domingo, janeiro 29, 2006

Também o Verão

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sábado, janeiro 28, 2006

Aparição


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sexta-feira, janeiro 27, 2006

A chuva e os poetas sem qualidades

destes dias cinzentos é muito costume dizer-se nos poemas que:
nos remetem para os dias imensos da
infância em redor do lume
ou para o odor do saibro que
as primeiras chuvas misturam no ar
e a memória nos devolve como num espelho iluminado

entre tanto
os poetas sem qualidades falam:
da chuva concreta
das manchas que a água desenha nos tectos de estuque
das quedas aparatosas no passeio do largo
quando os velhos saem da farmácia
com os remédios do reumático
e não se vê a merda dum táxi
num raio de quinhentos metros
em redor

há questões assim que são decisivas e tão
pouca gente o reconhece:
o que seria dos críticos do expresso
o que seria de tanto mestrado e tanto mestrando
o que seria enfim do país
se não houvesse de tempos a tempos
uma polémica onde exercitar o tiro ao alvo
como esta por exemplo dos poetas sem qualidades

terça-feira, janeiro 24, 2006

A memória do amor

A memória do amor é às vezes
uma porcelana tão fina
que parte durante a noite sem o mínimo
ruído. Mas regressa sempre.

Um dia a tempestade levanta essa poeira
em que se transformou
e todos temem tocá-la ou
aproximar-se dela
como se a vida toda
pudesse deixar de fazer sentido.

domingo, janeiro 22, 2006

O que é e o que vemos

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A luz só existe, 2

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A luz só existe, 1

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Lugares comuns

A poesia deve ilumin/ ar. Não se trata de fazer incid/ ir uma nova luz sobre as coisas. Mas de iluminá-las por dentro. A partir de dentro. Como num quadro de Georges de la Tour, a luz só deve exist/ ir (a luz só existe) a part/ ir do momento em que, intermediada, um corpo, um objecto, uma ferramenta, a devolvem ao olh/ ar. Não se pede à poesia que nos ajude a olh/ ar, que nos ajude a compreender. Mas que, através dela, as coisas se nos revelem na sua mais imponderável clareza

como se só então o mundo estivesse preparado para verdadeira/ mente nas/ ser.

sábado, janeiro 21, 2006

O relâmpago da água

Que as parcas entradas do blog andam lúgubres, sombrias, tristes; e que para tristeza basta o Inverno.

Explico-lhe sem sucesso que nem sempre a alegria é profusa, expansiva; que nem sempre o Inverno é apenas a melancolia dum céu de cinza; que fotografar (e longamente contemplar) as árvores nuas, sem uma única folha, é já um modo de apreender a sua prometida floração; e que a felicidade pode ser isso mesmo: esta certeza de que não tardam (e que portanto já verdadeiramente nos pertencem) o azul do céu, o azul do mar, uma árvore com folhas, um fruto, a luz a desenhar o relâmpago da água na cal das paredes e dos muros.

Antes do relâmpago da água



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terça-feira, janeiro 17, 2006

Todas as coisas

Dizer em voz alta o nome de todas as coisas: terra, água, árvore. Para que nos pertençam na mais afastada península, no silêncio, na sombra dos muros de pedra do Inverno. Mesmo quando chegarmos tarde a esses lugares a que jurámos não regressar.

domingo, janeiro 15, 2006

O primeiro dia do ano




Nada ter ainda um nome. Para que tudo pudesse começar: a primeira luz do mundo a erguer-se nas cumeadas; a poesia e não haver ainda palavras; a água e não haver ainda uma nuvem; a nuvem e não haver ainda o granizo; o granizo e não haver ainda a névoa a desprender-se das argilas das margens.




jcb

sábado, janeiro 14, 2006

Dos milagres, 1

Como se não existissem

Acreditavas nos milagres. Mas sabias como são raros. E que não se repetem. Como se não existissem.



Nunca

Há um momento que só a ideia de milagre pode justificar. E depois compreendes que esse momento nunca pode ter existido.



O amor

«Amo-te» - dizias. Como se pudesse ser verdade.

terça-feira, janeiro 10, 2006

Memória descritiva, 4


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As figueiras: sem uma única folha, nuas, erguidas nos seus ramos cinzentos contra o azul e a luz quase inverosímil dos primeiros dias do ano: eis a mais perfeita metáfora do Inverno meridional: o azul do céu contra esta espécie de tristeza que as figueiras acolhem simultaneamente a anunciar o Verão.

Memória descritiva, 3

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Um fruto. Um fruto minúsculo fora dos meses anunciados nos livros. O verde dos frutos e o cinzento do pomar. Uma espécie de aparição em tempo de monstros minúsculos desenhados a sombra nos ramos das figueiras.










sexta-feira, janeiro 06, 2006

O ano novo, 2

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quarta-feira, janeiro 04, 2006

O ano novo

Uma lentidão, uma calma, uma quase indolência parece misturar-se ou acolher-se, como matéria comum, nas folhas das árvores, na neblina que a manhã faz subir do interior da terra, no azul das águas e no azul do céu. Depois da vertigem do período festivo, que alguns livros dizem ser de recolhimento e reflexão mas que, na prática, é feito sobretudo de velocidade e vertigem, é como se tudo regressasse por algum tempo ao que sempre ambicionámos: a essa lentidão que nos aproxima das coisas simples do mundo, as únicas.

terça-feira, janeiro 03, 2006

Canção

Nós éramos um
quando a madrugada
chegava tão cedo
(tão cedo chegava…)
que só o silêncio
nos sobressaltava.

Nós éramos muito
não éramos nada.

E o odor do feno
quase inebriava
se as nuvens desciam
quando respiravas
em nome das vésperas
de todas as águas.

Nós éramos tanto
não éramos nada.

E pétala a pétala
nos ramos das bétulas
um nó de mercúrio
abria e fechava
e às vezes no escuro
nos iluminava.

Nós éramos tudo
não éramos nada.

segunda-feira, janeiro 02, 2006

O mar

Que o mar de Cacela
regresse mais uma vez e sempre
a estas páginas.
Que por um instante breve
suba o estuário
ao longo das margens.

Com os seus leves
e iluminados
cavalos de sombra.

Com as suas luzes.

Com as suas águas.

O mar em Janeiro





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