quinta-feira, novembro 09, 2006

Depois das chuvas

Depois das chuvas, depois do sobressaltado rumor do levante, a noite parece ter-se recolhido, quase doméstica, nos ramos das figueiras jovens. Nenhuma folha, claro, nenhum silêncio acolhe as suas tão breves frases: mas a lua quase cheia, as águas subterrâneas, a sombra do pomar – instituem uma nova ordem: e é então que a luz, a luz da noite, adormece enfim, vagarosa, nos primeiros dias de novembro.

segunda-feira, novembro 06, 2006

Conquistar o mundo

Lembro-me de quando
acertámos conquistar o mundo: haveríamos
de começar, porque não poderíamos
ser surpreendidos pelo avanço da neve
à medida que nós mesmos
fôssemos avançando as tropas,
de norte para sul; e
de poente para nascente,
de modo a que o sol não
nos ficasse de frente
nas batalhas decisivas
dos finais de tarde. Tínhamos

problemas logísticos, claro: carros
de combate com rolamentos
e eixo de varetas, espingardas
de madeira da serração;
e no chão
de caruma dos pinhais bravos
é que procurávamos, de entre as pinhas que
se recusavam a abrir por inteiro,
as granadas defensivas. Mas

o problema verdadeiro,
a derradeira desgraça, é
que as aulas iam começar
e nenhum de nós, voluntariosos
soldados da milícia
destinados a salvar
o mundo, teve autorização
dos pais para faltar
à escola por um semestre, pondo
em risco as orais do exame
da quarta classe.

Ainda a chuva

jcb





domingo, novembro 05, 2006

As perguntas

jcb [Óleo sobre porta de armário]





Há perguntas que permanecem sem resposta. Sem a necessidade de justificação ou desagravo. Ficam assim, ténues, frágeis, sem defesa nem protecção. E erguem as suas bandeiras como se apenas o silêncio pudesse tocá-las por dentro.

Nem a cal

jcb





Nada de que não pudéssemos esconder o rosto. Nada de que não pudéssemos, nas suas imensas vozes, adormecer de frio ou de esquivança. Às vezes é tarde: nem a cal nos ilumina os caminhos por entre as árvores de sombra.

Veio a chuva

jcb





Veio a chuva. E as rãs, que chegam em Março e depois desaparecem quando os ameaços de frio avançam por sobre os planos de água, deixaram por instantes, antecipadamente, o seu refúgio. Não é ainda o tempo. É apenas um nome. É apenas um pretexto para que as folhas das figueiras anunciem, de um modo obscuro, os primeiros meses de Novembro. Sim, é tarde. Mas, mais uma vez, corro à pedra da entrada e olho as águas, por dentro da noite, à procura da sua inúmera, imprevista luminosidade.

sábado, novembro 04, 2006

Ver, 2

Sair da caixa para ver o que está lá dentro.

quinta-feira, novembro 02, 2006

Não necessariamente

Depois do fogo e das cinzas, a água: a água não necessariamente regeneradora.


«Waters»
Imagem: Daniela Sousa.
Órgão: Arménio Mota; Piano e Percussão: Manuel Guimarães.

quarta-feira, novembro 01, 2006

Los barcos de las perlas

Los barcos de las perlas navegan en el nácar
de las aguas reconvertidas en íntimo silencio:
vueltos del revés, vueltos hacia adentro
como si sólo los guiase la geometría y el álgebra.

Los barcos de las perlas no despliegan las velas:
navegan en el nácar cortando en tajadas
la oscura materia de las más viejas aguas
que vuelven desde las mínimas fracciones del éter.

No van marineros en los barcos de las perlas:
sólo tú vas al timón, sólo tú los llevas:
y la noche es una sombra transformada en fuego
del amor que ni siquiera une las más efímeras cosas.


Poema de José Carlos Barros.
Tradução para castelhano: Manuel Moya.

segunda-feira, outubro 30, 2006

Reverso

Até 17 de Novembro, na Casa de Cacela: REVERSO, exposição de pintura e escultura de Filipa Nuñez.


Filipa Nuñez.

1: Escultura (fragmento) da série «Egg Balance». Resina, papier mâché e penas.
2: Fragmento de pintura da série «A cidade e o campo». Técnica mista sobre tela.

sábado, outubro 28, 2006

Não peço mais

Não peço mais do mundo:
as manhãs desenhadas
pelo vento nos taludes das margens
cortadas a pique dos açudes,

a cal e o oxigénio
nos pátios de tijoleira,
a nuvem de silêncio
adormecida nos telhados vermelhos

das casas da encosta, a água
do tanque, o teu nome,
o teu rosto desviando

as tempestades pretéritas
para as páginas dos romances
publicados em edições de autor.

Antes de falar do Outono

jcb

quarta-feira, outubro 25, 2006

Ver

Conhecemos melhor ao longe. Às vezes é a distância o que mais nos aproxima de nós mesmos.

terça-feira, outubro 24, 2006

Como se fosse sobre a Alma ou a passagem do Tempo

http://www.youtube.com/watch?v=c3MWjfdhOl8#

«Burned». Imagem: Daniela Sousa; Música: Manuel Guimarães.

domingo, outubro 22, 2006

[Memória descritiva]

jcb



Antes da chuva, antes ainda do vento
de sudoeste, as águas de outubro
ficavam assim, cedo de manhã, intactas, como
pequenas pérolas que
as mãos recolhessem
para iluminar o inverno.

A música

De algumas músicas que há muito anos
sobre todas as coisas verdadeiramente nos tocaram
dizemos mais tarde que «envelheceram mal»
como se elas tivessem mudado na sua estrutura
e nós permanecêssemos jovens.

A albarda só pesa a quem a leva

jcb


quinta-feira, outubro 19, 2006

Fio tenso, 3

Um dia cegas de nem
a mínima ondulação na água
te devolver
a pedra disparada.

[Itálico]





«Fall River/Massachusetts». Fotografia de J. F. Rodrigues.
jcb