terça-feira, setembro 05, 2006

Viagem

jcb


Em vez das imagens

São duas ou três coisas apenas e te perseguem
desde sempre como se às vezes nem pudesses
levantar os pés do chão na sua ausência.
Em vez das imagens, em vez de trocarmos poemas
por m@il, em vez de retomarmos exaltadas
polémicas sobre a morte da Paisagem ou os tons
de cinzento nas encostas frias de novembro
a beber cerveja nas esplanadas, deixemos apenas
a cicatriz doer-nos
e fiquemos assim conversados.

domingo, setembro 03, 2006

Outra vez os monstros afáveis

Os monstros afáveis
não sabem como acender as luzes
como transformar a sombra no iodo das lâmpadas
como desenhar uma nuvem azul na água dos tanques
quando a noite adormece nos taludes
como tirar as páginas em branco
do fundo das cisternas
enquanto o outono deixa as suas desprotegidas aves
a caminho dos açudes.



jcb

Os exemplos, 2

jcb



Os exemplos, 1

jcb


sexta-feira, setembro 01, 2006

O Livro, 3

Aldonza Lorenzo, a mulher real, não existe ao longo de todo o enredo do Livro. Aldonza, a mulher real, só existe por um instante para que Dulcinea del Toboso, a personagem imaginada, verdadeiramente exista para sempre.

quinta-feira, agosto 31, 2006

O Livro, 2 [um parágrafo de Sancho Pança precedido de um parágrafo de Quixote]

Só me move a Justiça a exemplo dos antigos. Como vem nos livros.

Mesmo que os antigos, pelo menos como vem nos livros, a não tivessem praticado nunca.

[Alterado em 2006.09.01]

segunda-feira, agosto 28, 2006

O Livro, 1

Se a questão não fosse central, Cervantes não se daria ao trabalho de vir a terreiro desvalorizá-la, realçando que o importante é que no decorrer da história não nos arredemos um til, ou um triz, da verdade verdadeira: qual o verdadeiro sobrenome do fidalgo? Quixana, como afiança Aquilino? Quijana, como insiste Miguel Serras Pereira seguindo a lição da Real Academia Española? Ou Quejana, como se descobre numa edição da Alba Libros, S.L., em capa dura e acompanhada dos conhecidos desenhos de Gustavo Doré?

quarta-feira, agosto 23, 2006

O serrim

Passar na estrada e parar por instantes
no caminho que leva
à serração
da infância: muros de blocos
de cimento, o serrim
armazenado em talhões numerados,
o programa informático de corte,
os desperdícios de ripa alinhados
em achas
para as salamandras.
E nem o odor da madeira,
misturado numa espécie de gasolina
ou éter,
traz às esquadrias
a memória dos fustes de carvalho
de que reverteram.

segunda-feira, agosto 14, 2006

Regressos, 2

imagem de Jorge Manuel Martins





Cada uma das linhas é um percurso,
uma memória. A esta escala
não se distinguem pormenores:
um muro, um largo, um tanque,
um caminho íngreme
por entre pedras que sobrevieram
ao tempo, à erosão do vento
e das águas. Nenhuma biografia
resiste à ampliação dos mapas: quando
irrompem as lágrimas,
os corpos desejados nos meses
de novembro, a luz imensa das macieiras
do cedo, o azul dos cântaros,
os paus de negrilho
cortados à navalha.

domingo, agosto 13, 2006

Regressos




duas imagens inéditas de Jorge Manuel Martins

sábado, agosto 12, 2006

Até não haver

O mundo começa por ser
uma pedra
e a vibração dessa pedra
nos açudes dos rios:
antes dos primeiros nomes
ou das primeiras folhas iluminadas do ácer:
antes da estrela das manhãs de junho:
antes das sete pétalas inumeráveis.
A água demora
nos taludes das margens
até não haver
uma única página
por escrever.

Poldras

jcb


sexta-feira, agosto 11, 2006

Uma palavra

Uma palavra cria
um universo: gambiarra.
E a sombra regressa quase obsessiva
cortada
em fatias
no combarro.
E sobe os degraus da loja
e fica por instantes poisada
nos muros
do lagar.
O vinho e a luz da gambiarra
aquecem o Inverno
antes ainda
da lareira acesa.

Nuvem

jcb

Depois da gripe

jcb


domingo, agosto 06, 2006

Outra vez a Luz

Teresa Patrício: como se fosse um vitral.


Trapologia de Teresa Patrício.

sábado, agosto 05, 2006

«Luz, II»

«Luz, II»: uma arte que privilegia os relevos e os contrastes de cor, luminosidade e textura dos tecidos; mosaicos assimétricos e um labirinto de onde se parte sem fios de regresso.

Domingo, 6 de Agosto, 18 horas: inauguração da exposição de Teresa Patrício na Casa de Cacela.


Quadro de Teresa Patrício da série «Trapologias».

Vocação marítima

sair
das penínsulas
a nado

Os espelhos

devolvida pelos espelhos da água
a lua tropeça
na sua própria luz