Quando Edvard Munch pintou O Grito
não conseguiu dormir doze noites a fio,
como se tivesse uma Navalha no cérebro
ou um Prego enferrujado espetado no fígado.
segunda-feira, julho 10, 2006
O Verão
E no dia dezanove de Julho, à hora em que a manhã começava a nascer no oriente, os clientes do bar da praia riam-se e dançavam nus no areal em redor das tochas acesas. E era já de manhã e dançavam ainda. E nada mais importava no mundo. E quando os agentes da polícia marítima apareceram com megafones e com o ruído das vozes ampliado nos megafones, como que a procurar impor uma ordem contrária à ordem natural do Verão, uma aragem súbita ergueu-se na praia e fez-se noite de novo. E os agentes acenderam lanternas e holofotes e começaram um interrogatório exaustivo. Mas os clientes do bar da praia eram todos exactamente iguais, e tinham todos a mesma voz, e tinham todos o mesmo nome. Os agentes olhavam para os bilhetes de identidade e confirmavam por via oficial que os clientes do bar da praia tinham todos a mesma cara e o mesmo nome e a mesma idade. Foi então que se ouviu o agitar imenso de uma nuvem de corvos a aproximar-se. E quando o barulho das aves se perdeu na distância e os agentes da polícia marítima ergueram de novo a cabeça e tiraram a cara das mãos, já não havia ninguém ao balcão, e já não havia ninguém na esplanada, e já não havia ninguém nas dunas ou em redor das tochas acesas. E apenas a música se ouvia ainda misturada ao leve ruído das ondas a desfazerem-se na areia molhada.
As crónicas
jcb

É certo que o mundial, temendo-se um excesso de ruído num tempo em que todos, de Carlos do Carmo a Marcelo Rebelo de Sousa, são promovidos subitamente a sumidades da táctica da bola, não passou por aqui. Mas aqui, nos jardins da Casa, escreveram-se algumas das melhores crónicas da época. O resto foi essencialmente ruído, poeira...

É certo que o mundial, temendo-se um excesso de ruído num tempo em que todos, de Carlos do Carmo a Marcelo Rebelo de Sousa, são promovidos subitamente a sumidades da táctica da bola, não passou por aqui. Mas aqui, nos jardins da Casa, escreveram-se algumas das melhores crónicas da época. O resto foi essencialmente ruído, poeira...
terça-feira, julho 04, 2006
Um fio
Falemos do passado: porque só o futuro interessa.
Falemos do amor traído e da exaltação
quase inverosímil da luz derramada
nas tijoleiras dos pátios. Falemos dos rios e
desse Inverno antigo em que as águas ergueram
nos troncos das árvores das margens
os vagarosos anéis da idade.
Falemos do passado: porque só o futuro interessa.
Falemos da casa que ruiu. Falemos do musgo
adormecido nas encostas da umbria.
Falemos dos livros onde sublinhámos
as frases que sobre todas as coisas
nos haveriam, mais tarde, de perder.
Falemos do amor traído e da exaltação
quase inverosímil da luz derramada
nas tijoleiras dos pátios. Falemos dos rios e
desse Inverno antigo em que as águas ergueram
nos troncos das árvores das margens
os vagarosos anéis da idade.
Falemos do passado: porque só o futuro interessa.
Falemos da casa que ruiu. Falemos do musgo
adormecido nas encostas da umbria.
Falemos dos livros onde sublinhámos
as frases que sobre todas as coisas
nos haveriam, mais tarde, de perder.
domingo, julho 02, 2006
Os Navegantes
Alguém que conhecesse o segredo
das águas: o modo como sobem
ou descem nas margens declivosas,
o modo como circulam, intemporais,
nos seus resguardados túmulos
subterrâneos, o modo como se transformam
em nuvem ou gelo, em fogo ou iluminada
sombra na tijoleira dos pátios: para que
depois as soubéssemos recolher,
intactas, na madeira de que
reverteram, ainda frágeis, ainda
efémeras, quase voláteis,
quase tão inúteis de só moverem os astros.

das águas: o modo como sobem
ou descem nas margens declivosas,
o modo como circulam, intemporais,
nos seus resguardados túmulos
subterrâneos, o modo como se transformam
em nuvem ou gelo, em fogo ou iluminada
sombra na tijoleira dos pátios: para que
depois as soubéssemos recolher,
intactas, na madeira de que
reverteram, ainda frágeis, ainda
efémeras, quase voláteis,
quase tão inúteis de só moverem os astros.

Teresa Patrício. «Os Navegantes, Memórias». Em exposição na Casa Azul, Cacela Velha, até 31 de Julho.
quinta-feira, junho 29, 2006
Ainda em Junho
jcb


Os amigos regressam depois de muitos anos
Como se houvesse ainda uma árvore e a sua sombra
Como se nenhuma página se tivesse escrito
Desde o tempo em que os cadernos
Só traziam as páginas em branco
Para que a vida toda pudesse ainda acontecer
Os amigos regressam como se ateássemos
De novo as fogueiras antigas
Como se uma nuvem se despenhasse
Na linha de água dos açudes
À procura de si mesma
À procura das primeiras chuvas
Dos primeiros anos
Das primeiras palavras dos primeiros livros


Os amigos regressam depois de muitos anos
Como se houvesse ainda uma árvore e a sua sombra
Como se nenhuma página se tivesse escrito
Desde o tempo em que os cadernos
Só traziam as páginas em branco
Para que a vida toda pudesse ainda acontecer
Os amigos regressam como se ateássemos
De novo as fogueiras antigas
Como se uma nuvem se despenhasse
Na linha de água dos açudes
À procura de si mesma
À procura das primeiras chuvas
Dos primeiros anos
Das primeiras palavras dos primeiros livros
domingo, junho 25, 2006
Apenas o rumor
O azul pode ser apenas o rumor de o imaginarmos erguendo-se na duna da península antes de poisar nas paredes dos tanques ou ficar assim, rarefeito, subindo vagarosamente os degraus das açoteias.
quinta-feira, junho 22, 2006
Os retratos antigos
Essa luz erguida nas paredes dos prédios ou a subir
devagar os troncos dos plátanos do parque
de estacionamento
é ainda a luz antiga a mudar de cor em abril
as saias e as camisolas com o teu perfume
penduradas no fio de arame dos pátios:
um dia chega em que vivemos só
de retratos a sépia, de rasuradas páginas.
devagar os troncos dos plátanos do parque
de estacionamento
é ainda a luz antiga a mudar de cor em abril
as saias e as camisolas com o teu perfume
penduradas no fio de arame dos pátios:
um dia chega em que vivemos só
de retratos a sépia, de rasuradas páginas.
quinta-feira, junho 15, 2006
Um último lugar
A espada mudava de lugar as linhas de fronteira
das cidades e dos impérios, desenhava bandeiras
coloridas nas cumeadas de cordilheiras distantes,
separava os estuários dos seus próprios rios.
Alguém recorda então no chão da península
a palavra imune ao exercício da usura,
a água correndo em terrenos de herdeiros
a erguer na manhã as suas vozes contra o arbítrio.
das cidades e dos impérios, desenhava bandeiras
coloridas nas cumeadas de cordilheiras distantes,
separava os estuários dos seus próprios rios.
Alguém recorda então no chão da península
a palavra imune ao exercício da usura,
a água correndo em terrenos de herdeiros
a erguer na manhã as suas vozes contra o arbítrio.
quarta-feira, junho 14, 2006
Os dias antigos
Os dias passam vagarosamente
enquanto a flor da cidreira
atravessa a idade com os seus aromas
antigos.
O lume, as luzes da cidade não
trazem refúgio nem
protecção.
É como se tudo já estivesse escrito.
Como se mais nada houvesse.
Como se o futuro não pudesse valer o
clarão de um fósforo
acendendo cigarro atrás de
cigarro a ilusão do amor.
enquanto a flor da cidreira
atravessa a idade com os seus aromas
antigos.
O lume, as luzes da cidade não
trazem refúgio nem
protecção.
É como se tudo já estivesse escrito.
Como se mais nada houvesse.
Como se o futuro não pudesse valer o
clarão de um fósforo
acendendo cigarro atrás de
cigarro a ilusão do amor.
sábado, junho 10, 2006
Um tema dos «The the»
Foi a melhor compra que fizeste
o equalizador
como é possível que esta música
nunca passe na rádio
pára depois da curva
desliga os faróis
vê como a névoa erguendo-se no
vale anuncia a manhã
é como se tudo nos pertencesse
como se tudo pudesse pertencer-nos
tudo o que realmente importa no mundo
a música
sei lá
o amor
o equalizador
como é possível que esta música
nunca passe na rádio
pára depois da curva
desliga os faróis
vê como a névoa erguendo-se no
vale anuncia a manhã
é como se tudo nos pertencesse
como se tudo pudesse pertencer-nos
tudo o que realmente importa no mundo
a música
sei lá
o amor
Outra pausa e agradecimentos
Os muito sinceros agradecimentos da gerência ao contista subrealista e publicista anódino João Viegas dos Santos por ter animado o blog, durante mais uma demorada pausa, com as suas impressivas reflexões nas caixas de comentários. Aos restantes leitores, em mais esta ausência, desculpamo-nos com a excelência da colaboração do João, que procuraremos sempre manter e espicaçar e trazer-lhes sem custos adicionais. O prometido é de vidro.
quarta-feira, maio 31, 2006
Os prédios
A noite deixa os seus vestígios
onde mais a sombra permanece em vindo a própria
luz e o lume: nos arames e nos esticadores
da roupa pendurada nas varandas, nas espias
de corda entrelaçada que suspendem as antenas,
nas tábuas das cancelas velhas dos prédios,
nas fasquias das obras.
onde mais a sombra permanece em vindo a própria
luz e o lume: nos arames e nos esticadores
da roupa pendurada nas varandas, nas espias
de corda entrelaçada que suspendem as antenas,
nas tábuas das cancelas velhas dos prédios,
nas fasquias das obras.
domingo, maio 28, 2006
A ferida do tempo
Às vezes
as primeiras palavras
regressam
com as suas armas de silício
com as suas memórias
da noite
inaugural.
E escondemo-nos.
E escondemo-nos de nós mesmos
temendo
ver abrir
a ferida
do tempo.
as primeiras palavras
regressam
com as suas armas de silício
com as suas memórias
da noite
inaugural.
E escondemo-nos.
E escondemo-nos de nós mesmos
temendo
ver abrir
a ferida
do tempo.
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