sexta-feira, setembro 15, 2006

O que quer dizer, 2

Pergunta (v. post anterior): quantos, em casa de Pitágoras, se entregavam ao elevado desporto da ciência?

A resposta de Pitágoras a Polícrates

Dir-te-ei, pois, Polícrates,
o número dos que em minha casa
se rendem voluntários ao elevado
desporto da ciência:
a metade interessa-lhes
o estudo da matemática
e a uma quarta parte o culto
da natureza imortal;
um sétimo aplica-se
ao desígnio do absoluto silêncio
e do intemporal
discurso do amor;
e finalmente
há três mulheres
que estudam o movimento dos astros,
uma delas Teana,
a mais bela e clemente.



[Versão livre a partir de um dos enigmas da Livro XIV da Antologia Palatina]

quinta-feira, setembro 14, 2006

O que quer dizer

O que quer dizer «não percebo este poema»?

quarta-feira, setembro 13, 2006

Os comentários dos blogues

Nos limites da legibilidade
uma criança sobe os degraus da torre da Fábrica de Gelo
corre desamparada nos lancis da guarda periférica

atira-se de braços abertos a imaginar uma nuvem inversa

a queda no vazio recorda-lhe uma fórmula matemática
olha por instantes o relógio de pulso
imagina a distância que a separa do solo

cai finalmente nas páginas ímpares dum livro de poemas.

segunda-feira, setembro 11, 2006

Damasqueiro

Nenhuma
flor
pesa mais

que a sua
própria
sombra.

domingo, setembro 10, 2006

Poesia

Miguel Silva, durante o I Encontro de Autores Residentes em Portugal, realizado em Coimbra, lamenta-se que «as editoras só editem quando sabem que uma obra dá lucro». É lamentável, de facto. Eu propunha, em nome da Poesia, legislação que obrigasse as editoras a editar quando sabem que uma obra dá prejuízo.

sábado, setembro 09, 2006

Para sempre

Se beberes comigo uma cerveja
no balcão de madeira
se vestires mais uma vez
a minha camisola do inverno
por ti eu mato-me de novo
amor.

sexta-feira, setembro 08, 2006

Ainda o Verão, 2

jcb


As nuvens azuis de silêncio
iluminam o Verão.
O mar de Setembro
ilumina o Verão.
As corridas das crianças
iluminam o Verão.
A cal dos muros dos prédios
ilumina o Verão.
Os degraus das açoteias
iluminam o Verão.
A água remanescente das cisternas
ilumina o Verão.
As raízes breves das amendoeiras
iluminam o Verão.
O ondulado das dunas
ilumina o Verão.
Os fios de esparto
iluminam o Verão.
A tijoleira do pátio
ilumina o Verão.
As marés do equinócio
iluminam o Verão.
A memória dos teus nomes
ilumina o Verão.
As sílabas demoradas de Setembro
iluminam o Verão.

terça-feira, setembro 05, 2006

Ainda o Verão

jcb



O lodo

jcb


Partes do mundo

Há partes do mundo que são território exclusivo dos filhos da puta. Só eles dispõem dos códigos de acesso. E aí vegetam ou levitam por instantes simulando a elegância, e aí chafurdam ou dão a ilusão de praticarem voo livre ou o estilo crawl em águas dúbias.

Viagem

jcb


Em vez das imagens

São duas ou três coisas apenas e te perseguem
desde sempre como se às vezes nem pudesses
levantar os pés do chão na sua ausência.
Em vez das imagens, em vez de trocarmos poemas
por m@il, em vez de retomarmos exaltadas
polémicas sobre a morte da Paisagem ou os tons
de cinzento nas encostas frias de novembro
a beber cerveja nas esplanadas, deixemos apenas
a cicatriz doer-nos
e fiquemos assim conversados.

domingo, setembro 03, 2006

Outra vez os monstros afáveis

Os monstros afáveis
não sabem como acender as luzes
como transformar a sombra no iodo das lâmpadas
como desenhar uma nuvem azul na água dos tanques
quando a noite adormece nos taludes
como tirar as páginas em branco
do fundo das cisternas
enquanto o outono deixa as suas desprotegidas aves
a caminho dos açudes.



jcb

Os exemplos, 2

jcb



Os exemplos, 1

jcb


sexta-feira, setembro 01, 2006

O Livro, 3

Aldonza Lorenzo, a mulher real, não existe ao longo de todo o enredo do Livro. Aldonza, a mulher real, só existe por um instante para que Dulcinea del Toboso, a personagem imaginada, verdadeiramente exista para sempre.

quinta-feira, agosto 31, 2006

O Livro, 2 [um parágrafo de Sancho Pança precedido de um parágrafo de Quixote]

Só me move a Justiça a exemplo dos antigos. Como vem nos livros.

Mesmo que os antigos, pelo menos como vem nos livros, a não tivessem praticado nunca.

[Alterado em 2006.09.01]

segunda-feira, agosto 28, 2006

O Livro, 1

Se a questão não fosse central, Cervantes não se daria ao trabalho de vir a terreiro desvalorizá-la, realçando que o importante é que no decorrer da história não nos arredemos um til, ou um triz, da verdade verdadeira: qual o verdadeiro sobrenome do fidalgo? Quixana, como afiança Aquilino? Quijana, como insiste Miguel Serras Pereira seguindo a lição da Real Academia Española? Ou Quejana, como se descobre numa edição da Alba Libros, S.L., em capa dura e acompanhada dos conhecidos desenhos de Gustavo Doré?

quarta-feira, agosto 23, 2006

O serrim

Passar na estrada e parar por instantes
no caminho que leva
à serração
da infância: muros de blocos
de cimento, o serrim
armazenado em talhões numerados,
o programa informático de corte,
os desperdícios de ripa alinhados
em achas
para as salamandras.
E nem o odor da madeira,
misturado numa espécie de gasolina
ou éter,
traz às esquadrias
a memória dos fustes de carvalho
de que reverteram.