair a pique
nos lancis das avenidas,
ponto. E assim é que está certo:
que a memória da infância
não seja traída pela estatística
e pelas evidências científicas
das alterações climáticas à escala global.
Mesmo nos dias claros
de dezembro, límpidos, muito azuis,
eu vejo uma ameaçadora nuvem
e recuso-me a não ter frio.
assim. Talvez nunca tivesse existido uma fronteira
nítida entre as estações do ano, uma linha
rigorosa a separar o inverno
e a primavera, o outono e o verão.
Porque a memória meteorológica é a mais
débil das memórias - pior que a memória
do amor, a memória das mulheres que desejámos
ou julgámos terem-nos amado
verdadeiramente. Mas é isso
que fica da infância: os dias de chuva
sucedendo-se um após o outro,
ponto; as flores imensas nos canteiros dos jardins,
ponto; as folhas dos plátanos nas alamedas,
primeiro amarelas, e depois
vermelhas, e depois castanhas,
ponto; um sol impiedoso a cair a pique
nos lancis das avenidas,
ponto. E assim é que está certo:
que a memória da infância
não seja traída pela estatística
e pelas evidências científicas
das alterações climáticas à escala global.
Mesmo nos dias claros
de dezembro, límpidos, muito azuis,
eu vejo uma ameaçadora nuvem
e recuso-me a não ter frio.
domingo, janeiro 28, 2007
E um dia
Chegavas, o dia iluminava-se,
beijávamo-nos em segredo
resguardados pela excessiva
sombra dos lódãos
no murete do jardim. Era
como se tudo estivesse
a começar: a primeira pedra,
os primeiros nomes, a primeira
luz coada pelos ramos finíssimos
das árvores, a água das nascentes
correndo nos canais de rega
do alto da ribeira. E um dia
foi como se fôssemos estrangeiros
um do outro: cumprimentámo-nos
no grupo de amigos que se reunia no café
e já nem procurámos em nós mesmos
o que nos haveria
de defender do mundo.
beijávamo-nos em segredo
resguardados pela excessiva
sombra dos lódãos
no murete do jardim. Era
como se tudo estivesse
a começar: a primeira pedra,
os primeiros nomes, a primeira
luz coada pelos ramos finíssimos
das árvores, a água das nascentes
correndo nos canais de rega
do alto da ribeira. E um dia
foi como se fôssemos estrangeiros
um do outro: cumprimentámo-nos
no grupo de amigos que se reunia no café
e já nem procurámos em nós mesmos
o que nos haveria
de defender do mundo.
A poesia em 2007
Se fosse no séc. XIX
diria dos teus lábios que são mel.
Mas hoje quase nada nos comove
e é ridículo falar da pele.
Assim escrevo os poemas e fraquejo
temendo uma imagem duvidosa.
Nem métrica nem rima: só a prosa
me é dada pra dizer que te desejo.
E temo sobre tudo a impressiva
metáfora, a hipérbole, o efeito,
a frase rebuscada e excessiva
do tipo «a água, o lume incandescente».
Escrever com emoção é um defeito
e amar-te, meu amor, é estar doente.
para sc
diria dos teus lábios que são mel.
Mas hoje quase nada nos comove
e é ridículo falar da pele.
Assim escrevo os poemas e fraquejo
temendo uma imagem duvidosa.
Nem métrica nem rima: só a prosa
me é dada pra dizer que te desejo.
E temo sobre tudo a impressiva
metáfora, a hipérbole, o efeito,
a frase rebuscada e excessiva
do tipo «a água, o lume incandescente».
Escrever com emoção é um defeito
e amar-te, meu amor, é estar doente.
para sc
sábado, janeiro 27, 2007
Um dia escreves
Um dia escreves como se a deriva dos continentes dependesse do modo como respiras pelo caule dos juncos nas margens da aluvião
como se as cabeceiras declivosas da península se desmoronassem só de mudares na parede as fotografias a sépia da infância
e escreves para não morrer de frio quando os assassinos e as propriedades se confundem nos quadros das exposições
como se adormecesses e a gramática de súbito instaurasse uma nova ordem
e o mundo fosse começar sem a água
sem o fogo onde numa manhã pretérita de novembro procuraste refúgio
em vez da tempestade.
como se as cabeceiras declivosas da península se desmoronassem só de mudares na parede as fotografias a sépia da infância
e escreves para não morrer de frio quando os assassinos e as propriedades se confundem nos quadros das exposições
como se adormecesses e a gramática de súbito instaurasse uma nova ordem
e o mundo fosse começar sem a água
sem o fogo onde numa manhã pretérita de novembro procuraste refúgio
em vez da tempestade.
O que não se pode dizer, 1
Rasurar uma biografia
no dia 14 de Novembro
de mil novecentos e noventa e sete
penso que foi
no dia 14 de Novembro
de mil novecentos e noventa e sete.
no dia 14 de Novembro
de mil novecentos e noventa e sete
penso que foi
no dia 14 de Novembro
de mil novecentos e noventa e sete.
Subscrever:
Mensagens (Atom)







