domingo, julho 02, 2006

Os Navegantes

Alguém que conhecesse o segredo
das águas: o modo como sobem
ou descem nas margens declivosas,
o modo como circulam, intemporais,
nos seus resguardados túmulos
subterrâneos, o modo como se transformam
em nuvem ou gelo, em fogo ou iluminada
sombra na tijoleira dos pátios: para que
depois as soubéssemos recolher,
intactas, na madeira de que
reverteram, ainda frágeis, ainda
efémeras, quase voláteis,
quase tão inúteis de só moverem os astros.






Teresa Patrício. «Os Navegantes, Memórias». Em exposição na Casa Azul, Cacela Velha, até 31 de Julho.

quinta-feira, junho 29, 2006

Ainda em Junho

jcb




Os amigos regressam depois de muitos anos
Como se houvesse ainda uma árvore e a sua sombra
Como se nenhuma página se tivesse escrito
Desde o tempo em que os cadernos
Só traziam as páginas em branco
Para que a vida toda pudesse ainda acontecer

Os amigos regressam como se ateássemos
De novo as fogueiras antigas
Como se uma nuvem se despenhasse
Na linha de água dos açudes
À procura de si mesma
À procura das primeiras chuvas
Dos primeiros anos
Das primeiras palavras dos primeiros livros

domingo, junho 25, 2006

Apenas o rumor

O azul pode ser apenas o rumor de o imaginarmos erguendo-se na duna da península antes de poisar nas paredes dos tanques ou ficar assim, rarefeito, subindo vagarosamente os degraus das açoteias.

Junho

O modo como a luz e o vento se misturam deixando nas folhas das alfarrobeiras, pelo fim da tarde, um verde iluminado por dentro.

quinta-feira, junho 22, 2006

Os retratos antigos

Essa luz erguida nas paredes dos prédios ou a subir
devagar os troncos dos plátanos do parque
de estacionamento
é ainda a luz antiga a mudar de cor em abril
as saias e as camisolas com o teu perfume
penduradas no fio de arame dos pátios:
um dia chega em que vivemos só
de retratos a sépia, de rasuradas páginas.

O pântano

O meu trabalho é o de repor o lodo
nas margens.
Tarefa difícil,
pois mo levam todo.

quinta-feira, junho 15, 2006

Um último lugar

A espada mudava de lugar as linhas de fronteira
das cidades e dos impérios, desenhava bandeiras
coloridas nas cumeadas de cordilheiras distantes,
separava os estuários dos seus próprios rios.
Alguém recorda então no chão da península
a palavra imune ao exercício da usura,
a água correndo em terrenos de herdeiros
a erguer na manhã as suas vozes contra o arbítrio.

Regresso

O lento amanhecer de uma tarde de junho
pode trazer essas feridas antigas,
a ilusão do regresso à partilha das águas,
ao fogo que
nenhuma distância arrefece.

Quem não merece
o amor?

quarta-feira, junho 14, 2006

Os dias antigos

Os dias passam vagarosamente
enquanto a flor da cidreira
atravessa a idade com os seus aromas
antigos.
O lume, as luzes da cidade não
trazem refúgio nem
protecção.

É como se tudo já estivesse escrito.
Como se mais nada houvesse.
Como se o futuro não pudesse valer o
clarão de um fósforo
acendendo cigarro atrás de
cigarro a ilusão do amor.

sábado, junho 10, 2006

Um tema dos «The the»

Foi a melhor compra que fizeste
o equalizador
como é possível que esta música
nunca passe na rádio
pára depois da curva
desliga os faróis
vê como a névoa erguendo-se no
vale anuncia a manhã
é como se tudo nos pertencesse
como se tudo pudesse pertencer-nos
tudo o que realmente importa no mundo
a música
sei lá
o amor

Outra pausa e agradecimentos

Os muito sinceros agradecimentos da gerência ao contista subrealista e publicista anódino João Viegas dos Santos por ter animado o blog, durante mais uma demorada pausa, com as suas impressivas reflexões nas caixas de comentários. Aos restantes leitores, em mais esta ausência, desculpamo-nos com a excelência da colaboração do João, que procuraremos sempre manter e espicaçar e trazer-lhes sem custos adicionais. O prometido é de vidro.

quarta-feira, maio 31, 2006

Os prédios

A noite deixa os seus vestígios
onde mais a sombra permanece em vindo a própria
luz e o lume: nos arames e nos esticadores
da roupa pendurada nas varandas, nas espias
de corda entrelaçada que suspendem as antenas,
nas tábuas das cancelas velhas dos prédios,
nas fasquias das obras.

domingo, maio 28, 2006

A ferida do tempo

Às vezes
as primeiras palavras
regressam
com as suas armas de silício
com as suas memórias
da noite
inaugural.

E escondemo-nos.
E escondemo-nos de nós mesmos
temendo
ver abrir
a ferida
do tempo.

[A ferida do tempo]

jcb

Janela

jcb

Só as crianças

Só as crianças conhecem
a violência assim, quando sobem
às figueiras e procuram nozes,
maçãs, os frutos todos prometidos
a uma vida que demora a percorrer
os canais inúmeros do vale. Só elas
sabem como será tarde sempre, como
haverá sempre um fruto que lhes
não será dado esmagar entre
os lábios impacientes. E então correm
na direcção do vento, rasgam
os calções a subir os muros
altos, povoam veredas com sua
loucura pressentida, e adormecem.

sábado, maio 27, 2006

Os que viviam das sombras

Viviam de sombras como se
a luz a pique de
Junho os
cegasse. Como se
as imagens não se revelassem
sem a mediação de
um espelho. Como se
não existissem palavras,
uma única verdade,
uma única promessa

que não decorressem
do logro.

[Pausa]

Mais uma pausa no blog. Não é por nada: é só a ver se o tamagochi se aguenta uma semana entregue exclusivamente a si próprio…

quinta-feira, maio 18, 2006

As caixas de comentários

Chegou o levante. Com o calor e o vento, com a ondulação das águas do mar, com a agitação das águas subterrâneas. Mas, como sempre – sobretudo –, tão propício ao desvario, ao delírio, à loucura, ao almareio. E propaga-se pelas praças e pelas esplanadas, pelos estabelecimentos comerciais, pelos quartos fechados por dentro, pelas caixas de comentários dos blogs que desejariam apenas o fascínio desse rumor que nasce do interior da terra e se propaga através do ar e dos ramos minúsculos das árvores de fruto.

domingo, maio 14, 2006

Os navios de pérolas

Os navios de pérolas navegam no nácar
das águas reconvertidas em íntimo silêncio:
virados do avesso, virados para dentro
como se apenas os guiassem a geometria e a álgebra

Os navios de pérolas não erguem as velas:
navegam no nácar cortando em camadas
a obscura matéria das mais antigas águas
que revertem das mínimas fracções do éter

Não há marinheiros nos navios de pérolas:
só tu vais ao leme, só tu os conduzes:
e a noite é uma sombra transformada em lume
do amor que nem une as coisas mais efémeras