domingo, julho 10, 2005

Concretamente, uma árvore

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sábado, julho 09, 2005

Londres















jcb

Duas coisas me fodem a molécula: a), a ideia de que o Bush e o Blair andam mesmo a pedi-las (para usar uma expressão muito em uso aí pela blogosfera) e têm tido, portanto, o que merecem; b), a ideia de que agora se vê como a guerra do Iraque fazia todo o sentido, e que portanto o que é preciso é meia bola e força. Espanta-me sempre este pragmatismo que fico com a ideia que decorre de quem anda a dormir de botas de salto de prateleira e com indigestões. Há quem procure colocar a coisa num plano mais racional, enunciando questões, fazendo perguntas, procurando respostas num outro plano – mas andamos todos com muita pressa, pelos vistos, e um dia se compreenderá que talvez não seja a velocidade o melhor dos conselheiros. Sei lá.

sexta-feira, julho 08, 2005

Sem título















jcb

Mas é o Verão















jcb

Mas é o Verão.
E isso deve ser dito.
Contra a última sombra,
contra o rumor da tempestade,
contra a devastação.

quinta-feira, julho 07, 2005

Hoje

jcb

Afinal
não
era ainda
o Verão.
.
.
Luís: está tudo bem contigo? Diz qualquer coisa...

Uma árvore [Memórias de um outro rio]















jcb

Talvez uma árvore
(pelo menos
assim
às vezes me parece)
seja um
dos melhores exemplos
do que,
mudando,
permanece.

terça-feira, julho 05, 2005

Antes do Verão

























































jcb

O Verão é também o tempo que esperámos pela chegada do Verão: o vento, as primeiras folhas das figueiras, a poda dos pessegueiros jovens, a flor branca e cor de rosa das amendoeiras, os botões florais dos damascos, as romãs começando ainda a desenhar os seus frutos, a sombra inclinada nas paredes dos tanques. Só depois o Verão, a sua luz que vem de longe, desde o Inverno.

Todo o amor [fragmento]















jcb

O pouco que me dás é sempre tanto
o tanto que me dás é sempre pouco.

segunda-feira, julho 04, 2005

A infância

Trocar um agrafador por um disco voador de plástico. Eram coisas assim, a infância.

A praia: no Inverno















jcb

Dois anos depois















jcb

Um Pouco Mais de Sul: João Filipe Marques escrevia o seu primeiro texto no dia 3 de Julho de 2003; eu publicava no dia seguinte. Nos últimos meses a casa ficou entregue (muito bem entregue) a Eurico Alves. É ele que está de parabéns, claro. Dois anos depois.

Munch (1863-1944) revisitado no Olsen
























Edvard Munch - Self Portrait: Between Clock and Bed. Munch Museum, Oslo.


Nada separa o Auto-Retrato Depois da
Gripe (c. 1919) e o Auto-Retrato Entre o
Relógio e a Cama, iniciado em 1940 e
concluído em 1942, em três anos sucessivos
de abandonos e regressos, talvez já não
molhando a tela com água da torneira e
expondo-a aos elementos físicos, e depois
raspando, pintando de novo, voltando a raspar.
E nada separa estes dois quadros do
terror quase melancólico de um outro
óleo de 1881, A Velha Igreja de Aker, com as
casas fechadas e a mesma impossibilidade de
encontro e diálogo marcada pelo ocre das
empenas e por um céu iluminado pela
sua própria sombra. Em Abril de 1998, à
mesa do Olsen, o engenheiro do Instituto de
Hidráulica de Copenhaga recupera da infância o
som das botas dos nazis pisando as ervas
do quintal de casa dos seus pais, onde
Munch, por esse tempo, passara um fim de
semana regressando de Asgardstrand,
e afirma que O Grito (1893, têmpera
e pastel sobre madeira) é já o retrato
do século XX. E que todos estes quadros são
o mesmo quadro. E que Munch haveria
necessariamente de morrer numa Noruega
ocupada pelo ódio, retirado na sua
quinta de Ekely, para que a Arte fosse,
acima da técnica e do estilo, uma ciência
semelhante à História, mas que relata os
factos de um futuro que por
antecipação é possível apreender
nos seus traços essenciais.

[J.C.Barros: poema publicado em Julho de 2003 no blog Um Pouco Mais de Sul]

domingo, julho 03, 2005

Século vinte

Hoje, em casa de um amigo, vi uma disquete. Oh, que curioso tropeçarmos assim em coisas antigas. Ao tempo que não via uma disquete!

sábado, julho 02, 2005

Histórias verdadeiras, 3















jcb

Daqui a uns anos talvez o poeta da máquina lírica escreva que João Gonçalves Magalhães Freire, atingido pelas setas de Cupido, morreu de amor. É assim a literatura. A má literatura. Em boa verdade, João foi atingido no coração pela seta transviada do jovem com acne que recorreu a uma cunha para se inscrever, já depois do prazo, nas classes de formação do clube de tiro com arco.

As folhas das árvores

As folhas das árvores nascem de as aves na Primavera poisarem nos seus ramos.

sexta-feira, julho 01, 2005

Histórias verdadeiras, 2

Despediram-se com lágrimas nos olhos. Como bons amigos. Só muito tarde compreenderam que ninguém se deveria despedir assim: havendo lágrimas não há justa causa. A verdadeira despedida implica o tiroteio e o insulto, os dentes cerrados, o delete nos mails, a humilhação pública (recorrendo ao boato, sim, se necessário) de quem chegámos a supor que haveríamos de amar para sempre.

Um milagre















jcb

Imagine-se que um de entre os milhares de técnicos do Ministério da Agricultura era avistado fora dos gabinetes, longe da alcatifa, dos computadores e do fax, a acompanhar uma exploração agrícola e a aconselhar procedimentos, a dar informações a quem trabalha na terra sobre os apoios à actividade, a descodificar formulários de candidatura, a enquadrar os esquemas de comercialização.

A isso, sim, verdadeiramente, poderia chamar-se «um milagre».

Encher a boca


A economia. A economia. A economia. Fala-se da economia como se a economia existisse de per si, desligada do mundo. Como se a economia não fosse o resultado do que somos nas actividades que desenvolvemos, do modo como nos organizamos na agricultura e desbaratamos ou não os subsídios em viaturas topo de gama, do modo como organizamos as estruturas de comercialização dos produtos da terra, do modo como os serviços públicos dão resposta às exigências dos cidadãos que servem ou é suposto servir, do modo como enriquecemos ou empobrecemos alegremente organizando ou destruindo o território e os recursos. Como se a economia não fosse o resultado disso tudo, da indústria que temos ou poderíamos ter, do turismo que é de qualidade ou de chinelos, do modo como nos organizamos em termos energéticos e de como nesse caminho somos mais ou menos dependentes da escalada de preços dos barris. Mas não: a economia é um excelente palavrão para continuarmos a deixar de lado o essencial e nos ficarmos pelo acessório dos clichés, enchendo a boca e colocando um ar grave, circunspecto, doutoral.

Histórias verdadeiras

Os meus amigos estão quase todos a deixar de fumar. A táctica é conhecida: primeiro começam por reduzir de vinte para quinze ou dezasseis cigarros; depois, algum tempo depois, passam para dez, onze. A partir dessa altura deixam de comprar cigarros, e fumam esporadicamente – cravando quem não começou ainda o tratamento, como é o meu caso. Hoje, por exemplo, um amigo mete-me conversa sobre o jogão do Brasil contra a Argentina, crava-me um segundo cigarro e, desavergonhado, pergunta: «e tu, como é que te andas a dar com o tabaco? Tens reduzido?». Respondi com a verdade: «Uma desgraça. Não é que esteja a fumar mais, mas só ontem comprei quatro maços.»

Eugénio, 2




















jcb


Agrada-me estar aqui, falar
de árvores, dizer delas
o que disse da neve noutra ocasião.

Da janela avista-se a torre
sobre as águas, as da infância
ou da loucura, pois não há outras

assim, tão inocentes, e tão próximas
do coração da terra – dizer delas
o que noutra ocasião disse da neve.


Eugénio de Andrade, Matéria Solar. Ed. Limiar, 1ª edição, Março de 1980.