Antes do Manuel de Freitas
podíamos escrever por exemplo
a tua rumorosa pele
ou
as breves e silenciosas sílabas do
teu nome.
Agora
é o caralho.
domingo, janeiro 14, 2007
sábado, janeiro 13, 2007
sexta-feira, janeiro 12, 2007
A ruína
Guardava a casa, o lume intemporal,
como outros guardam uma língua
ou escondem da usura
alguns aspectos duma biografia.
Guardava a casa como se não houvesse
mundo além da escaleira
ou ao mundo não fosse dado entrar
atravessando a porta.
É difícil compreender agora
que a ruína possa começar assim
pelo lado de dentro, do interior dos objectos
que se chegou a supor imperecíveis.
como outros guardam uma língua
ou escondem da usura
alguns aspectos duma biografia.
Guardava a casa como se não houvesse
mundo além da escaleira
ou ao mundo não fosse dado entrar
atravessando a porta.
É difícil compreender agora
que a ruína possa começar assim
pelo lado de dentro, do interior dos objectos
que se chegou a supor imperecíveis.
domingo, janeiro 07, 2007
A Redundância
para A. I.
A máquina hidráulica repõe
nos canais de rega
a água e a luz remanescente do inverno
um veio de silício que mistura
a obscura matéria dos astros
e a poeira que fica
incombustível
nas folhas das árvores depois dos meses breves
de junho
a cal incinerada nos fornos de calcário
as mãos abertas em vez da intempérie
a página do romance e
se respiras impões uma gramática
a Lentidão
a Redundância
A máquina hidráulica repõe
nos canais de rega
a água e a luz remanescente do inverno
um veio de silício que mistura
a obscura matéria dos astros
e a poeira que fica
incombustível
nas folhas das árvores depois dos meses breves
de junho
a cal incinerada nos fornos de calcário
as mãos abertas em vez da intempérie
a página do romance e
se respiras impões uma gramática
a Lentidão
a Redundância
sexta-feira, janeiro 05, 2007
quinta-feira, janeiro 04, 2007
O movimento
O movimento rápido das águas
entre duas margens cortadas em declive
é a imagem mais próxima que conheces
da lentidão.
entre duas margens cortadas em declive
é a imagem mais próxima que conheces
da lentidão.
domingo, dezembro 31, 2006
Longe de casa
A Princesa
lava tachos e descasca batatas
das dez e meia às
quatro da tarde
e das seis às onze da noite.
Nos intervalos
varre o chão
e limpa as bancadas
da cozinha. Chega
a nem ter tempo
de usar a coroa.
lava tachos e descasca batatas
das dez e meia às
quatro da tarde
e das seis às onze da noite.
Nos intervalos
varre o chão
e limpa as bancadas
da cozinha. Chega
a nem ter tempo
de usar a coroa.
Autocarros
No regresso
a polícia de fronteira
pediu-lhe os papéis
que não tinha. Telefonou logo
a dizer que o mais certo
era não chegar como acordado
a 27 de Dezembro. Estava
triste. E sabia
que na sua ausência
não haveria de faltar
quem servisse às mesas
do restaurante.
a polícia de fronteira
pediu-lhe os papéis
que não tinha. Telefonou logo
a dizer que o mais certo
era não chegar como acordado
a 27 de Dezembro. Estava
triste. E sabia
que na sua ausência
não haveria de faltar
quem servisse às mesas
do restaurante.
Uma tristeza, mas enfim
O Saddam lá foi. É assim que nós, o mundo civilizado, parece que gostamos de mostrar como é - para que vejam.
sábado, dezembro 30, 2006
Sólo te pedía
Me acuerdo de ese tiempo en que decías
«lo hago todo por ti, mi amor».
Y yo te pedía tan sólo que te colgaras de las nubes
o que caminases sutilmente sobre el agua
de los grandes lagos
de la península.
Poema de J. C. Barros.
Tradução de Manuel Moya.
«lo hago todo por ti, mi amor».
Y yo te pedía tan sólo que te colgaras de las nubes
o que caminases sutilmente sobre el agua
de los grandes lagos
de la península.
Poema de J. C. Barros.
Tradução de Manuel Moya.
quinta-feira, dezembro 28, 2006
Um dia
Um dia não sabes
o que fazer dos frutos maduros. Um dia
não acreditas nos mapas dos prédios.
Um dia não sabes
como estender a toalha
na mesa: onde colocar
os talheres. Um dia não sabes
a medida da água nos cântaros. Um dia
não reconheces a caligrafia das cartas.
Um dia não sabes
como pendurar na parede
os retratos: como escolher
os que ficam. Um dia estás só
entre estranhos e crianças velozes.
E só não sabes
ou recusas saber
que te devem
tudo.
o que fazer dos frutos maduros. Um dia
não acreditas nos mapas dos prédios.
Um dia não sabes
como estender a toalha
na mesa: onde colocar
os talheres. Um dia não sabes
a medida da água nos cântaros. Um dia
não reconheces a caligrafia das cartas.
Um dia não sabes
como pendurar na parede
os retratos: como escolher
os que ficam. Um dia estás só
entre estranhos e crianças velozes.
E só não sabes
ou recusas saber
que te devem
tudo.
sexta-feira, dezembro 22, 2006
terça-feira, dezembro 19, 2006
Histórias, 1
[O dia das mentiras]
Não nos víamos há algum tempo. Telefonou-me: «Hoje faço anos. Logo à noite não queres aparecer lá em casa?» Fiquei de pé atrás: «Mas hoje é dia um de Abril... Falas a sério?» «Sim, é a sério. Verdade». E depois duma pausa: «Mas deixa lá, está à vontade: já estou habituado a que ninguém me apareça nas festas de aniversário...»
Não nos víamos há algum tempo. Telefonou-me: «Hoje faço anos. Logo à noite não queres aparecer lá em casa?» Fiquei de pé atrás: «Mas hoje é dia um de Abril... Falas a sério?» «Sim, é a sério. Verdade». E depois duma pausa: «Mas deixa lá, está à vontade: já estou habituado a que ninguém me apareça nas festas de aniversário...»
Não apenas
Não apenas o vinho de uma das taças mas o de ambas
e duas: bebê-lo assim um do outro ou não
separados na distância: acre, doce,
sem uma única pergunta ou indecisão.
e duas: bebê-lo assim um do outro ou não
separados na distância: acre, doce,
sem uma única pergunta ou indecisão.
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