sexta-feira, dezembro 09, 2005

As laranjas

As laranjas não recebem a luz da lua ou das estrelas de princípios de dezembro: é como se fossem elas a iluminar a noite.

quinta-feira, dezembro 08, 2005

As últimas folhas, 2

As últimas folhas do ano deixam
na terra castanha
do mês
de dezembro
o que a luz de junho prometeu
e não cumpriu.

Não é ter medo do inverno: é essa
estranha sensação
de que esperamos ainda
e acabou
o verão.

quarta-feira, dezembro 07, 2005

As últimas folhas

jcb



Quase o Inverno. As figueiras deixam no fim da tarde as suas últimas folhas. E no entanto é como se as víssemos assim, ainda jovens, pela primeira vez.

Aparição, 1

jcb



«E uma memória antiga, pesada de augúrio, levanta-se-me no seu clamor, memória escura, anterior à vida. Assim o que relembro não tem face nem nome, é a forma oca de um limiar indistinto, pura anunciação de presença, obscuro alarme de uma aparição.»

Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro. Livraria Bertrand, 3ª edição, 1981.

Aparição, 2

jcb




«Ignoro ainda se o monumento se alinha entre as belas obras de arte, essas perante as quais estamos autorizados a comover-nos. Ignoro-o, porque hoje sei que o milagre pode surgir quando menos o suspeitamos: uma frase musical de um tocador ambulante, o assobio de quem passa, um talo de erva que irrompe de uma juntura de pedras, podem alvoroçar-nos como a mais pura e evidente aparição da beleza.»

Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro. Livraria Bertrand, 3ª edição.

sábado, dezembro 03, 2005

Uma letra

para o meu amigo Manel Guimarães, que não sei onde anda


Quando a manhã
Bater de novo
Na pedra no pátio
Na cal da parede
No adro
No átrio
Na porta de casa
E entrar

Quando acordares
Sem rosas num jarro
Sem ninguém sorrindo
A acender-te um cigarro
Sem leite
Aquecido
E um rosto
Que espreite
A entrar

Quando a manhã
Não partir
Um prato
Nem se detiver
Junto ao teu
Retrato
E o sol na varanda
Já nem de memória

Há que escrever outra história

Há que escrever outra história

quinta-feira, dezembro 01, 2005

Delft, 1675

A luz havia de quebrar na cómoda do
quarto e só depois iluminar metade
da parede, o jarro com água, os panos verdes
do armário. Não gostaria que lembrasse

nada ao percorrer com vagar e definir
os objectos mais próximos. A cor, talvez
molhada nos primeiros planos, teria
depois um único nome e um modo único

de tocar a roupa de quem entrasse por uma porta
adivinhada ao fundo. Não daria expressão
alguma a esse rosto de mulher ainda jovem,
às suas mãos, ao movimento de sentar-se.

Um mapa e uma carta ficariam esquecidos na mesa
do lado da janela. E só o rumor da manhã quase
no fim daria ao quadro, entre tanto, um
pequeno relevo de água leve de coral.

s/t

jcb

quarta-feira, novembro 30, 2005

Os objectos

Olhas a casa em ruínas e vês por instantes os objectos poisados nas mesas. Como se aguardassem a chegada de alguém que retomasse um ofício. Como se o tempo pudesse retomar a sua ordem. Como se tu próprio não tivesses regressado senão para concluir essas tarefas que ficaram por fazer.

terça-feira, novembro 29, 2005

Não é verdade:

«Breves as águas da memória nos levam aos antigos valados, aos muros, às sebes, aos primeiros nomes das primeiras frases.»

Não é verdade: as águas da memória correm a par com os destroços das primeiras chuvas de Novembro. As canas que se desprendem dos taludes, a ignomínia, os torrões de mercúrio, a sombra fixada na pedra dos depósitos de vertente, as raízes das margens sujeitas aos processos erosivos – tudo isso corre, ou há-de correr um dia, no antigo leito das águas vagarosas da memória. Acontece que às vezes só muito tarde o sabemos. Demasiado tarde.

segunda-feira, novembro 28, 2005

As árvores

jcb

quarta-feira, novembro 23, 2005

2005.11.23




terça-feira, novembro 22, 2005

A chuva

A chuva podia ser um dos nomes da infância. Um dos seus mistérios mais perfeitos. A água a desenhar linhas sinuosas nos vidros das janelas, a devolver-nos o rumor enigmático do zinco dos alpendres, a correr nos pequenos canais entre as veredas dos campos e os taludes cortados em declive, a estender-se nos leitos de cheia cortando pela metade os troncos das árvores. Porque as crianças olham a chuva e vêem simultaneamente uma nuvem: uma nuvem muito leve a erguer-se contra o céu dos fins de tarde de Junho – e que era já a promessa da água que mais tarde haveria de desenhar linhas sinuosas nos vidros das janelas.

quarta-feira, novembro 16, 2005

o inverno


jcb. Óleo sobre fotografia.

O silencioso rumor das águas subterrâneas: a nora da casa de cacela. Como se fosse uma árvore: as amendoeiras no mês de fevereiro: o branco, o rosa, o azul.

terça-feira, novembro 15, 2005

segunda-feira, novembro 14, 2005

Regresso

Breves as águas da memória nos levam aos antigos valados, aos muros, às sebes, aos primeiros nomes das primeiras frases.

terça-feira, novembro 08, 2005

Cal

O mundo reflectido no branco das paredes das casas, dos muros, dos tanques, da cisterna, dos valados que deixam salientes as pedras cimeiras.

Terra

O primeiro nome do mundo, a primeira palavra, o ocre iluminado pela sombra festiva das alfarrobeiras jovens.

sábado, novembro 05, 2005

Guitare et partition sur guéridon


Pablo Picasso

Ainda não chegou. Continuo à espera. Impaciente. Mas talvez só amanhã, pelo fim da tarde.

quarta-feira, novembro 02, 2005

Empreita

Fazê-la com três, com seis ou com nove folhas. E dizer em voz alta essas leves sílabas: alcofa, abanico, vasculho, vassouro, capacho, tamissa, cestinho do pão.