terça-feira, outubro 11, 2005

Ainda a chuva

Continua a chover. E a noite traz esse rumor simultaneamente intenso e quase imperceptível. Que não é o do levante mas o do silêncio sobressaltado das águas subterrâneas.

segunda-feira, outubro 10, 2005

Mudança

Sim. A chuva, finalmente. E uma sombra. E o lento erguer das sombras. O horizonte a ficar mais claro à medida que anoitece.


jcb

domingo, outubro 09, 2005

Nuvens

jcb

















Já parece longínquo o tempo em que as nuvens anunciavam chuva.

terça-feira, outubro 04, 2005

As uvas

Numa tarde em que discutíamos os grandes desígnios
e sobre todas as coisas o modo de mudar o mundo
e fazê-lo mais justo

ele chegou em silêncio e pendurou as uvas
com fios de ráfia.



jcb

A apanha

As amêndoas são agora a imagem
mais perfeita do Inverno que há-de chegar
e trazer uma flor branca e azul
para que possamos de novo acreditar.



jcb

segunda-feira, outubro 03, 2005

Autárquicas

O senhor presidente asfaltou às pressas o caminho de acesso e anunciou, num cartaz de exterior, que agora é que haveria de construir a rotunda e que, sobre um plinto de calcário, ergueria o símbolo do desenvolvimento económico do concelho: um paralelepípedo de betão com uma vareta metálica de baixo a cima unindo dois dos seus vértices.

Presidenciais

O chefe de quadrilha foi identificado pela sobrinha do xerife na estação dos correios: reconheceu-o pela cicatriz, vincada, que lhe descia do sobrolho: o assalto à diligência estava ainda na memória de todos. O bandido, após um breve momento de tensão, fugiu a cavalo empunhando a Smith & Wesson. Nas oficinas do Telegraph, entretanto, começou a azáfama: algumas horas depois estaria na rua uma nova edição do jornal. Pela simples razão de que havia notícia. É que o Telegraph – que desprezava tanto a ideia de periodicidade – só era impresso quando havia notícias.

quarta-feira, setembro 28, 2005

Esses rostos

Foram lugares de refúgio. Quase todos, lembrados, esses rostos se acolhem ainda no mês de novembro ao que ficou da dádiva, da hospitalidade que vive próxima do sangue e de um passado feito disso mesmo, de fugas tão incertas. Poucos velhos ficaram que os não levasse o esquecimento. Eles que estendiam lenços ou cigarros à passagem de rostos sem pátria, tão estrangeiros, esses rostos, até no modo de esconder a sede em terra de tanta água.

terça-feira, setembro 27, 2005

Antes de perder o caminho de casa

Antes de perder o caminho, para sempre, de casa, o caminho do largo, a luz dos degraus em pedra, o muro do pátio, o cântaro, mais uma vez levanto e rodo a cabeça sobre os ombros, o último cigarro nos dedos, um lenço, o bordado epigrama antecipado ao labirinto do futuro, a linha vermelha que parece atravessar a direito o espaço de sombra que leva hoje ao mais difícil coração.

Muito antes

Já nos conhecíamos muito antes desse fim
de tarde em que nos encontrámos
pela primeira vez num restaurante a caminho do Príncipe Real
ao pé da casa onde acabaríamos
a noite a falar do Al Berto e do vale da Campeã e
do Santa Cruz e do Inverno
e das margens dos rios vindos de Espanha

sendo certo que era já tarde e em boa verdade os poemas autógrafos
do António Maria Lisboa e o quadro do Cesariny (os poemas na parede o
quadro guardado atrás do guarda-vestidos)
anunciavam já

as despedidas

inverosímeis sim mas
tão certas
tão definitivas como nunca mais nos podermos encontrar em casa do René
ou na Manta Rota
ou a discutir os desenhos da primeira edição do Herbário do
Jorge de
Sousa Braga e eu

agora lembrar-me de tudo isso
porque tu dizias então até logo

e era já tarde

domingo, setembro 25, 2005

Da série: «Ficções»

J.C.Barros: «o fantasma de Giorgio de Chirico regressa a Santa Croce, 1979». Técnica mista sobre tela, 2002.


sábado, setembro 24, 2005

A poesia

Chamava vento da jugoslávia a essa cor
vinda do mar da infância para as
suas mãos tranquilas. Fora do mundo
trabalhava em silêncio com o brilho das estrelas

e a memória de viagens impossíveis.
A poesia habita assim estas salas
iluminadas por janelas altas e estreitas,
o laranja do lume na boca dos fornos, o sopro leve,

os dedos em redor do vidro frágil e quente.
A eternidade cabe muitas vezes nestes gestos
simples, no cuidado com que as peças giram no ar
e se aproximam do fogo no instante certo,

no modo como a água as arrefece ou a tarde cai
abandonada à transparência do cristal. Cada
um dos objectos acabados tem um nome e nasceu
dum sonho de que não é possível regressar.

quinta-feira, setembro 22, 2005

De umas coisas a outras

O que és e o que pensas ser. O que dizes e o que pensas ter dito. O que fazes e o que pensas ter feito. O modo como vês o mundo e o que, facto, o mundo é. O que vês numa árvore e o que os outros vêem na mesma árvore. Quem, senão Deus, mede as distâncias que vão de umas coisas a outras?

Outro poema antigo

O silêncio quase doméstico da
manhã roubou o lume ao caule
onde as abelhas poisam a
insónia, repet indo a fértil
elu viação do ar à roda dos teus
passos: é a memória, talvez, que po
voa novamente o sonho de
pequenas ironias e se esquec
eu na sua impaciência de perguntar
lá fora o endereço do amor.

quarta-feira, setembro 21, 2005

De antologia, 1

De heróis e vilões

«Lá por volta de 1982, 83, eu trabalhava parte da semana em São Paulo, parte no Rio de Janeiro. No Rio, por trabalhar no Flamengo, costumava ir jantar no Lamas, restaurante tradicional, mais de um século de existência, ponto de encontro de artistas, políticos, celebridades em geral.Vai daí, numa noite em que saboreava um filé-já-não-me-lembro-como, notei, em mesa próxima, um casal de meia idade, com a filha adolescente, a trocar cochichos e alternar espiadelas em minha direção.Achei aquilo curioso mas não dei maior importância à coisa.Neste ponto, preciso explicar: naquela época, estava para ser julgado um caso famoso. Um conhecido cantor brega (Lindomar Castilho) assassinara a ex-mulher, também cantora (Eliane de Grammont). As feministas elegeram Eliane, e sua morte, como símbolo de sua luta. A história toda era realmente chocante: ela já estava separada do cantor. Fazia apresentações em uma casa noturna em São Paulo. Um dia, Lindomar entrou no bar, durante a apresentação de Eliane e atirou nela, inconformado com a separação.Por que lembrar tudo isso? Simples. Eu era, nessa época, bastante parecido com Lindomar. Já havia sido confundido com ele por vários motoristas de táxis.Voltemos ao Lamas. Depois de ser olhado várias vezes pelo casal da mesa próxima e por sua filha adolescente, me dei conta do que acontecia: estava sendo confundido – mais uma vez – com Lindomar Castilho. Paciência. Não sendo apedrejado, tudo bem.Para minha total estupefação, quando o trio terminou a refeição e preparava-se para abandonar o restaurante, o homem, ao invés de dirigir-se para a saída, veio na direção contrária, em minha direção. Chegou junto à minha mesa. Não disse uma palavra, não emitiu nenhum som. Simplesmente curvou-se, respeitosamente, numa tosca atitude de reverência. Depois virou as costas lentamente e foi embora, com a família.»

[in Meu Bazar de Ideias. Copiado daqui]

terça-feira, setembro 20, 2005

As palavras do silêncio

As palavras do silêncio permanecem
no lume evaporado das presas,
no material aluvionar
dos depósitos de vertente,

nos terraços das encostas declivosas
quando o inverno mistura
nas argilas vagarosas dos talvegues
a primeira e última nuvem de novembro.

As palavras do silêncio permanecem
nas estalactites de gelo dos pátios
enquanto as crianças cortam os troncos das bétulas

à entrada do inverno
e uma sombra de granizo
repete nas cumeadas

o voo pretérito dos milhafres.
As palavras do silêncio ficam guardadas
na primitiva onda do levante,
na linha de preia mar

das águas vivas equinociais,
nas gavetas fechadas das cómodas
a apodrecer nas casas em ruína.
E então compreendes que as palavras do silêncio

são feitas de pó e do escombro das obras,
de distância e esquecimento,
do labirinto de devastação

das sebes de negrilho,
do desamparo, da quietação,
do entulho de sucessivos abandonos.


[Em resposta a um repto do JPN]

sexta-feira, setembro 16, 2005

Os subsídios

jcb

O nosso tempo: metáfora

jcb

quinta-feira, setembro 15, 2005

Limpezas

Um muito leve aguaceiro deixou nos vidros e nas superfícies lisas a sujidade da terra, a sujidade da poeira em suspensão. Como se a primeira coisa que se pedisse à chuva (que teima em não chegar) é que começasse por limpar o ar que respiramos.

quarta-feira, setembro 14, 2005

Nos tempos que correm

Nisso acredito ainda. Sempre. Nas terras de aluvião, nas sementes, nos frutos, nas folhas das árvores. Não é coisa pouca nos tempos que correm.