domingo, janeiro 14, 2007

O primeiro tema

O primeiro
tema

é o Tempo:
assistir ao crescimento
dos troncos
das bétulas
com o olhar
das crianças
acabadas de nascer

e não distinguir
entre duas marés
o movimento
das águas:
compreender
o que se perde

ao sacrificar
à efemeridade
a Exaltação.

René

Não esquecer o modo como pintava
em camadas sucessivas de tinta,
o vermelho, o amarelo, o azul,
dia após dia, muito vagarosamente,
deixando que o Tempo se constituísse
como um dos principais elementos
da sua Pintura
e da sua vida.

Os condicionamentos da crítica

Antes do Manuel de Freitas
podíamos escrever por exemplo
a tua rumorosa pele
ou
as breves e silenciosas sílabas do
teu nome.

Agora
é o caralho.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

A ruína

Guardava a casa, o lume intemporal,
como outros guardam uma língua
ou escondem da usura
alguns aspectos duma biografia.

Guardava a casa como se não houvesse
mundo além da escaleira
ou ao mundo não fosse dado entrar
atravessando a porta.

É difícil compreender agora
que a ruína possa começar assim
pelo lado de dentro, do interior dos objectos
que se chegou a supor imperecíveis.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

S/T

jcb



domingo, janeiro 07, 2007

Lugares


J. C. Barros. «Nenhum dos Lugares». Acrílico sobre tela, 40x40 cm.

A Redundância

para A. I.


A máquina hidráulica repõe
nos canais de rega
a água e a luz remanescente do inverno
um veio de silício que mistura
a obscura matéria dos astros
e a poeira que fica
incombustível
nas folhas das árvores depois dos meses breves
de junho
a cal incinerada nos fornos de calcário
as mãos abertas em vez da intempérie
a página do romance e

se respiras impões uma gramática
a Lentidão
a Redundância

sexta-feira, janeiro 05, 2007

O que não pode ser escrito

jcb




Canetas, whisky e café sobre toalha de papel.

quinta-feira, janeiro 04, 2007

O movimento

O movimento rápido das águas
entre duas margens cortadas em declive
é a imagem mais próxima que conheces
da lentidão.

quarta-feira, janeiro 03, 2007

Um ano

Um ano
um dia
uma palavra.

domingo, dezembro 31, 2006

Longe de casa

A Princesa
lava tachos e descasca batatas
das dez e meia às
quatro da tarde
e das seis às onze da noite.
Nos intervalos
varre o chão
e limpa as bancadas
da cozinha. Chega
a nem ter tempo
de usar a coroa.

Autocarros

No regresso
a polícia de fronteira
pediu-lhe os papéis
que não tinha. Telefonou logo
a dizer que o mais certo
era não chegar como acordado
a 27 de Dezembro. Estava
triste. E sabia
que na sua ausência
não haveria de faltar
quem servisse às mesas
do restaurante.

O amor

O amor é
às vezes um gesto: escrever
o nome
numa fotografia,
ir ao cinema em vez
do futebol.

Uma tristeza, mas enfim

O Saddam lá foi. É assim que nós, o mundo civilizado, parece que gostamos de mostrar como é - para que vejam.

sábado, dezembro 30, 2006

Sólo te pedía

Me acuerdo de ese tiempo en que decías
«lo hago todo por ti, mi amor».
Y yo te pedía tan sólo que te colgaras de las nubes
o que caminases sutilmente sobre el agua
de los grandes lagos
de la península.


Poema de J. C. Barros.
Tradução de Manuel Moya.

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Um dia

Um dia não sabes
o que fazer dos frutos maduros. Um dia
não acreditas nos mapas dos prédios.
Um dia não sabes
como estender a toalha
na mesa: onde colocar

os talheres. Um dia não sabes
a medida da água nos cântaros. Um dia
não reconheces a caligrafia das cartas.
Um dia não sabes
como pendurar na parede
os retratos: como escolher

os que ficam. Um dia estás só
entre estranhos e crianças velozes.

E só não sabes
ou recusas saber
que te devem
tudo.

Outro rio, 2

jcb


Outro rio, 1

jcb


sexta-feira, dezembro 22, 2006

Os lugares

O que são os lugares fora da memória que temos deles?