quarta-feira, novembro 02, 2005

Memórias do Verão

É assim às vezes o Verão: esse lume ou a pele, o luzeiro das águas, uma nuvem de fogo a repetir a paixão adolescente e os seus inúmeros caules.

Novembro: crepúsculo





jcb

terça-feira, novembro 01, 2005

Um país

Há um país onde as crianças acendem
nas manhãs de Junho
os seus archotes de vidro
incandescente

e armam ciladas nos poços
onde sucumbem as
remanescentes mágoas

do Inverno.

E depois
as mulheres demoram a tarde
a encher as alcofas de empreita
com as amêndoas
e o lume

do ano.

E as aves regressam de longe.

E a memória de tudo é só um rumor
quase familiar
de sombras antigas adormecidas
nos pátios.

segunda-feira, outubro 31, 2005

Outubro, 4

São assim os dias em Outubro: como se a maré, esse rumor incessante, movesse a custo as suas pás vagarosas.

Outubro, 3

Suspensa por fios invisíveis - uma nuvem.

Outubro, 2

Uma nuvem de cinza poisada nas águas do rio: leve, vagarosa, incandescente.

segunda-feira, outubro 24, 2005

Outubro

É bem verdade que os parques infantis foram inventados pelos adultos sem o aplauso entusiasmado das crianças. Elas escorregam nos escorregas, balançam nos baloiços, saltam nas caixas de areia regulamentares. Sim. Mas se não puderem correr num prado, jogar à bola num descampado, brincar aos detectives nas ruas da cidade, perderem-se num bosque, chapinhar nas poças que ficam no chão de saibro a reflectir o céu depois das primeiras chuvas de Outubro.

quinta-feira, outubro 20, 2005

A justiça

Pensávamos talvez que o mundo
haveria de ficar sempre
a nosso favor. Não suspeitávamos que a justiça
depende pouco de a procurarmos
ou mesmo fazermos por ela. Hoje

nem sabemos de que lado
a luz da manhã começava a iluminar
o telheiro. E no entanto

acreditamos que há um instante,
um gesto, uma palavra
onde se inscreve
a verdadeira medida do logro.

Lá fora

Recordas a lâmpada de 25 W
e como era pouca a luz nessa divisão
de vários nomes: lá fora o Inverno,
ainda assim, não chegava a tocar-te
nem a sombra te sobressaltava por um instante
que fosse. O que mudou
por dentro dessas paredes
agora vazias? O que mudou que
não cabemos lá dentro?

quarta-feira, outubro 19, 2005

A cor da terra em Outubro

jcb

Noite

É tarde. Não há um rumor. Não há um único movimento. Não há uma aragem. Só esta luz derramada sobre as árvores. As figueiras ficam iluminadas pela luz do sol que a lua cheia reflecte e é como se fosse de novo o tempo de colher os frutos.

segunda-feira, outubro 17, 2005

As sombras

Aí estão as sombras do Outono: inclinadas, indecisas, quase adormecidas sobre a terra castanha. Sim, é verdade, às vezes parece que as argilas da aluvião vieram de longe, com a água, apenas para que uma árvore pudesse crescer e estender as suas sombras vagarosas nos meses de Outubro.

sábado, outubro 15, 2005

Sul, 1

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Sul, 2



















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Sul, 3



jcb

Contra o Inverno

Pessoas que nunca andaram à chuva. Fugindo quando chove. Recolhendo-se . Ou movimentando-se, entre um e outro refúgio, de guarda-chuva em riste.

Quando chove

Quando chove, e a água alimenta os freáticos, é como se as nuvens e o seu abismo se tocassem.

[A água]

entre os ramos da árvore
e a raiz

a água

sexta-feira, outubro 14, 2005

Três histórias

não conheço esta cidade

Não conheço esta cidade. Não sei o nome desta cidade. Sei que é de noite e que desço a mesma rua há duas ou três horas. A rua parece não ter fim. Mas a verdade é que já passei várias vezes pela mesma casa, pela mesma montra de um restaurante vazio, pela mesma escultura equestre. Como se a rua não acabasse pela simples razão de que começa de novo à medida que a percorro. Não sei o que faço aqui. Sei apenas que é de noite e que esta cidade não tem nome.


numa cidade sem nome

Numa cidade sem nome, numa cidade que provavelmente não existe, tu apareces de súbito e pedes-me lume. Não dás sinais de me reconhecer. É como se nunca me tivesses conhecido. Acendes o cigarro, agradeces-me, afastas-te, fico a olhar-te por algum tempo. Eu próprio chego a duvidar que um dia nos tivéssemos conhecido, e amado, e chorado juntos, e tivéssemos prometido um ao outro: «um dia haveremos de nos encontrar por aí». Só não poderia imaginar que fosse assim que nos encontrássemos, numa cidade desconhecida, sem nome, e que apenas me pedisses lume.


parece-me que já passaram vários dias

Parece-me que já passaram vários dias e é sempre de noite. Estou numa cidade desconhecida e caminho numa rua que não tem fim. As pessoas que se cruzam comigo parecem fantasmas perdidos na escuridão. Não se ouve um único ruído para além do eco dos passos cadenciados de alguém que continua atrás de mim desde que cheguei, sem saber como, a esta cidade. De vez em quando páro, e o ruído dos passos da pessoa que me persegue deixam de se ouvir na noite muito escura. Viro-me; olho o seu rosto: e é o meu rosto que vejo no rosto de quem me persegue, olhando-me nos olhos, de frente, como se houvesse uma pergunta que ficou por fazer.

quinta-feira, outubro 13, 2005

Nomes

Nos poemas antigos eu escrevia muitas vezes: «esse nome». Só tu sabes que o teu nome é ainda «esse nome».