Não peço mais do mundo:
as manhãs desenhadas
pelo vento nos taludes das margens
cortadas a pique dos açudes,
a cal e o oxigénio
nos pátios de tijoleira,
a nuvem de silêncio
adormecida nos telhados vermelhos
das casas da encosta, a água
do tanque, o teu nome,
o teu rosto desviando
as tempestades pretéritas
para as páginas dos romances
publicados em edições de autor.
sábado, outubro 28, 2006
quarta-feira, outubro 25, 2006
terça-feira, outubro 24, 2006
Como se fosse sobre a Alma ou a passagem do Tempo
http://www.youtube.com/watch?v=c3MWjfdhOl8#
«Burned». Imagem: Daniela Sousa; Música: Manuel Guimarães.
domingo, outubro 22, 2006
[Memória descritiva]
jcb


Antes da chuva, antes ainda do vento
de sudoeste, as águas de outubro
ficavam assim, cedo de manhã, intactas, como
pequenas pérolas que
as mãos recolhessem
para iluminar o inverno.


Antes da chuva, antes ainda do vento
de sudoeste, as águas de outubro
ficavam assim, cedo de manhã, intactas, como
pequenas pérolas que
as mãos recolhessem
para iluminar o inverno.
quinta-feira, outubro 19, 2006
Sophia, o ICN e a Culatra
Num dos mais belos poemas da língua portuguesa, Sophia de Mello Breyner Andresen insiste que «A civilização em que estamos é tão errada que/ Nela o pensamento se desligou da mão». O poema é já antigo: mas a passagem dos anos, ao invés de o envelhecer ou de lhe retirar esse iluminado fulgor, acrescentou às suas sílabas uma estranha e dolorosa actualidade. Nunca, como no nosso tempo, foi tão evidente esse afastamento entre mão e pensamento, entre teoria e prática, entre discurso e realidade concreta.
O mundo urbano e o mundo rural deixaram de se constituir como elementos de complementaridade e equilíbrio: diluídas as suas fronteiras, há uma espécie de suburbanidade (dito melhor: uma cultura suburbana) que avança, avassaladora, boçal, sem saber muito bem para onde caminha e que objectivos pretende atingir. Num tempo em que os instrumentos de navegação nos permitiriam tirar os pontos de rumo, é como se uma esquiva vocação para o desastre nos deixasse, enquanto alternativas únicas, a navegação à vista ou o naufrágio.
[Texto completo no Jornal do Algarve]
O mundo urbano e o mundo rural deixaram de se constituir como elementos de complementaridade e equilíbrio: diluídas as suas fronteiras, há uma espécie de suburbanidade (dito melhor: uma cultura suburbana) que avança, avassaladora, boçal, sem saber muito bem para onde caminha e que objectivos pretende atingir. Num tempo em que os instrumentos de navegação nos permitiriam tirar os pontos de rumo, é como se uma esquiva vocação para o desastre nos deixasse, enquanto alternativas únicas, a navegação à vista ou o naufrágio.
[Texto completo no Jornal do Algarve]
domingo, outubro 15, 2006
Fio tenso, 2
Num tempo em que as frases
eram devolvidas aos seus primeiros nomes
e a água revertia da nuvem
e o fogo da raiz da urze
tu subias a escaleira e declaravas o desastre
dos incêndios a nascer do movimento
vagaroso das mãos sobre o corpo.
eram devolvidas aos seus primeiros nomes
e a água revertia da nuvem
e o fogo da raiz da urze
tu subias a escaleira e declaravas o desastre
dos incêndios a nascer do movimento
vagaroso das mãos sobre o corpo.
Dalto a baixo
João Gonçalves não compreende como é que, por razões legislativas, vamos agora ficar assim impedidos de «dar uma legítima e oportuna chapada no filho mal educado e parvo». De facto, rsrs... Eu, quanto aos filhos parvos, então, nem discuto - é desancá-los dalto a baixo...
La nostalgia
Hubo un tiempo en que extendíamos los frutos
en la estera de las azoteas como si todavía fuese
posible añadir a la tarde otra luz
que la tarde con exasperación buscaba
en sus frases de verano. Los niños
corrían por los bordes de las acequias,
se sumergían en la alberca o se levantaban en
equilibrio en las cordilleras distantes. Entonces, las mujeres
se alzaban de sus sillas de esparto y venían
también ellas al patio, deslumbradas, a mirar las
llamaradas inmensas y a ocultar con el pañuelo
en la cara las lágrimas de una nostalgia sin nombre.
[Poema de José Carlos Barros; tradução de Manuel Moya]
en la estera de las azoteas como si todavía fuese
posible añadir a la tarde otra luz
que la tarde con exasperación buscaba
en sus frases de verano. Los niños
corrían por los bordes de las acequias,
se sumergían en la alberca o se levantaban en
equilibrio en las cordilleras distantes. Entonces, las mujeres
se alzaban de sus sillas de esparto y venían
también ellas al patio, deslumbradas, a mirar las
llamaradas inmensas y a ocultar con el pañuelo
en la cara las lágrimas de una nostalgia sin nombre.
[Poema de José Carlos Barros; tradução de Manuel Moya]
sábado, outubro 14, 2006
O peixe estatístico
As campanhas contra o Algarve começavam geralmente em meados de Julho e resumiam-se à vociferação de uns cronistas contra o inferno algarvio das estradas e dos restaurantes e das bichas para a costeleta e dos lugares de estacionamento e do urbanismo e do lixo e do estado do pavimento das ruas e da chuva se chove sem aviso prévio ou do vento se levanta no ar os sacos de plástico das batatas fritas. O retrato era, e é, invariavelmente, negro: no meio de um oásis que parece coincidir com a quase totalidade do território nacional, onde o substracto cívico e o ambiente e o ordenamento se constituem como exemplos, o Algarve emerge enquanto ferida que envergonha a Pátria. Clara Ferreira Alves, por exemplo, retratou assim o Algarve, em Julho, nas páginas do Expresso: «Como é possível estender a toalha numa areia preta, carregada de detritos, que nenhum autarca desses do Sul decidiu tornar habitável?».
Há razões para afirmar que ainda vamos ter saudades do tempo em que as campanhas contra a Região eram sazonais e se resumiam a isto, a esta má-fé pré-estival de escribas pagos à lauda…
Entretanto, e não propriamente em consequência da «areia preta» a que a cronista masoquista faz referência (todos os anos a vemos em Faro, no Verão – presume-se que no intervalo de escrever crónicas lançando coriscos sobre os sítios que escolhe), o Algarve enriqueceu por efeito estatístico. As contas são feitas assim: antigamente tínhamos um peixe para o jantar; agora continuamos a ter um peixe; mas o alargamento a Leste determinou em Bruxelas que passemos a ter um peixe real mais um peixe estatístico: temos, portanto, dois peixes: ainda que ao peixe estatístico, como se depreende, não nos seja possível afivelar o dente… Mas isso bastou – o peixe estatístico, somado a um inqualificável critério de prioridades – para que ao Algarve, no próximo quadro comunitário (2007 a 2013), esteja destinado não mais que metade do montante financeiro a que teve direito entre 1999 e 2006.
O Algarve, entretanto, já assim enriquecido com um peixe estatístico e um bocadinho anestesiado com a ciência das médias e das medianas, foi assistindo, incrédulo, ao evoluir de uma lei (das Finanças Locais) que se destina supostamente a um maior equilíbrio na distribuição das receitas do Estado pelos diferentes concelhos do país. Curiosamente – mas isto há-de ser um pormenor –, o resultado é que o Algarve se «equilibra» perdendo, no seu conjunto, mais de metade do montante actual das transferências do Estado, enquanto que um conjunto alargado de concelhos, nomeadamente das regiões metropolitanas de Lisboa e do Porto, verá aumentadas as transferências em valores que rondam ou ultrapassam os 50%. Se há equilíbrio? Há: a nível nacional, no seu conjunto, há: há sempre equilíbrio se o corte de uma das parcelas tem relação, em grau idêntico, com a correspondente benesse na outra parcela. O azar – mas isto não há-de ser senão azar – é que a parcela dos cortes calhe exactamente ao Algarve… Como se, tendo um peixe estatístico que não cabe na grelha, a Região já nem precisasse de meter ao lume o peixe efectivo de que dispunha…
Assim, com estas contas de peixes e equilíbrios, o Algarve perde metade dos fundos comunitários e perde metade das transferências do Estado… O caso seria de sorrir, de brincar nas tertúlias de sexta-feira à noite, se o que estivesse em causa não fossem pessoas, desinvestimento em requalificação ambiental e paisagística, em equipamentos sociais, em infraestruturas escolares, em qualidade de vida, em competitividade territorial… Ou seja: se o caso não fosse tratar-se do mundo real e não de um filme ou de um romance sobre teorias de conspiração em que o argumento versasse sobre o Algarve como um incómodo mal resolvido pela Pátria. Nesse filme, nessa obra de ficção, até no ano em que se comemorasse em Portugal, pela primeira vez, o Dia Mundial do Turismo, a principal região turística do País ficaria de fora do retrato – e haveria muitos aplausos meio-envergonhados de mostrarem os dentes…
[Jornal do Algarve]
Há razões para afirmar que ainda vamos ter saudades do tempo em que as campanhas contra a Região eram sazonais e se resumiam a isto, a esta má-fé pré-estival de escribas pagos à lauda…
Entretanto, e não propriamente em consequência da «areia preta» a que a cronista masoquista faz referência (todos os anos a vemos em Faro, no Verão – presume-se que no intervalo de escrever crónicas lançando coriscos sobre os sítios que escolhe), o Algarve enriqueceu por efeito estatístico. As contas são feitas assim: antigamente tínhamos um peixe para o jantar; agora continuamos a ter um peixe; mas o alargamento a Leste determinou em Bruxelas que passemos a ter um peixe real mais um peixe estatístico: temos, portanto, dois peixes: ainda que ao peixe estatístico, como se depreende, não nos seja possível afivelar o dente… Mas isso bastou – o peixe estatístico, somado a um inqualificável critério de prioridades – para que ao Algarve, no próximo quadro comunitário (2007 a 2013), esteja destinado não mais que metade do montante financeiro a que teve direito entre 1999 e 2006.
O Algarve, entretanto, já assim enriquecido com um peixe estatístico e um bocadinho anestesiado com a ciência das médias e das medianas, foi assistindo, incrédulo, ao evoluir de uma lei (das Finanças Locais) que se destina supostamente a um maior equilíbrio na distribuição das receitas do Estado pelos diferentes concelhos do país. Curiosamente – mas isto há-de ser um pormenor –, o resultado é que o Algarve se «equilibra» perdendo, no seu conjunto, mais de metade do montante actual das transferências do Estado, enquanto que um conjunto alargado de concelhos, nomeadamente das regiões metropolitanas de Lisboa e do Porto, verá aumentadas as transferências em valores que rondam ou ultrapassam os 50%. Se há equilíbrio? Há: a nível nacional, no seu conjunto, há: há sempre equilíbrio se o corte de uma das parcelas tem relação, em grau idêntico, com a correspondente benesse na outra parcela. O azar – mas isto não há-de ser senão azar – é que a parcela dos cortes calhe exactamente ao Algarve… Como se, tendo um peixe estatístico que não cabe na grelha, a Região já nem precisasse de meter ao lume o peixe efectivo de que dispunha…
Assim, com estas contas de peixes e equilíbrios, o Algarve perde metade dos fundos comunitários e perde metade das transferências do Estado… O caso seria de sorrir, de brincar nas tertúlias de sexta-feira à noite, se o que estivesse em causa não fossem pessoas, desinvestimento em requalificação ambiental e paisagística, em equipamentos sociais, em infraestruturas escolares, em qualidade de vida, em competitividade territorial… Ou seja: se o caso não fosse tratar-se do mundo real e não de um filme ou de um romance sobre teorias de conspiração em que o argumento versasse sobre o Algarve como um incómodo mal resolvido pela Pátria. Nesse filme, nessa obra de ficção, até no ano em que se comemorasse em Portugal, pela primeira vez, o Dia Mundial do Turismo, a principal região turística do País ficaria de fora do retrato – e haveria muitos aplausos meio-envergonhados de mostrarem os dentes…
[Jornal do Algarve]
[Um poema inédito de Teresa Rita Lopes]
Ser do Sul
Colher
o fruto
da manhã
` `na romã
` `escancarada
Recolher
ao côncavo
da noite
` `na rede
` `esburacada
` `de estrelas
Colher
o fruto
da manhã
` `na romã
` `escancarada
Recolher
ao côncavo
da noite
` `na rede
` `esburacada
` `de estrelas
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