sábado, outubro 15, 2005
Contra o Inverno
Pessoas que nunca andaram à chuva. Fugindo quando chove. Recolhendo-se . Ou movimentando-se, entre um e outro refúgio, de guarda-chuva em riste.
Quando chove
Quando chove, e a água alimenta os freáticos, é como se as nuvens e o seu abismo se tocassem.
sexta-feira, outubro 14, 2005
Três histórias
não conheço esta cidade
Não conheço esta cidade. Não sei o nome desta cidade. Sei que é de noite e que desço a mesma rua há duas ou três horas. A rua parece não ter fim. Mas a verdade é que já passei várias vezes pela mesma casa, pela mesma montra de um restaurante vazio, pela mesma escultura equestre. Como se a rua não acabasse pela simples razão de que começa de novo à medida que a percorro. Não sei o que faço aqui. Sei apenas que é de noite e que esta cidade não tem nome.
numa cidade sem nome
Numa cidade sem nome, numa cidade que provavelmente não existe, tu apareces de súbito e pedes-me lume. Não dás sinais de me reconhecer. É como se nunca me tivesses conhecido. Acendes o cigarro, agradeces-me, afastas-te, fico a olhar-te por algum tempo. Eu próprio chego a duvidar que um dia nos tivéssemos conhecido, e amado, e chorado juntos, e tivéssemos prometido um ao outro: «um dia haveremos de nos encontrar por aí». Só não poderia imaginar que fosse assim que nos encontrássemos, numa cidade desconhecida, sem nome, e que apenas me pedisses lume.
parece-me que já passaram vários dias
Parece-me que já passaram vários dias e é sempre de noite. Estou numa cidade desconhecida e caminho numa rua que não tem fim. As pessoas que se cruzam comigo parecem fantasmas perdidos na escuridão. Não se ouve um único ruído para além do eco dos passos cadenciados de alguém que continua atrás de mim desde que cheguei, sem saber como, a esta cidade. De vez em quando páro, e o ruído dos passos da pessoa que me persegue deixam de se ouvir na noite muito escura. Viro-me; olho o seu rosto: e é o meu rosto que vejo no rosto de quem me persegue, olhando-me nos olhos, de frente, como se houvesse uma pergunta que ficou por fazer.
Não conheço esta cidade. Não sei o nome desta cidade. Sei que é de noite e que desço a mesma rua há duas ou três horas. A rua parece não ter fim. Mas a verdade é que já passei várias vezes pela mesma casa, pela mesma montra de um restaurante vazio, pela mesma escultura equestre. Como se a rua não acabasse pela simples razão de que começa de novo à medida que a percorro. Não sei o que faço aqui. Sei apenas que é de noite e que esta cidade não tem nome.
numa cidade sem nome
Numa cidade sem nome, numa cidade que provavelmente não existe, tu apareces de súbito e pedes-me lume. Não dás sinais de me reconhecer. É como se nunca me tivesses conhecido. Acendes o cigarro, agradeces-me, afastas-te, fico a olhar-te por algum tempo. Eu próprio chego a duvidar que um dia nos tivéssemos conhecido, e amado, e chorado juntos, e tivéssemos prometido um ao outro: «um dia haveremos de nos encontrar por aí». Só não poderia imaginar que fosse assim que nos encontrássemos, numa cidade desconhecida, sem nome, e que apenas me pedisses lume.
parece-me que já passaram vários dias
Parece-me que já passaram vários dias e é sempre de noite. Estou numa cidade desconhecida e caminho numa rua que não tem fim. As pessoas que se cruzam comigo parecem fantasmas perdidos na escuridão. Não se ouve um único ruído para além do eco dos passos cadenciados de alguém que continua atrás de mim desde que cheguei, sem saber como, a esta cidade. De vez em quando páro, e o ruído dos passos da pessoa que me persegue deixam de se ouvir na noite muito escura. Viro-me; olho o seu rosto: e é o meu rosto que vejo no rosto de quem me persegue, olhando-me nos olhos, de frente, como se houvesse uma pergunta que ficou por fazer.
quinta-feira, outubro 13, 2005
quarta-feira, outubro 12, 2005
Uma árvore. [Memórias dum outro rio]
jcb

Como compreender as folhas sem os ramos, os ramos sem o tronco, o tronco sem a seiva que flui da raiz até às folhas, a água sem as raízes, o ar sem as folhas movendo-se nas manhãs de novembro, a madeira sem a trave mestra da casa ou as tábuas de esquadria, as folhas sem a sombra, o vento sem o fuste, a sombra sem a luz poisada na copa quando as crianças regressam de outros lugares como se regressassem de outras idades? No mundo, em boa verdade, só duas ou três coisas realmente importam. Uma árvore, por exemplo.

Como compreender as folhas sem os ramos, os ramos sem o tronco, o tronco sem a seiva que flui da raiz até às folhas, a água sem as raízes, o ar sem as folhas movendo-se nas manhãs de novembro, a madeira sem a trave mestra da casa ou as tábuas de esquadria, as folhas sem a sombra, o vento sem o fuste, a sombra sem a luz poisada na copa quando as crianças regressam de outros lugares como se regressassem de outras idades? No mundo, em boa verdade, só duas ou três coisas realmente importam. Uma árvore, por exemplo.
terça-feira, outubro 11, 2005
Ainda a chuva
Continua a chover. E a noite traz esse rumor simultaneamente intenso e quase imperceptível. Que não é o do levante mas o do silêncio sobressaltado das águas subterrâneas.
segunda-feira, outubro 10, 2005
domingo, outubro 09, 2005
terça-feira, outubro 04, 2005
segunda-feira, outubro 03, 2005
Autárquicas
O senhor presidente asfaltou às pressas o caminho de acesso e anunciou, num cartaz de exterior, que agora é que haveria de construir a rotunda e que, sobre um plinto de calcário, ergueria o símbolo do desenvolvimento económico do concelho: um paralelepípedo de betão com uma vareta metálica de baixo a cima unindo dois dos seus vértices.
Presidenciais
O chefe de quadrilha foi identificado pela sobrinha do xerife na estação dos correios: reconheceu-o pela cicatriz, vincada, que lhe descia do sobrolho: o assalto à diligência estava ainda na memória de todos. O bandido, após um breve momento de tensão, fugiu a cavalo empunhando a Smith & Wesson. Nas oficinas do Telegraph, entretanto, começou a azáfama: algumas horas depois estaria na rua uma nova edição do jornal. Pela simples razão de que havia notícia. É que o Telegraph – que desprezava tanto a ideia de periodicidade – só era impresso quando havia notícias.
quarta-feira, setembro 28, 2005
Esses rostos
Foram lugares de refúgio. Quase todos, lembrados, esses rostos se acolhem ainda no mês de novembro ao que ficou da dádiva, da hospitalidade que vive próxima do sangue e de um passado feito disso mesmo, de fugas tão incertas. Poucos velhos ficaram que os não levasse o esquecimento. Eles que estendiam lenços ou cigarros à passagem de rostos sem pátria, tão estrangeiros, esses rostos, até no modo de esconder a sede em terra de tanta água.
terça-feira, setembro 27, 2005
Antes de perder o caminho de casa
Antes de perder o caminho, para sempre, de casa, o caminho do largo, a luz dos degraus em pedra, o muro do pátio, o cântaro, mais uma vez levanto e rodo a cabeça sobre os ombros, o último cigarro nos dedos, um lenço, o bordado epigrama antecipado ao labirinto do futuro, a linha vermelha que parece atravessar a direito o espaço de sombra que leva hoje ao mais difícil coração.
Muito antes
Já nos conhecíamos muito antes desse fim
de tarde em que nos encontrámos
pela primeira vez num restaurante a caminho do Príncipe Real
ao pé da casa onde acabaríamos
a noite a falar do Al Berto e do vale da Campeã e
do Santa Cruz e do Inverno
e das margens dos rios vindos de Espanha
sendo certo que era já tarde e em boa verdade os poemas autógrafos
do António Maria Lisboa e o quadro do Cesariny (os poemas na parede o
quadro guardado atrás do guarda-vestidos)
anunciavam já
as despedidas
inverosímeis sim mas
tão certas
tão definitivas como nunca mais nos podermos encontrar em casa do René
ou na Manta Rota
ou a discutir os desenhos da primeira edição do Herbário do
Jorge de
Sousa Braga e eu
agora lembrar-me de tudo isso
porque tu dizias então até logo
e era já tarde
de tarde em que nos encontrámos
pela primeira vez num restaurante a caminho do Príncipe Real
ao pé da casa onde acabaríamos
a noite a falar do Al Berto e do vale da Campeã e
do Santa Cruz e do Inverno
e das margens dos rios vindos de Espanha
sendo certo que era já tarde e em boa verdade os poemas autógrafos
do António Maria Lisboa e o quadro do Cesariny (os poemas na parede o
quadro guardado atrás do guarda-vestidos)
anunciavam já
as despedidas
inverosímeis sim mas
tão certas
tão definitivas como nunca mais nos podermos encontrar em casa do René
ou na Manta Rota
ou a discutir os desenhos da primeira edição do Herbário do
Jorge de
Sousa Braga e eu
agora lembrar-me de tudo isso
porque tu dizias então até logo
e era já tarde
domingo, setembro 25, 2005
Da série: «Ficções»
sábado, setembro 24, 2005
A poesia
Chamava vento da jugoslávia a essa cor
vinda do mar da infância para as
suas mãos tranquilas. Fora do mundo
trabalhava em silêncio com o brilho das estrelas
e a memória de viagens impossíveis.
A poesia habita assim estas salas
iluminadas por janelas altas e estreitas,
o laranja do lume na boca dos fornos, o sopro leve,
os dedos em redor do vidro frágil e quente.
A eternidade cabe muitas vezes nestes gestos
simples, no cuidado com que as peças giram no ar
e se aproximam do fogo no instante certo,
no modo como a água as arrefece ou a tarde cai
abandonada à transparência do cristal. Cada
um dos objectos acabados tem um nome e nasceu
dum sonho de que não é possível regressar.
vinda do mar da infância para as
suas mãos tranquilas. Fora do mundo
trabalhava em silêncio com o brilho das estrelas
e a memória de viagens impossíveis.
A poesia habita assim estas salas
iluminadas por janelas altas e estreitas,
o laranja do lume na boca dos fornos, o sopro leve,
os dedos em redor do vidro frágil e quente.
A eternidade cabe muitas vezes nestes gestos
simples, no cuidado com que as peças giram no ar
e se aproximam do fogo no instante certo,
no modo como a água as arrefece ou a tarde cai
abandonada à transparência do cristal. Cada
um dos objectos acabados tem um nome e nasceu
dum sonho de que não é possível regressar.
quinta-feira, setembro 22, 2005
De umas coisas a outras
O que és e o que pensas ser. O que dizes e o que pensas ter dito. O que fazes e o que pensas ter feito. O modo como vês o mundo e o que, facto, o mundo é. O que vês numa árvore e o que os outros vêem na mesma árvore. Quem, senão Deus, mede as distâncias que vão de umas coisas a outras?
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