domingo, março 26, 2006

Quase em Abril

Quase em Abril: as folhas das figueiras abrem com a água.

Nos fins de Março

Nos fins de Março, a meio da tarde, uma página em branco (ou um verso) parece esconder-se (ou anunciar-se) nas flores das ameixeiras.

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Primavera: a nova imagem da casa propriamente dita:



sábado, março 25, 2006

É esta luz

É esta luz intensa do meio
da tarde que me faz
pensar nos mistérios do mundo:
no amor, no desejo, na morte,

no voo desamparado
das aves nas vésperas
do equinócio,
no modo como as famílias

nos dias intermináveis de domingo
circulam quase sem destino
entre as residências

das periferias
e os estacionamentos subterrâneos
do centro comercial.

quinta-feira, março 23, 2006

Literatura (falam as personagens)

o meu amor por ti era tão real que cheguei a acreditar que não éramos simples personagens dum romance premiado no círculo de leitores.

nos primeiros capítulos eu desejava-te mais do que é possível imaginar que seja possível amar nas páginas dum livro.

um amor assim não se compadecia com a estrutura narrativa daquela novela de cordel elogiada no expresso.

na página 164 era suposto eu fazer-te uma declaração de amor.

em mim o Autor mesmo quando supõe o contrário não manda a ponta dum corno.

Cena dum filme de Manoel de Oliveira

Uma biblioteca do séc. XIX. Penumbra. A jovem estudante de filosofia descruza as pernas e deixa cair a chinela. O mestre baixa-se muito lentamente, fascinado, sobressaltadamente excitado. Apanha a chinela. O plano fixo parece durar uma eternidade. Na cena seguinte vê-se o pé da estudante de filosofia, as unhas cresceram-lhe, o plano abre, estão ambos mais velhos.

quarta-feira, março 15, 2006

A abertura dos noticiários



jcb: canetas e lápis de cor sobre papel.

terça-feira, março 14, 2006

Segredos

Revelavas apenas
o que escondias, como essas
manhãs de névoa em
que tudo subitamente

fica claro e limpo,
leve e luminoso,
trazendo à transparência
os segredos, as traições,

as ocultas frases do amor,
como num livro em branco
onde a nossa história

triste se desenhasse
com todas as letras em cada
uma das suas páginas.

Meados de Março


jcb

sábado, março 11, 2006

Em Março

A meio da noite ainda
fria de Março, atravessando
a Praça desenhada para o Verão,
temíamos o silêncio

de nem a memória nos devolver
a corrida das crianças
iluminadas por dentro,
a luz da tarde a incendiar

o azul e o amarelo dos toldos,
o lume aceso nos lancis de mármore,
os copos de cerveja gelada
poisados em mesas de resina,

a juventude indecisa
e o acerto dos seus erros.

quinta-feira, março 09, 2006

Munch (1863-1944) revisitado en Olsen

Nada separa el Auto-Retrato Después de la
Gripe (c. 1919) y el Auto-Retrato Entre el
Reloj y la Cama, iniciado en 1940 y
concluido en 1942, en tres años sucesivos
de abandonos y regresos, tal vez ya no
mojando la tela com agua del grifo y
exponiéndola a los elementos físicos, y después
raspando, pintando de nuevo, volviendo a raspar.
Y nada separa estos dos cuadros del
terror casi melancólico de otro
óleo de 1881, La Vieja Iglesia de Aker, con las
casas cerradas y la misma imposibilidad de
encuentro y diálogo marcada por el ocre de los
sustentantes y por un cielo iluminado por
su propia sombra.
.................................En Abril de1998, en la
mesa de Olsen, el ingeniero del Instituto de
Hidráulica de Copenhague recupera de la infância el
sonido de las botas de los nazis pisando las hierbas
del pátio de casa de sus padres, donde
Munch, durante ese tiempo, pasara un fin de
semana regresando de Asgardstrand,
y afirma que El Grito (1893, temple
y pastel sobre madera) es ya el retrato
del siglo XX. Y que todos estos cuadros son
el mismo cuadro. Y que Munch habría
necesariamente de morir en una Noruega
ocupada por el ódio, retirado en su
casa de Ekely, para que el arte fuese,
por encima de la técnica y del estilo, una ciencia
semejante a la historia, pero que relata los
hechos de un futuro que por
anticipación es posible aprender
en sus trazos esenciales.



Poema de José Carlos Barros.
Tradução para castelhano: Eva Lacasta Alegre.

In Poema Poema – Antologia de Poesia Portuguesa Actual.
Ed. Uberto Stabile, Punta Umbría, Huelva, 2006.

domingo, março 05, 2006

A Ética

Alguma coisa aproxima a ética e a estética
como se um e outro conceito fossem indissociáveis
não nos iludam as formas ou a técnica
duma ponte que se limita a unir duas margens
nem a função duma casa ou dum palácio
nem a estrutura dum sistema de justiça
se não houver um princípio matemático
que garanta a proporção e o equilíbrio

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

A Lenda





Era uma vez

Era uma vez uma princesa
com poucas noções de geografia
que sorriu depois de muitos anos
ao abrir a janela
e ver
finalmente
a neve


A princesa nórdica

A princesa nórdica
nunca chegou a estranhar
que a neve
caísse dos ramos das amendoeiras
sob a forma de cinco pétalas
duma flor
precoce


A princesa

A princesa
perguntou à aia
se era normal
não haver frio
e ter nevado
tanto


A aia explicava

A aia explicava à princesa
o poder da literatura:
que uma metáfora
podia
subverter
a ordem natural das coisas

sábado, fevereiro 25, 2006

Carnaval, 1

Disfarçado de Super-Homem, o jovem atleta saltou da janela e fodeu um tornozelo.

Carnaval, 2

Num tempo em que somos sobretudo o que escondemos, com uma máscara voltamos a ser nós mesmos.

Carnaval, 3

O Homem Invisível esqueceu-se de tirar do bolso da camisa o bilhete de identidade.

Carnaval, 4

Por detrás da máscara, Zorro é ainda Zorro.

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

Fronteira

Uma criança afasta-se dos pais numa corrida e fica parada, imóvel, a olhar o Guadiana. É um dia de Inverno, cinzento, frio. As águas, no entanto, parecem ficar estranhamente azuis, erguendo na manhã uma fronteira de memórias leves de Verão a unir as duas margens subitamente próximas. É como se assistíssemos a um milagre. Porque temos a certeza de que o rio, olhado assim, é como se estivesse a ser visto pela primeira vez. Ou seja: que só a partir desse preciso momento é que passou a existir à face do mundo.

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

O Inverno





jcb


Oh, sim, uma chatice, o Inverno...

sábado, fevereiro 18, 2006

Ainda outra canção

A noite demora
quando temos pressa
do lado da sombra
só a luz tropeça

Do lado de dentro
de todos os astros
nada mais que o vento
desata os seus laços

Nada mais que o vento
nada mais que a chuva
nada mais que o cerco
de todas as dúvidas

Nada mais que as lágrimas
em a noite sendo
erguendo nas pálpebras
o mês de novembro

Em vez das palavras
em vez das promessas
irrompem as águas
o lume regressa

Mas agora é tarde
já nem temos pressa