As últimas folhas do ano deixam
na terra castanha
do mês
de dezembro
o que a luz de junho prometeu
e não cumpriu.
Não é ter medo do inverno: é essa
estranha sensação
de que esperamos ainda
e acabou
o verão.
quinta-feira, dezembro 08, 2005
quarta-feira, dezembro 07, 2005
As últimas folhas
Aparição, 1
jcb


«E uma memória antiga, pesada de augúrio, levanta-se-me no seu clamor, memória escura, anterior à vida. Assim o que relembro não tem face nem nome, é a forma oca de um limiar indistinto, pura anunciação de presença, obscuro alarme de uma aparição.»
Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro. Livraria Bertrand, 3ª edição, 1981.


«E uma memória antiga, pesada de augúrio, levanta-se-me no seu clamor, memória escura, anterior à vida. Assim o que relembro não tem face nem nome, é a forma oca de um limiar indistinto, pura anunciação de presença, obscuro alarme de uma aparição.»
Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro. Livraria Bertrand, 3ª edição, 1981.
Aparição, 2
jcb



«Ignoro ainda se o monumento se alinha entre as belas obras de arte, essas perante as quais estamos autorizados a comover-nos. Ignoro-o, porque hoje sei que o milagre pode surgir quando menos o suspeitamos: uma frase musical de um tocador ambulante, o assobio de quem passa, um talo de erva que irrompe de uma juntura de pedras, podem alvoroçar-nos como a mais pura e evidente aparição da beleza.»
Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro. Livraria Bertrand, 3ª edição.



«Ignoro ainda se o monumento se alinha entre as belas obras de arte, essas perante as quais estamos autorizados a comover-nos. Ignoro-o, porque hoje sei que o milagre pode surgir quando menos o suspeitamos: uma frase musical de um tocador ambulante, o assobio de quem passa, um talo de erva que irrompe de uma juntura de pedras, podem alvoroçar-nos como a mais pura e evidente aparição da beleza.»
Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro. Livraria Bertrand, 3ª edição.
sábado, dezembro 03, 2005
Uma letra
para o meu amigo Manel Guimarães, que não sei onde anda
Quando a manhã
Bater de novo
Na pedra no pátio
Na cal da parede
No adro
No átrio
Na porta de casa
E entrar
Quando acordares
Sem rosas num jarro
Sem ninguém sorrindo
A acender-te um cigarro
Sem leite
Aquecido
E um rosto
Que espreite
A entrar
Quando a manhã
Não partir
Um prato
Nem se detiver
Junto ao teu
Retrato
E o sol na varanda
Já nem de memória
Há que escrever outra história
Há que escrever outra história
Quando a manhã
Bater de novo
Na pedra no pátio
Na cal da parede
No adro
No átrio
Na porta de casa
E entrar
Quando acordares
Sem rosas num jarro
Sem ninguém sorrindo
A acender-te um cigarro
Sem leite
Aquecido
E um rosto
Que espreite
A entrar
Quando a manhã
Não partir
Um prato
Nem se detiver
Junto ao teu
Retrato
E o sol na varanda
Já nem de memória
Há que escrever outra história
Há que escrever outra história
quinta-feira, dezembro 01, 2005
Delft, 1675
A luz havia de quebrar na cómoda do
quarto e só depois iluminar metade
da parede, o jarro com água, os panos verdes
do armário. Não gostaria que lembrasse
nada ao percorrer com vagar e definir
os objectos mais próximos. A cor, talvez
molhada nos primeiros planos, teria
depois um único nome e um modo único
de tocar a roupa de quem entrasse por uma porta
adivinhada ao fundo. Não daria expressão
alguma a esse rosto de mulher ainda jovem,
às suas mãos, ao movimento de sentar-se.
Um mapa e uma carta ficariam esquecidos na mesa
do lado da janela. E só o rumor da manhã quase
no fim daria ao quadro, entre tanto, um
pequeno relevo de água leve de coral.
quarto e só depois iluminar metade
da parede, o jarro com água, os panos verdes
do armário. Não gostaria que lembrasse
nada ao percorrer com vagar e definir
os objectos mais próximos. A cor, talvez
molhada nos primeiros planos, teria
depois um único nome e um modo único
de tocar a roupa de quem entrasse por uma porta
adivinhada ao fundo. Não daria expressão
alguma a esse rosto de mulher ainda jovem,
às suas mãos, ao movimento de sentar-se.
Um mapa e uma carta ficariam esquecidos na mesa
do lado da janela. E só o rumor da manhã quase
no fim daria ao quadro, entre tanto, um
pequeno relevo de água leve de coral.
quarta-feira, novembro 30, 2005
Os objectos
Olhas a casa em ruínas e vês por instantes os objectos poisados nas mesas. Como se aguardassem a chegada de alguém que retomasse um ofício. Como se o tempo pudesse retomar a sua ordem. Como se tu próprio não tivesses regressado senão para concluir essas tarefas que ficaram por fazer.
terça-feira, novembro 29, 2005
Não é verdade:
«Breves as águas da memória nos levam aos antigos valados, aos muros, às sebes, aos primeiros nomes das primeiras frases.»
Não é verdade: as águas da memória correm a par com os destroços das primeiras chuvas de Novembro. As canas que se desprendem dos taludes, a ignomínia, os torrões de mercúrio, a sombra fixada na pedra dos depósitos de vertente, as raízes das margens sujeitas aos processos erosivos – tudo isso corre, ou há-de correr um dia, no antigo leito das águas vagarosas da memória. Acontece que às vezes só muito tarde o sabemos. Demasiado tarde.
Não é verdade: as águas da memória correm a par com os destroços das primeiras chuvas de Novembro. As canas que se desprendem dos taludes, a ignomínia, os torrões de mercúrio, a sombra fixada na pedra dos depósitos de vertente, as raízes das margens sujeitas aos processos erosivos – tudo isso corre, ou há-de correr um dia, no antigo leito das águas vagarosas da memória. Acontece que às vezes só muito tarde o sabemos. Demasiado tarde.
segunda-feira, novembro 28, 2005
quarta-feira, novembro 23, 2005
terça-feira, novembro 22, 2005
A chuva
A chuva podia ser um dos nomes da infância. Um dos seus mistérios mais perfeitos. A água a desenhar linhas sinuosas nos vidros das janelas, a devolver-nos o rumor enigmático do zinco dos alpendres, a correr nos pequenos canais entre as veredas dos campos e os taludes cortados em declive, a estender-se nos leitos de cheia cortando pela metade os troncos das árvores. Porque as crianças olham a chuva e vêem simultaneamente uma nuvem: uma nuvem muito leve a erguer-se contra o céu dos fins de tarde de Junho – e que era já a promessa da água que mais tarde haveria de desenhar linhas sinuosas nos vidros das janelas.
quarta-feira, novembro 16, 2005
o inverno

jcb. Óleo sobre fotografia.
O silencioso rumor das águas subterrâneas: a nora da casa de cacela. Como se fosse uma árvore: as amendoeiras no mês de fevereiro: o branco, o rosa, o azul.
terça-feira, novembro 15, 2005
segunda-feira, novembro 14, 2005
terça-feira, novembro 08, 2005
sábado, novembro 05, 2005
Guitare et partition sur guéridon
Pablo Picasso
Ainda não chegou. Continuo à espera. Impaciente. Mas talvez só amanhã, pelo fim da tarde.
quarta-feira, novembro 02, 2005
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