sábado, novembro 25, 2006

Ciência do que é Real e Verdadeiro

Um poema de três versos ou a cal
iluminam a tarde
por igual
O que cintila
nem chega a ser
uma sílaba
Entre uma e outra frase
o que é
o amor?
Numa única palavra
se escondem as sílabas
da água
Escreveres uma frase
e regressarem
as aves
Um corpo ou uma página
que te devolvam
a água
«Dêem-me A Palavra
e moverei
o mundo»

segunda-feira, novembro 20, 2006

Outono

O vento
espalha nas mesas de trabalho
as frases dos livros

Palavras

O mar o amor
o amar
te

Nos teus ombros

Tocar nos teus ombros
as marcas d
água

Tudo

Quero

o teu nome

domingo, novembro 19, 2006

Ciência

Falavas duma espécie de Ciência (ou Lugar)
onde por um instante
se equilibravam as roldanas e as palavras

e as mãos ou a pedra
acolhiam indiferentemente
o desolado rumor das nascentes

quebrando de colina em colina
a memória de tudo
o que não aconteceu ainda.

Não termos aprendido

Revês Auschwitz
e custa-te compreender
não exactamente como foram possíveis os crimes
mas como é possível
tanto tempo depois
não termos aprendido
nada.

Tábua

Aprender a errar
com os erros
sucessivos

[Outra vez Georges de la Tour]

Onde nascem as águas
adormeces
iluminada por dentro

O lume

Conhecer o lume
e querer continuar
a queimar-se nele

[Outra vez a Linguagem]

Dizes a Palavra
e desmoronam-se
as cabeceiras declivosas

Não tens/ outro nome

Não tens
outro nome:
o que te dava

quarta-feira, novembro 15, 2006

Um erro ortográfico

O António, meu particular amigo, da forma civilizada que não conhece quem o não conhece, pergunta-me por mail, relativamente ao poema publicado exactamente antes do presente post, se não queria dizer «sedela» em vez de «sediela». Fui, claro, à minha bíblia, ostensivamente, esclarecer a coisa: mas o Houaiss deixou-me mal, o filho da mãe, e a verdade é que não reconhece a palavra tal qual a aprendi na minha precoce juventude de entusiasmado e militante pescador de trutas Fario fario: lá registando, embora (o Houaiss), o termo em que o António insiste: sedela.

Isto é daquelas coisas decisivas, fundamentais, que não deveriam ficar sem registo e discussão: a língua pertence aos senhores dos acordos ortográficos, pertence a quem a fala, pertence ao irredutível catálogo dos dicionários?

Aqui regressarei, claro, sobre o assunto. Mas gostaria de o deixar assim, desde já, aberto a comentários de quem se atreva (ou «astreva»?) a perorar. E depois falamos.

[Pelo sim pelo não, deixo no poema - só por causa das três sílabas, que me davam mais jeito... - o termo errado.]