quarta-feira, junho 15, 2005

[sem título]


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«Estou aqui por causa do Manuel Batista. Uma vez encontrámo-nos em Lisboa, vinha ele a subir o Chiado. Perguntámos-lhe onde havia uma praia assim e assim, apresentámos-lhe um caderno de encargos que só visto... Eu calculava que uma praia que obedecesse àqueles critérios todos não existia... Ele pensou um bocadinho e disse: "Bem, uma praia assim, só se for a Manta Rota..." Viemos, apaixonámo-nos pela praia, comprámos esta casa, e pronto: nunca mais daqui saímos. Mas é curioso: se não fosse a Elna, que continua a gostar imenso de ir à praia de vez em quando, por mim não punha lá os pés...»

René Bértholo, em entrevista publicada na revista SUL, Outono/Inverno, 1998.

segunda-feira, junho 13, 2005

Eugénio, 1


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Caem os sonhos um a um
e o sangue estremece.
Caem, e ficam no chão
de quem os morde e os esquece.

Farto de seiva, o dia amadurece.


Eugénio de Andrade: «As Mãos e os Frutos». 2ª edição, Iniciativas Editoriais, 1960.

Coisas que se dizem


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Hoje, na 2:, Maria João Seixas garantia que «a Cultura é, antes de mais, um adubo». E eu a pensar que se for o sulfato de amónio tem vinte por cento de azoto e vinte e quatro por cento de enxofre.

Santo António


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Dá gosto ver assim esta alegria de se estar em casa, e ser Junho, e haver fogueiras de alecrim para saltar, e as danças, e um sorriso largo de felicidade: Teresa Rita Lopes está em Cacela, sim, e vê-se que está feliz. Falamos dos poemas autógrafos e dos livros que haverão de ficar para quem chegue de longe e deseje ler: mais tarde se compreenderá melhor. Por agora é o regresso a casa, o cheiro do alecrim, das fogueiras que por nove vezes seguidas se saltaram. E é tempo de poemas. Como este: à flor da fala:


À flor
do riso
........à flor
........da mágoa
à flor
da pele
........à flor
........da água
à flor
do fogo
........à flor
........da fala
te persigo
........esquivo
........gosto
...............fome
...............funda
........tão sem
........rosto

Nas veias
me viajas


O poema de Teresa Rita Lopes é tirado do livro «Por Assim Dizer», De Viva Voz, Abril de 1994.

sábado, junho 11, 2005

As barragens

Os tempos já não são de escassez: e falta água. De haver tanta?

A nora


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As águas subterrâneas eram aproveitadas com a parcimónia de quem sabe que a água é um recurso escasso. Finito. Suficiente.

A cisterna


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Que nenhuma gota de chuva deixe de ser aproveitada. Para que a água, uma e outra vez, regresse à terra. E depois, uma e outra vez, passando pelos telhados ou pelas açoteias, regresse à terra. Uma e outra vez. E outra vez, de novo. Sempre.

quinta-feira, junho 09, 2005

Quase tudo

Se pudéssemos escolher apenas um nome e apenas um lugar
e em cada nome apenas uma das suas sílabas
e em cada lugar apenas um dos seus muros ou uma das suas árvores
e em cada árvore apenas uma das suas folhas
e em cada muro apenas uma das suas pedras
e em cada pedra apenas uma das suas faces
e em cada folha apenas uma das suas páginas
e em cada rosto apenas um nome
e em cada nome apenas uma das suas sílabas

e isso não se pudesse escrever
e isso não se pudesse fotografar

quarta-feira, junho 08, 2005

A noite


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Diz-se «caiu a noite». Mas a noite, hoje, parecia começar a levantar-se a partir das sombras que as figueiras desenhavam na terra. Anoitecendo primeiro junto às raízes, e só depois nos troncos, e só depois nas folhas e nos frutos mais próximos do chão, e só depois nas copas ainda iluminadas por alguns instantes. E só depois a noite. A noite adivinhando-se ao longe nas dunas da península, nas encostas da serra. Até ficar apenas essa sombra espessa, fechada. E se acenderem, só então, as lâmpadas.

segunda-feira, junho 06, 2005

Santo António


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Amadureceram. É o seu tempo. Figos de Junho. Figos de Santo António.

Dinossauros


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Sempre achei que estes bichos tinham uma estranha altivez. Sem compreender de onde lhes poderia vir um ar assim altivo, quase insolente. Até que, num documentário, oiço um cientista a garantir que as galinhas descendem dos dinossauros. Bem me queria parecer. Está explicado.

Teoria da relatividade


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Sim
mas tudo poderia ser diferente
todos os modelos todos
os teoremas todas
as teorias
se einstein te
visse
uma única
vez a
desatar
pela cintura
o desejo

domingo, junho 05, 2005

Lá fora


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O ruído do mundo, o seu ruído de fundo, cada vez mais me quer parecer que não varia muito.

Península de Cacela


agostinho gomes

Um azul sucede a um outro azul que sucede a um outro azul que sucede a um outro azul

até que

(como é que diria Ibne Darrague Alcacetali?)

«a aurora chega, dorme e guarda como avaro o seu perfume.»

As aves


agostinho gomes

Os teus olhos adormecem

de passarem
as aves.

sábado, junho 04, 2005

Tardes de junho, 2


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Tardes de junho em que uma única palavra é devolvida num clamor pelas tijoleiras vermelhas dos pátios.

Tardes de junho


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Não são ainda os incêndios: apenas o lume das breves frases do amor.

Ser sage: evocação enviesada de Almutâmide

«E como é possível, mestre, ser simultaneamente sage e humilde?»

«Basta-te ser sage.»

quinta-feira, junho 02, 2005

Quase nada


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As injustiças sucessivas que se abatem sobre o mundo rural não cabem nas primeiras páginas dos jornais. Porque não é costume caberem aí o esquecimento e a sobranceria. São pequenas coisas, pequenas cicatrizes. Pequenas coisas que se compreendem melhor nestas tardes de Junho tão próximas da perfeição: na súbita turbação do ar, no estremecer das folhas, no rumor do voo das aves, na ondulação quase imperceptível das águas da cisterna. Quem vem de longe, quem está de passagem, não vê. Não sente. Não compreende. E é só isso. Quase nada.

quarta-feira, junho 01, 2005

O mundo, 2


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O mistério das raízes: da seiva que circula das raízes até ao fuste. O mistério de tudo o que começa: das sementes deixadas na terra, das nascentes da água, dos gomos florais, das crianças que correm desamparadas nos declives à procura do azul do outro lado do mar.