quinta-feira, maio 11, 2006

A rede

Nasceram muito antes da blogosfera. Muito antes da Internet. Muito antes da informática. Muito antes da segunda guerra mundial. Estão sentados num banco de madeira pintado de verde escuro. Na praça. É uma tarde quente, quase de Verão. Um deles fala do aumento do preço da gasolina e do escândalo que é atravessarmos a fronteira, onde se ganha mais, e pagarmos menos para encher o depósito. Não me parece particularmente criativo. Mas é como se este velho, sentado num banco da praça na tarde quase de Verão, falando assim, estivesse a editar um post. Como os verdadeiros da blogosfera: de circunstância, efémeros, voláteis.

domingo, maio 07, 2006

A luz de Maio muito cedo de manhã [5.40 a.m.]

jcb





Não procuramos
outra coisa: a ideia
de que tudo
pode começar de novo,

de que nos é dada
a possibilidade
de descobrir a linguagem,
de dar um nome

a cada uma das árvores,
de tocar a água
pela primeira vez,

de construir de novo
a casa, pedra sobre pedra,
e inventar a cal.

[O corpo na poesia do séc. XX]

jcb



Do corpo se falou tão excessi
vamente (em verso, em prosa, em recitais)
ao longo de cem anos (talvez mais)
que já nem sei o que dizer de ti

ao ver-te num sorriso deslumbrada
em movimentos breves, curvas lentas,
e só o corpo me lembrar (mais nada):
as coxas ou as mamas opulentas,

as mãos tão ágeis, claras, transparentes,
o sexo intempestivo, a pele, os ombros,
o brilho demorado dos teus dentes.

Por isso, meu amor, esta alegria
de ver-te como luz por entre escombros
não sei como dizê-la em poesia.

sexta-feira, maio 05, 2006

Há um tempo

i

há um tempo em que as raízes das árvores
parecem enlouquecer
como se as movessem
as hélices
do levante.


ii

o insustentável rumor subterrâneo
do levante:
essa tão imensa estação
que se divide
entre a vertigem
e o apaziguamento.


iii

os frutos e os pássaros
misturam
no mundo exterior
o azul quebrado
nas dunas da península
durante o Inverno.


iv

há um tempo em que as raízes das árvores
parecem enlouquecer.


v

quem haveria então
de enlouquecer primeiro
à procura da água?
se regressasses
e dissesses uma palavra,
se tirasses
de novo
pelos ombros
o teu vestido
e tocasses ao de leve,
de novo,
as minhas mãos?

quinta-feira, maio 04, 2006

[O voo, 1]

jcb

[O voo, 2]

jcb


[O voo, 3]

jcb


[O voo, 4]

jcb




Lápis de cera sobre papel; decalques sucessivos, riscando o verso com bic laranja, sobre papel.

quarta-feira, maio 03, 2006

segunda-feira, maio 01, 2006

A vida, 1

jcb


1 de Maio - Ninho em amendoeira com três ovos de picanço.

A vida, 2

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1 de Maio - Ninho em damasqueiro com cinco ovos de milheirinha.

A vida, 3

jcb


1 de Maio - Juvenil de milheirinha: exausto, depois do que terá sido o seu primeiro voo.

domingo, abril 30, 2006

As amendoeiras

As amendoeiras não precisam
de podas de rejuvenescimento.
Por isso crescem, livres,
nas suas copas amplas, entrelaçando

os ramos, misturando
as folhas de uma a outra árvore.
No chão do pomar,
na tarde iluminada pelo Sul,

fica uma sombra espessa
e simultaneamente leve.
E o dia, muito azul,

é assim que permanece,
suspenso, de súbito rendido
a essa liberdade livre.

quinta-feira, abril 27, 2006

A Ignorância

Sobre todas as coisas
elejo a Ignorância:
felizes dos que são tocados
pela Sua graça espantosa
de permanecermos estúpidos
e ausentes;
felizes dos que adormecem sem o sobressalto
de um dia se suceder ao outro
na sua imensa
vertigem.

quarta-feira, abril 26, 2006

Romances

Era um romance autobiográfico. Passava-se na actualidade. O autor, às vezes, escrevia um parágrafo, erguia-se da bancada de trabalho e saía numa corrida a ver se vivia o que tinha acabado de escrever.

terça-feira, abril 25, 2006

25 de Abril




jcb

[pessegueiro, alfarrobeira, figueira, albricoqueiro]

terça-feira, abril 18, 2006

Um rosto

Breves memórias
ficam
da memória das cidades:
uma praça,
uma alameda de plátanos,
uma rua
com esplanadas
no mês de Março,
um autocarro vazio, a noite,
um rosto
a que
não se regressa.

[Os caminhos que levam a mais que um lugar não levam a lugar nenhum, 2]

jcb

segunda-feira, abril 17, 2006

A Páscoa, o Algarve, as esplanadas

jcb



Planeávamos tudo
menos o instante
em que se desmontavam as esplanadas
e ficava nas mesas a sensação
estranha
das coisas que acabam
antes do tempo.

Havia o mar, havia
o rumor
ainda distante
do Verão.

Planeávamos tudo
menos o instante
em que nos despedíamos
e o amor
revertia
de novo da sombra,
do medo, da indecisão.