sábado, fevereiro 10, 2007

Se chovesse

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Memória da Água

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quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Memórias

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segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Em vez das palavras

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Ainda O Livro

Borges, em «Prólogo de Prólogos» (ed. Teorema, vol. IV, pg. 11), escreve: «Cerca de 1926 incorri num livro de ensaios de cujo nome não me quero lembrar…». «Dom Quixote de la Mancha», na edição da editora quase homónima (Dom Quixote), começa assim: «Num lugar da Mancha, de cujo nome não quero lembrar-me…»

A literatura não é outra coisa senão as repetições, o eco de um verbo antigo, um nome ou uma frase que se repete, o sobressalto de reconhecermos numa voz uma outra voz que se prolonga num texto, que a renova, que lhe dá um novo sentido.

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Agora que o inverno

Agora que o inverno parece ficar poisado
pelo fim da tarde nos ramos sem uma única folha
de tantas árvores do pomar
olhas de novo as laranjas
a sua luz imensa
a iluminar uma parede de cal.

quarta-feira, janeiro 31, 2007

Os estudos de impacte ambiental

o aprendiz do estaleiro de construção naval
morreu afogado num
tanque de rega com pouco
mais que três palmos de água
há quem anuncie uma crise
na náutica de recreio

terça-feira, janeiro 30, 2007

As quatro estações

Talvez nunca tivesse sido bem
assim. Talvez nunca tivesse existido uma fronteira
nítida entre as estações do ano, uma linha
rigorosa a separar o inverno
e a primavera, o outono e o verão.
Porque a memória meteorológica é a mais
débil das memórias - pior que a memória
do amor, a memória das mulheres que desejámos
ou julgámos terem-nos amado
verdadeiramente. Mas é isso
que fica da infância: os dias de chuva
sucedendo-se um após o outro,
ponto; as flores imensas nos canteiros dos jardins,
ponto; as folhas dos plátanos nas alamedas,
primeiro amarelas, e depois
vermelhas, e depois castanhas,
ponto; um sol impiedoso a cair a pique
nos lancis das avenidas,
ponto. E assim é que está certo:
que a memória da infância
não seja traída pela estatística
e pelas evidências científicas
das alterações climáticas à escala global.
Mesmo nos dias claros
de dezembro, límpidos, muito azuis,
eu vejo uma ameaçadora nuvem
e recuso-me a não ter frio.

domingo, janeiro 28, 2007

E um dia

Chegavas, o dia iluminava-se,
beijávamo-nos em segredo
resguardados pela excessiva
sombra dos lódãos
no murete do jardim. Era
como se tudo estivesse
a começar: a primeira pedra,
os primeiros nomes, a primeira
luz coada pelos ramos finíssimos
das árvores, a água das nascentes
correndo nos canais de rega
do alto da ribeira. E um dia
foi como se fôssemos estrangeiros
um do outro: cumprimentámo-nos
no grupo de amigos que se reunia no café
e já nem procurámos em nós mesmos
o que nos haveria
de defender do mundo.

Se eu te dissesse


A poesia em 2007

Se fosse no séc. XIX
diria dos teus lábios que são mel.
Mas hoje quase nada nos comove
e é ridículo falar da pele.

Assim escrevo os poemas e fraquejo
temendo uma imagem duvidosa.
Nem métrica nem rima: só a prosa
me é dada pra dizer que te desejo.

E temo sobre tudo a impressiva
metáfora, a hipérbole, o efeito,
a frase rebuscada e excessiva

do tipo «a água, o lume incandescente».
Escrever com emoção é um defeito
e amar-te, meu amor, é estar doente.

para sc

sábado, janeiro 27, 2007

Um dia escreves

Um dia escreves como se a deriva dos continentes dependesse do modo como respiras pelo caule dos juncos nas margens da aluvião
como se as cabeceiras declivosas da península se desmoronassem só de mudares na parede as fotografias a sépia da infância
e escreves para não morrer de frio quando os assassinos e as propriedades se confundem nos quadros das exposições
como se adormecesses e a gramática de súbito instaurasse uma nova ordem
e o mundo fosse começar sem a água
sem o fogo onde numa manhã pretérita de novembro procuraste refúgio
em vez da tempestade.

O que não se pode dizer, 1

Rasurar uma biografia

no dia 14 de Novembro
de mil novecentos e noventa e sete

penso que foi
no dia 14 de Novembro
de mil novecentos e noventa e sete.

quinta-feira, janeiro 25, 2007

A mulher que


J. C. Barros. Acrílico sobre papel.

terça-feira, janeiro 23, 2007

O que é dos livros

Estás sentado de frente
para a montra de vidro
do café. Vês a rapariga de jeans
a atravessar a passadeira
e procuras adivinhar
uma vida por detrás
dum rosto: uma infância, um rio,
o amor, uma dança
a meio da noite. Ela pára
no passeio, suspeitas
que te olha nos olhos, imaginas
que se decide a entrar
e a sentar-se a teu lado.

Estás sentado de frente
para a montra de vidro
e deixas o romance
a meio do capítulo IX. Olhas
a rua: lá fora uma rapariga de jeans
atravessa a passadeira

e por um instante
não compreendes o que é
do mundo, o que é dos livros.

Poética

A noite é agora o asfalto devolvido
pelo som de um automóvel
circulando, longe, do outro lado
do pomar de albricoques, a alta velocidade
na estrada nacional.

domingo, janeiro 21, 2007

Escombros [Actualizado]




J. C. Barros. «Escombros». Acrílico sobre tela, 80x80 cm.


quarta-feira, janeiro 17, 2007

Vês agora?

Compreendes que escrever um poema damor
no século vinte
e um
tem que se
lhe diga? Que não são possíveis
quaisquer
mínimas referências
ao corpo, que falar
da rumorosa pele
é quase um desaforo? Não sabes que
é necessário estilhaçar a métrica
(foda-se, um decassílabo…) e contar
quando muito
dos teus jeans
rasgados nos joelhos?

Eu sou um poeta moderno.

Vês agora, meu amor, a razão
de correres
dia após dia à
caixa de correio
em vão?

domingo, janeiro 14, 2007

Literatura

O vento dos poemas
não faz mexer
uma folha.

Dos perigos de ler apressadamente os manuais

Há uma estranha e quase
insolente ostentação nos projectos
dos desenhadores e dos engenheiros técnicos
que, alertados por osmose
para os perigos da simetria,
abusam dos elementos
em número ímpar
até não haver um alçado
que pareça assimétrico.