Domingo, Novembro 22, 2009

[Intervalo]

Quinta-feira, Novembro 12, 2009

15.
O sargento Francisco Gonçalves pensava ter a certeza de estar sozinho na mesa do fundo da Guiomar; e de que ninguém chegara, entretanto, enquanto procurava mentalmente rever o percurso (que provavelmente não terá percorrido) entre o Posto da Guarda e a Casa de Pasto. E, no entanto, Matias está sentado diante de si, à mesma mesa, um baralho de cartas nas mãos, um sorriso sardónico [há expressões que não abandonam os leitores de policiais]. «Pois é como lhe digo. O amigo sargento, ontem à noite, bem me fodeu. Eu a meter o ás sem me aperceber da sua esbalda no ouro.» Mas Francisco estava certo de que na noite anterior não tinha fodido ninguém na sueca; de que não houve baldas de nenhum naipe; de que nem sequer se tinha chegado a jogar. Olha o relógio. São quase nove da noite. E então estende a mão para a garrafa de vinho que acabara de tocar; as mãos a tremer; a procurar concentrar-se; a procurar regressar a um instante de lucidez. Mas não há nenhuma garrafa em cima da mesa. Só esse sorriso imenso no rosto imenso do Matias a dizer «tenha calma, amigo sargento; já pedi outra».
14.
Francisco está sentado na mesa do fundo da Guiomar e tem a súbita revelação de que há camadas de tempo que se tocam ou sobrepõem. Olha o relógio: são nove da noite. E passavam já alguns minutos das nove da noite quando se despediu de Geninha à porta do Posto da Guarda. (Toca o gargalo da garrafa de vinho dos mortos; sente as mãos a tremer; procura concentrar-se; regressar a si mesmo.) Recorda-se, é certo, de ter começado a descer a Rua Direita e de imaginar que o perfume do arando estava entranhado no seu corpo e nos passeios e nas paredes das casas. Mas não retém a mínima memória de passar diante do átrio muito iluminado da Casa do Brasileiro, de chegar ao Largo do Toural e confrontar-se com o tronco e os ramos densos do espinheiro-da-Virgínia, de deixar a fonte de mergulho e o pomar de macieiras pela banda do nascente a caminho do edifício da Casa de Pasto e a essa velada nuvem de sombra que parecia em permanência separá-lo (ao edifício) do mundo natural. Francisco tem a súbita revelação de que a passagem do tempo é uma abstracção desenhada (consentida) pela parte de nós que foi ensinada a render-se.

Segunda-feira, Novembro 09, 2009

13.
A Casa de Pasto Guiomar era quase tão velha como a Vila [merecia um folhetim]. Um postal do Serviço Nacional de Informação [s/d, p/b, c. 1970] mostra o edifício antigo de perpianho grosseiro, de um único piso (típico, rústico) e dois únicos vãos abertos à antiga Estrada Real que ligava Aquae Flaviae a Bracara Augusta. (Se nos adiantássemos à história, e não é o caso, dir-se-ia que o edifício seria demolido pouco depois para dar lugar à Casa da Câmara e aos jardins com abundante cópia de elementos representativos da ruralidade que, e ó mais não tardaria, haveria de começar a perder-se.) O sargento Francisco Gonçalves passava pela Guiomar (isto é um modo de dizer) quase todas as noites. Como nessa noite. Vestiu-se, fechou a porta do Posto da Guarda, despediu-se de Geninha e desceu a Rua Direita com a estranha sensação de que o perfume do arando estava entranhado no seu corpo e nos passeios e nas paredes das casas.

Sábado, Novembro 07, 2009

12.
Nenhuma experiência nos socorre no amor. Nunca sabemos nada. Um corpo é permanentemente a água pretérita das nascentes: ainda dividida entre o lume e a nuvem. É preciso não temer o erro. É preciso aprender, uma e outra vez, sempre, como se fosse, sempre, a primeira vez. Porque andam quase sempre juntos: o erro e a revelação. Os joelhos nus de Geninha, por exemplo. Francisco olha as pernas de Geninha e sente que é a primeira vez que essa luz aparece à face da terra: a iluminar os relevos das colinas ou as folhas dos negrilhos, as margens dos rios, as pedras sobrepostas dos muros das propriedades. Quase teme tocar essa pele poderosa (a noite a subir os cômoros das vinhas). E quando, finalmente, as suas mãos poisam nas pernas de Geninha, e depois as acariciam no pressentimento dos milagres, é como se uma palavra, e depois outra, começassem a espalhar a toda a largura do vale os primeiros nomes do mundo.

Quinta-feira, Novembro 05, 2009

11.
É certo que Alcino confessou o crime e que nenhum dos agentes da Guarda compreendia a obsessão do chefe em dilucidar um caso que, em rigor, não existia. Francisco desistira de explicar-lhes que a verdade se esconde nas folhas das árvores, nas sombras volúveis das colinas, no rumor das correntes. Relembrou-lhes apenas os depoimentos do Orlando e do Ramiro: Orlando a dizer que os ouvira aos berros (a Eleutério e António Augusto), e que António Augusto subia a vereda dos Matos quando (ele, Orlando) chegou ao pontilhão e viu um corpo estendido no chão, os olhos abertos, a sombra de uma nuvem de pássaros a tapar-lhe o rosto como se tivesse apenas adormecido; Ramiro a repetir as exactas palavras do Orlando, espaçadas em desassossego, em sobressalto, «estou que o António Augusto endoideceu», enquanto uma sombra espessa poisava nesse rosto inerme e o alvoroçado voo dos filhos da puta dos pássaros se misturou ao sangue (tão recente) espalhado nas lajes como metal reluzente. Uma ligeira dúvida, enfim, instalou-se nos rostos fechados dos agentes da autoridade (quatro, nesse momento, ao serviço): talvez, sim, ao fim e ao cabo, pudesse haver dois suspeitos. Entreolharam-se; olharam o chefe; semicerraram as pálpebras; via-se que estavam disponíveis para ouvir argumentos novos; avaliar cenários. Mas o sargento Francisco Aniceto Gonçalves guardou para si mesmo o essencial do raciocínio; fechou-se em copas. Não valeria a pena explicar-lhes que, a seu ver, o principal suspeito era outro: Eleutério. E quase sorriu para dentro a imaginar o efeito da revelação. Como haveriam os seus homens de conceber que o principal suspeito fosse a própria vítima do crime?
10.
É quase a noite. O perfume do arando continua a invadir a sala como se tivesse ficado agarrado aos objectos ou não corresse uma brisa e a janela (de guilhotina) estivesse fechada e ninguém se movesse ou respirasse e não houvesse a mínima possibilidade de renovação do ar. Geninha lava os pés ao sargento. Está sentada num minúsculo banco de criança; ele numa cadeira alta de espaldar; ela a saia leve assim a descair de ter as pernas erguidas, afastadas, os joelhos nus; ele (olhando os joelhos nus de Geninha) a procurar arrumar as peças do tabuleiro, a puxar os fios dispersos da trama complexa desse fim de tarde de Junho no pontilhão de Valdarada.

Quarta-feira, Novembro 04, 2009

9.
As versões não coincidem. (Nunca coincidem.) Mesmo que cada um dos intervenientes procure (procurasse) dizer a verdade; mesmo que dissesse a verdade. Porque a verdade é uma aranha de teias múltiplas: estamos diante de um espelho e é outra a imagem que o espelho nos devolve de nós mesmos. Francisco Aniceto Gonçalves desistiu há muito de procurar a verdade onde é suposto a verdade inscrever-se. Procura o que está por detrás das palavras, das evidências: no entendimento de que somos quase tudo menos o que pensamos ser ou os outros pensam que somos; no entendimento de que a realidade existe algures (longe) sob camadas espessas de sedimento.

Segunda-feira, Novembro 02, 2009

8.
Toda a gente sabe que Geninha lava os pés ao sargento. E toda a gente fala disso. A Vila não demorou a demarcar territórios; a erguer barreiras defensivas. Porque o costume exige de Geninha o segredo e a dissimulação. Não está em causa que tenha um caso com o sargento: portas adentro, sem alarido, tenha ela os casos que quiser. O que é inaceitável é a insubmissão assumida do seu olhar e dos seus gestos; o sorriso que permanece aberto como sempre foi (na rua, na igreja); a displicência diante da revelação de uma intimidade; quase o orgulho ostensivo de ser livre. Por isso a Vila reagiu: corpo bem delimitado a funcionar, prudente, como um todo homogéneo na diversidade dos seus elementos.

[Geninha]


Domingo, Novembro 01, 2009

7.
Só a placa metálica aparafusada na empena de perpianho grosseiro, com as letras a branco sobre fundo azul, distingue o Posto da Guarda das restantes casas (tirante, claro, a Casa do Brasileiro). Pouco foi preciso mudar na estrutura edificada: a corte dos recos, no rés-do-chão, deu lugar à secretaria e a uma sala de arrumos confusos; e a escaleira exterior, como antigamente levava às divisões da casa, agora dá entrada a uma pequena sala onde se lê o jornal e se ouvem relatos de futebol e, daí, em partes opostas do corredor, ao gabinete do chefe, a um quarto reservado e à camarata de dois beliches. O contrato com Geninha resumia-se à limpeza do Posto. Mas a disciplina militar responsabilizava os agentes da Guarda até à vassoura, à esfregona e à colcha das camas. Pouco ficava para fazer: Geninha chegava ao fim da tarde e limpava o pó das secretárias e dos armários com um pano húmido. Às vezes trazia uma sopa, um guisado, em pequenos tachos tapados com panos de cozinha, e ficava sentada ao lado de Francisco a vê-lo comer. E todas as noites, mais cedo, mais tarde, sem tempo, numa bacia de cobre, lavava-lhe os pés.

Quarta-feira, Outubro 28, 2009

[o Posto da Guarda]

6.
É recorrente a ideia de que tudo seria diferente ao longo da vida, para melhor, se em cada momento, um após outro, soubéssemos o que sabíamos hoje. Este entendimento parte do pressuposto (consensual) de que aprendemos com os erros e de que a experiência nos permite decisões mais acertadas; de que o conhecimento e a experiência nos defendem do mundo e nos ajudam a escolher melhor as casas e os caminhos. Francisco, pelo contrário, acredita que nenhuma experiência nos vale quando precisamos dela; que estamos sozinhos sempre que puxamos os fios dos labirintos ou riscamos um percurso nas cartas de rumos; como se fosse (sempre) a primeira vez. Francisco, aliás, considerava a experiência como um estorvo de que procurava, em permanência, livrar-se. O passado (camadas de sedimento feitas de conhecimento e experiências) é um fantasma que baralha e ilumina até deixarmos de ver.

Domingo, Outubro 25, 2009

5.
Francisco olha pela janela a vinha e o pomar de macieiras, as sombras do fim de tarde poisadas junto aos cômoros. E um perfume novo entra na sala. Geninha. O perfume do arando, primeiro, abrindo a porta, e logo depois, em aproximando-se, o odor da resina das araucárias. Bem certo é que os milagres existem; momentos de revelação. Francisco recorda: «Entre, senhor sargento. Já sabe que é casa de pobre.» A mãe muito pressurosa; uma divisão única, escura; um vão minúsculo aberto na parede do fundo; e um feixe estreito de luz poisado no rosto de Geninha. Um feixe de luz a incidir no seu rosto, a cortar em lâmina a escuridão da divisão ampla; e era como se a luz lhe viesse de dentro. Geninha olhou-o, sorriu. E logo baixou os olhos para a mesa, para a taça de barro decorada onde juntara as bagas de mirtilo e as uvas brancas. Num tacho de ferro, no fogão de dois bicos, a água haveria de aquecer em lume brando; e os frutos haveriam de ser esmagados até se dissolverem no açúcar abundante e se chegar ao ponto (e o ponto é o único segredo). Francisco não esqueceria (passaram meses) o odor dos frutos minúsculos, quase negros, quase azuis, de um embaciado púrpura que a futura compota (de bagos de uva acrescentados aos mirtilos) transformaria num polme (entre mel e geleia) quase transparente. Sobre a mesa, além da taça com as uvas e as bagas colhidas nas margens da Presa das Tílias, um ramo de arando deixava no ar esse aroma leve que o sargento Francisco ainda agora imagina que ficou colado para sempre à pele muito escura (morena) de Geninha, aos seus ombros, às suas mãos vagarosas. Esse (um feixe de luz, um rosto, um perfume?) foi um momento de revelação e milagre que parece repetir-se (como se fosse possível) de cada vez que Geninha, pelo fim da tarde, entra no gabinete do Posto da Guarda.

Quarta-feira, Outubro 21, 2009

4.
Num território onde os desacatos à ordem pública ou os mistérios e ocorrências (o roubo de uma galinha pedrês ou de girimuns destinados, com licença, à alimentação dos porcos) eram quase sempre de resolução óbvia ou imediato e inquestionável arquivamento, e quase nada acontecia nunca que fosse digno dos livros de registos, fascinava-o (neste caso) a perspectiva de um crime com três suspeitos a um tempo. Por isso tinha acabado de reunir os seus homens em redor da secretária de castanho com múltiplas gavetas vazias e composto um ar de gravidade: «Da dilucidação deste crime [e o mais certo é que vocês não atinjam, suponho] dependerá em grande parte o prestígio do Posto e da nossa, de cada um de nós, missão superiormente estabelecida.» Instalou-se o silêncio. Não contaria Francisco Aniceto Gonçalves dos seus subordinados, apesar de tudo, com essa espécie de tédio que mistura o cansaço e a indiferença. «Mas se o Alcino Medeiros até já confessou o crime», atreveu-se finalmente o agente Martins a dizer, primeiro indeciso, a magicar em raciocínios complexos, e depois a procurar a lógica (que não vislumbrava) que pudesse escapar-lhe. «Confessou o ca-ra-lho», gritou o sargento, acompanhando as palavras silabadas de uma batida forte, de mão espalmada, no tampo da mesa onde sobressaía, colado pelos cantos em fita adesiva (os quatro) um mapa de Portugal, das Ilhas Adjacentes e das Províncias Ultramarinas, plastificado, a escalas diferentes consoante as áreas e os perímetros das fronteiras. A verdade é que a realidade costuma ser o que é. E o sargento Gonçalves acabou por permitir e ordenar aos seus homens que fossem à ceia (certamente a esperá-los nas casas respectivas com abundância de toucinho nas frigideiras das frituras). Deixou que saíssem, portanto; e aproximou-se da janela de guilhotina (o que é um nome, um conceito?) e ergueu ligeiramente o caixilho móvel e compreendeu que corria finalmente uma aragem favorável à refrigeração do gabinete de trabalho. Por isso deixou o caixilho erguido, rodando o artefacto metálico quase triangular e de complexo rendilhado em que um serralheiro trabalhara de modo a que a função não retirasse às artes, à criatividade ou à estética, o que poderia resolver-se mais facilmente por sujeição simples à funcionalidade que se espera dos objectos comuns.

Terça-feira, Outubro 20, 2009

3.
Francisco Aniceto Gonçalves é dado à leitura. Mas muito particularmente batido em Simenon. Como o herói do seu herói, o comissário Maigret, ao sargento pouco o preocupavam as circunstâncias imediatas (concretas) de um crime. Porque, salvo raras excepções que devem ser deixadas menos à investigação policial do que ao estudo de anomalias psiquiátricas, acreditava que as razões de um crime vêm de muito antes da sua execução ou, mesmo, de ser pensado como acto possível de concretizar-se.
2.
[Geninha não chegou ainda.]

Domingo, Outubro 18, 2009

Capítulo VI

[Onde se fala de Geninha e se seguem os passos do sargento Gonçalves.]

1.
Geninha não chegou ainda. É quase noite. O sargento Gonçalves aproxima-se da janela do gabinete, ergue ligeiramente o caixilho móvel, vê que corre já uma aragem, acaba de erguê-lo até rodar o trinco metálico e deixar assim a janela aberta pela metade, que é pela metade que uma janela de guilhotina fica aberta de todo. Olha a vinha e o pomar de macieiras que prolongam o espaço do Posto. E reflecte sobre o estranho e misterioso poder das palavras; sobre a etimologia; sobre a evolução de uma língua que o outro dizia ser a sua Pátria. Guilhotina, por exemplo, é um instrumento (em desuso) ao serviço da decapitação de condenados à morte. Mas é também o nome escolhido para as janelas de dois caixilhos, como esta do gabinete do Posto da Guarda, em que um deles, subindo, descendo, se movimenta para deixar a aragem de um fim de tarde de Junho correr paredes adentro, ou impedir que o Inverno espalhe numa divisão das casas a sua nuvem de gelo. A guilhotina dos condenados, no que ao processo verdadeiramente interessa, tem um único movimento: descendo, com a lâmina muito afiada a deslizar, rápida, diluindo a noção de tempo, entre dois montantes paralelos. Este caixilho da janela, o inferior, pode subir ou descer, mais rapidamente, mais vagarosamente, até ficar suspenso pelo artefacto em triângulo, preso numa das extremidades por uma dobradiça (cujo nome significa a função que exerce), ou fechar o vão, deixado cair até unir a sua base ao parapeito liso que o recebe e encaixa. O termo (guilhotina) é também conhecido nas gráficas por significar um aparelhómetro de três facas que permite às revistas ou aos livros chegar até nós (os leitores de livros e revistas, como é dar-se o caso do sargento Gonçalves) sem anomalias de folhas descaídas ou demasiado encolhidas no volume de que fazem parte. Mas a palavra, parece, vem do nome de um médico francês, o senhor doutor Joseph-Ignace Guilhotin, tão humanista (ele) que incentivava o uso da lâmina (essa que funcionava preferencialmente, com a eficácia que se lhe reclamava, de cima para baixo) como método de privilégio para que os condenados à morte não sofressem tanto. Assim (reflecte o sargento Gonçalves) são as palavras: e uma mesma, sem variações de ortografia, pode portanto significar o acto correspondente à decapitação ou à possibilidade de o ar fresco de um fim de tarde de Junho, como este, entrar no gabinete de trabalho de uma autoridade de polícia. Bem certo é (conclui o sargento) que as palavras, as mais das vezes, significam o que pretendemos que explicitem ou ocultem, que escondam ou revelem.

Sexta-feira, Outubro 16, 2009

7.
Era um fim de tarde de Junho de mil novecentos e setenta e dois. E Alcino, ao chegar à Vila, ao subir a Rua Direita a caminho do Posto da Guarda, sorriu a imaginar que o passado e o futuro se confundiam, sobrepunham, misturavam. O sargento Gonçalves sentiu-se interdito: «Nunca imaginei que alguém pudesse confessar um crime como se a ordem das coisas dependesse dele para passar a fazer sentido.» A verdade é que Alcino está diante de si a dizer «acabo de matar um homem. Sei que o meu gesto não tem atenuantes à face da lei. Venho entregar-me e declarar-me culpado».

Quarta-feira, Outubro 14, 2009

6.
Quando tememos perder uma coisa é como se já a tivéssemos perdido. Alcino fica a olhar o pai a atravessar o pátio, a subir a escaleira, a entrar em casa (a sombra continua estendida de cumeada a cumeada). Já lhe disse o que tinha a dizer. E segue na direcção do Meio da Aldeia: o passo decidido, nos ombros um peso de que vai demorar a libertar-se. Ana Teresa deve estar ao balcão da taberna, os cotovelos na tábua do balcão, o queixo enterrado nas mãos abertas. «Lembro-me de ter ficado escuro como se o mundo se desmoronasse para sempre» -- diria mais tarde. Mas nesse momento não podia adivinhar que Alcino, por instantes, parara na rua, a dois passos dela, dividido entre deixar as feridas abertas ou abri-las mais para que a cicatrização tivesse um nome a que pudesse um dia regressar; a deixar o silêncio da solidão absoluta a acrescentar-se ao silêncio de um tempo fora do tempo poisado assim nos muros do cadastro, nas paredes das casas, no saibro dos estradões. Já não nos pertence, é certo, o que tememos perder. Caminhando na direcção da Vila, passando a vereda da Escola e o pomar de macieiras temporão, deixando para trás a água dos tanques do gado e o frontão do Colégio, Alcino compreendeu que talvez só então, no momento em que tememos perdê-las, as coisas [afinal] começam verdadeiramente a pertencer-nos.

Segunda-feira, Outubro 12, 2009

5.
Ramiro pergunta a si mesmo quantos anos terá esta chave de ferro desgastada onde mais se exerceu a pressão de ter sido rodada no canhão da fechadura da porta do moinho; uma e outra vez, e outra; até o uso, ao longo do tempo, a afeiçoar à mão. Vem de arranjar a pela, ligeiramente solta no encaixe do rodízio, e de ajeitar a bucha da segurelha. E lembra-se das conversas com Alcino. E imagina que, accionado o sistema hidráulico, o pejadouro do moinho (o pejadouro do mundo) não é mexido nunca; e que a água da seteira, batendo nas penas, faz mover o rodízio em permanência, indefinidamente, num movimento de rotação que definisse, a uma outra escala, o correr das horas e dos dias, dos meses e dos anos. Em vez dos relógios. Como seria apreendida a passagem do tempo assim determinada pelo movimento contínuo da mó andadeira, com a água do açude, entrando no cubo, saindo pela seteira, a fazer mover o rodízio, e depois a pela, e depois o lobete e a segurelha e, enfim, fazendo rodar a mó, à mesma exacta rotação do rodízio [Ramiro não teme a censura do pleonasmo], impelida em sobressalto contra a pedra do pouso e o tédio? Quando está no moinho, ausente e afastado do mundo (a pressionar ou relaxar o aliviadouro, a regular a seteira, a ouvir o rumor quase subterrâneo das mós a triturar o grão que desce da moega e corre pela quelha), é como se o tempo ficasse suspenso da sua própria abstracção; e apenas a imobilidade o movesse em direcção ao futuro. Ramiro fecha a porta do moinho e aperta nas mãos a chave afeiçoada aos seus gestos; a chave de ferro que o avô trazia consigo (ontem?) para que o mundo, abertas ao cubo as águas do açude, rodasse, fora do tempo abstracto, ao ritmo do movimento das águas do rio. E subiu finalmente à Pedra do Outeiro e, olhando da linha de cumeada, viu que era já noite; e que do outro lado, de onde vinha, era ainda dia. «Uma coisa que nem sei explicar». Desceu o caminho de Valdarada. O silêncio presidia a tudo. E então ouviu o barulho dos pássaros a atravessar o vale e percebeu que a noite e o dia se sobrepunham e afastavam, entre luzes e sombras, na amplitude do vale. Mas era uma sombra espessa o que poisava no rosto de Eleutério, nos seus olhos abertos, no seu corpo imóvel, quando se aproximou e viu que Orlando o tocava como se fosse ainda possível acordá-lo ou trazer aos seus olhos um pouco da recente claridade da tarde de Junho.

Terça-feira, Outubro 06, 2009

4.
O Orlando disse que nunca tinha visto tantos pássaros juntos. «Pareciam gafanhotos.» A água da Mina corre num fio lento, corre sempre, um fio inverosímil que a qualquer instante parece escouchar-se quando o calor dos meses de Verão seca as nascentes e deixa no leito das ribeiras pequenos charcos desligados. Mas corre sempre: num fio quase imperceptível ao longo do canal que desce pelo lado de cima do caminho, entre as ervas, sem um rumor, e depois o atravessa, subterrâneo, por manilhas de betão. Esse fio, esse fio lento, acaba em bica no tanque cimeiro da horta, encaixado no talude, deixando os limos do interior das paredes e do fundo a progredir na lentidão da corrente. «Eu ouvi-os aos berros e ainda me debrucei da cancela. Coisa boa não esperava.» E foi então que a nuvem de pássaros desceu do Alto do Barco de Pedra e cobriu o céu e encheu os campos de vorazes sombras. Como se a noite impusesse, a desoras, o seu estranho domínio. Orlando tapou a saída da água com o torrão compacto que, pouco antes, desviara num movimento único do sacholo, e desceu ao pontilhão de Valdarada. Eleutério estava estendido no chão: os olhos abertos e a sombra da nuvem de pássaros a tapar-lhe o rosto como se tivesse apenas adormecido. «Ainda o toquei, a ver se acordava.» Mas o silêncio que cobria o vale e as encostas estava também instalado nos seus olhos muito abertos e frios, já distantes, já ausentes de tudo no fim da tarde (até então) clara de Junho. 

Quinta-feira, Outubro 01, 2009

3.
Alcino estava na varanda quando viu o pai, muito pálido, lento, os olhos baços, a aproximar-se. Temeu o pior. Desceu numa corrida, atravessou o pátio, chegou ainda a tempo de puxar o trinco da cancela metálica (sem tinta, os ferros e a base de zinco ondulado com uma única demão de zarcão cor de laranja) e aguardar as últimas doze passadas autómatas de António Augusto a caminho de casa. O silêncio do fim de tarde, poisado em tudo, deixava nos objectos, nas paredes, na pedra do cruzeiro, na porta carral do armazém contíguo, uma luz irreal de intemporalidade e tumulto. Ficaram parados, pai e filho, um diante do outro. Os pássaros, em bando, de súbito, sobrevoaram a Aldeia e espalharam sobre os telhados e as ruas e os pátios um rendilhado de sombras velozes. A imobilidade e o movimento pareciam suceder-se, sobrepor-se, numa estranha simultaneidade. E apenas a água correndo nos canais de rega (a sua memória, a sua permanência) misturava ao crepúsculo o antiquíssimo rumor dos labirintos. Até que, por fim, António Augusto Medeiros disse «estou que matei o Eleutério». E era como se essas palavras, e as palavras que elas mesmas reclamavam, já estivessem escritas há muito num livro de costumes. Alcino quase não hesitou: «O pai cala-se. Entra em casa e não é nada consigo. Nem uma palavra sobre o assunto. E quem matou ou não matou esse filho da puta ainda é coisa que haverá de se ver.»
2.
Mas saí muito cedo. E não é assim que se regressa: olhando em redor. Esta é a minha terra e não me reconheço nela. Procuro uma voz. Um ritmo. Uma onda correndo devagar entre as suas amplitudes extremas. Uma voz que me permita regressar às histórias e às memórias com que (afinal) fui ficando, por exemplo, dessa tarde clara de Junho de mil novecentos e setenta e dois. Talvez a sombra dos freixos se estendesse sobre o pontilhão quando Eleutério caiu e António Augusto lhe desferiu um golpe certeiro e o sobressaltado voo dos pássaros se misturou ao sangue espalhado nas lajes como metal reluzente. Talvez António Augusto Medeiros tivesse ficado por instantes a olhar os montes e a procurar a origem do silêncio absoluto que descera sobre todas as coisas. Talvez nenhuma aragem movesse os ramos das árvores. Talvez nenhum movimento se adivinhasse nas águas. Talvez o mundo se suspendesse nesse preciso momento para que um crime significasse verdadeiramente a desordem de ficarmos vivos.
Capítulo V

[Onde, até ver, se conclui a sucessão de acontecimentos desse fim de tarde de Junho de mil novecentos e setenta e dois.]
 
1.
A estrada nacional corre por onde os romanos lançaram a antiga via, das mais recônditas do Império, que de Aquae Flaviae levava a Bracara Augusta; por estas bandas, deixando a antiga urbe de Flávio a umas quatro léguas, desce do Alto do Barco de Pedra e afasta-se do terço superior da encosta declivosa que, ao fundo, encaixa as águas da ribeira do Crasto. A Aldeia cresceu na base dessa mesma vertente talhada no granito, em redor de um largo minúsculo e chão, rendilhando ruas e quelhos, deixando apenas, na base só então alargada, os plainos da aluvião. Muitas vezes, em chegando tarde da Vila (lembro-me), parava a olhar (de cima) o casario compacto, os telhados que ficavam quase à distância de uma mão estendida, e imaginava os segredos que se guardam do lado de dentro das paredes de pedra arrumada ou de alvenaria e confusos azulejos decorando as varandas.

Segunda-feira, Setembro 28, 2009

5.
Eu e o Miguel, quando a noiva descia já a caminho da igreja trepando o tapete verde estendido nas ruas e deixando no ar o odor do rosmaninho e do alecrim, desenfiámo-nos para o café do meio da aldeia a beber uma cerveja. «Isto já sabes que em confluindo o minhoto com o de Romainho vai ser de escacha-pessegueiro.» Ele, via-se, continuava a magicar na história do Alcino Medeiros. E, antes de entrarmos, apontando com um displicente mover da cabeça a mulher vestida de negro, perguntou: «Não me vais dizer que também não sabes quem é a Ana Teresa?» Não lhe respondi que não. Mas adivinhava já que não haveria eu, e ó mais não tardaria, de saber outra coisa.
4.
É certo que o cantador minhoto começou por dar umas fífias na colocação da voz. Mas encarreirou depressa. E a minha tia não se teve que não lhe corressem pelas faces muito vermelhas duas lágrimas simétricas, compassadas, morosas, até que a ponta de um lenço, num gesto treinado com a dona Carlota do Arménio, as recolheu cerimoniosamente à luz do fim da manhã de Junho.

Sábado, Setembro 26, 2009

3. 
Eu começava a distanciar-me para ver melhor. Era uma cena de filme: a tradição e o kitsch procuravam a primazia dos palcos. O cantador minhoto, com restos de vomitado nos cantos da boca, apareceu com ar sério de vedeta a compor a passada trémula. Alguém lhe trouxe a concertina que parecia ter esquecido sobre uma meia pipa da adega quando ensaiava com o Zé Cândido um concerto futuro de cartazes com estrelas e vastas e entendidas plateias. A minha tia veio à porta com o seu vestido escarlate até aos pés e uma capeline de fios vermelhos que, passando sob o queixo, atavam em laçarotes largos à altura das orelhas. A mulher do Alberto fazia-se aos retratos desenhando um sorriso em que sobressaía a placa saliente, convexa, a que levava o dedo indicador, espaçadamente, assegurando-se da aderência, que começava a faltar-lhe, às gengivas. Marta, a seu lado, parecendo ausente dela mesma, exibia um decote que sabia ser de fazer inveja. E o Marques ria-se muito, e muitos com ele, do efeito do seu jogo de simular, olhando ao alto e atirando-se num simultâneo grito ao chão de saibro, levando alguns com ele nesse imprevisto movimento, que uma parede se desmoronava. E então, aparecendo finalmente a minha prima num vestido branco de mangas folhadas, véu e uma longa cauda que duas meninas erguiam na passada lenta segurando os rebordos, ouviu-se a concertina numa rápida distensão dos foles, a mão esquerda premindo um acorde nos baixos e a mão direita em arremeluja correndo a pauta.
2.
Os convidados já tinham saído do terraço onde se improvisara a montagem de mesas corridas com toalhas de linho. Depois de se comer e beber, com um excesso de canapés e espumante que deixara o meu tio envergonhado, os convidados esperavam cá fora procurando a sombra dos dois plátanos estendida sobre o pequeno largo.
Capítulo IV

[Onde se regressa, avançando até ao tempo presente, à cerimónia do casamento da minha prima.]

1.
O meu tio ficou em pânico quando lhe explicaram verdadeiramente a função do cantador contratado no Minho por já não haver em cinco léguas ao redor ninguém que soubesse da poda: aquilo era a sério. Ao Marques, em casa do noivo, a tarefa principal era a de animar a pândega enquanto se bebia e comia até se fazerem horas. Mas ali a coisa fiava fino: a filha era a personagem do rimance.

Terça-feira, Setembro 22, 2009

11.
Finalmente retirou os torrões e desviou a pedra do meio e começou por ouvir, com a água a correr, o antiquíssimo rumor dos labirintos.
10.
De modo que António Augusto Medeiros passou as horas, desde domingo, a magicar naquilo. Na terça-feira, por volta das quatro e meia, enfim, saiu de casa com a sachola ao ombro e foi abrir a poça de rega. Ficou por alguns instantes a olhar a água das nascentes retida na ligeira depressão da encosta, as pedras erguidas em semi-círculo na parte inferior, o talvegue quase imperceptível pelo lado de montante a abrir um ligeiro rasgo no talude. Depois, o queixo apoiado nas mãos sobrepostas, as mãos apoiadas no cabo da sachola, olhou os campos que rodeavam a aldeia e a estranha simetria definida pelos muros do cadastro e as sebes de salgueiros erguidas em linhas a direito ou em ligeiras derivações a definir nos declives as curvas de nível. Era ainda cedo na tarde quente de Junho para se dar início à rega: a luz derramada sobre os campos, a sombra apenas espalhada em ovais recortadas a nordeste dos relevos suaves da encosta.
9.
Despediu-se com a certeza de que a missão estava cumprida; que era preciso, sobretudo, estar atento à previsão das tempestades. E foi então, chegando a casa, que viu Mariana e o seu olhar triste. «Estava à sua espera. Precisava tanto de falar consigo.» Cardoso regressa ao seu mundo íntimo; aos seus fantasmas antigos. O padre Cardoso procura fugir das tempestades e sabe que a ninguém é dado afastar-se delas. Mariana vai ao seu encontro para falar do abandono, da perda, do desamparo que sente tomar-lhe conta da vida. E o padre Cardoso não atinge como corresponder a essa demanda [lá estamos nós a antecipar a história] de um corpo que não se encontra em si mesmo. O padre Cardoso procura um caminho; sabe como é fácil (e às vezes irreversível) a queda. Conhece a água iluminada das nascentes; mas conhece também as ravinas e a sombra devolvida pelo fundo dos poços dos quintais. E avança; e procura, a cada instante, retomar o caminho justo.
8.
Germana, a mulher de Eleutério, veio à mesa do alpendre a servir dois cálices de licor de cereja. Era uma tarde clara de Junho, sem uma aragem, sem uma nuvem, perfumada da floração da urze das encostas. Cardoso recostou-se no escano largo e sentiu que o mundo poderia ser perfeito. Do outro lado da veiga, do outro lado da ribeira, virado ao nascente, subindo por entre os pinhais, um caminho de terra corria ladeado pelos muros do cadastro. Primeiro as hortas (e o seu renovo temporão) ainda agarradas às últimas casas, depois as cortinhas e os nabais, depois as vinhas e os pomares de macieiras. Os lameiros, verdes das águas de lima, pareciam reflectir a luz inteira da tarde exemplar de Junho. 

Domingo, Setembro 20, 2009

7.
O padre Cardoso acredita que o arrependimento é o princípio da redenção das almas. As suas ovelhas [como as palavras e os conceitos mudam] perdiam-se e encontravam-se, pecavam e retomavam os caminhos justos num jogo antigo de precários equilíbrios. O que era preciso era estar atento aos desvios e procurar corrigi-los antes que a tempestade se abatesse sobre os largos e os pátios. Por isso, entendendo não dever meter-se no cerimonial da leitura do rol, logo ao fim de almoço rumou a casa do Eleutério a chamá-lo à pedra. «Tu vê lá se não arranjas confusão. Olha que o Augusto não é de se ficar. E a razão, pelo que vi, não está do teu lado.»

Sexta-feira, Setembro 18, 2009

6.
O padre Cardoso, ainda na sacristia, compreende que a coisa não corre bem. Fica de atalaia enquanto se despe vagarosamente dos trajes litúrgicos, tirando a casula e depois a alva, o amito e o cíngulo que lhe cinge a cintura, e ouve a voz exaltada do António Augusto e sente o silêncio a instalar-se no resto do grupo. Chega-se finalmente à porta e olha na diagonal do adro. Eleutério, sem ninguém que o defenda, cruza os braços e encosta-se à parede da escaleira do coro como se não fosse nada com ele.
5.
Nessa manhã de domingo, depois da missa, as mulheres correram às cozinhas e os homens à taberna. Ana Teresa foi buscar as malhas e os pinos quando Eleutério entrou, apoiou no balcão sua mão direita espalmada e pediu um copo de tinto. Na manhã de Junho erguia-se o perfume das folhas da urze e do tojo das encostas e pressentia-se ainda o odor da chuva que caíra durante a noite sobre os telhados das casas e os campos lavrados. «Eu vi logo que havia coisa quando o Eleutério me disse que não era dia de jogar ao fito e que cada um pagasse o que bebesse.» No terraço preparavam-se duas mesas de sueca quando Alcino Medeiros subiu a escaleira da taberna e a olhou e sentiram ambos a revelação de que um segredo os unia para sempre contra o resto do mundo.
4.
Tudo se decide nesse momento de revelação em que dois olhares se encontram e se misturam. Ana Teresa passava os dias entre sombras e uma espécie de humidade que deixava no papel dos calendários da parede e no balcão de madeira uma luz desmaiada. O tempo corria tão devagar que ninguém se preocupava em mudar as folhas dos meses ou em limpar o pó acumulado nas grades de cerveja arrumadas no corredor. «Nunca me ocorreu que a coisa pudesse descambar naquilo» – diria mais tarde, numa voz trémula, tocada pelo sentimento de culpa de não ter adivinhado a tragédia e mudado a sucessão de acontecimentos que às vezes parecem estar inscritos com antecedência nas estrelas ou nos calendários.

Terça-feira, Setembro 15, 2009

3.
O certo é que a manhã, perfumada da leve aragem que trazia das encostas o odor das flores da urze e do tojo, correndo nas ruas e nos largos da aldeia, erguendo-se no perímetro do adro, deixara uma cicatriz aberta no livro dos usos. Por isso mesmo, na terça-feira, António Augusto Medeiros quase não estranhou quando, a meio da rega, começou a deixar de ouvir o rumor contínuo da água correndo no labirinto dos canais. Subiu a vereda dos Matos, seguiu pelo caminho de Valdarada, emboscou-se no muro e surpreendeu Eleutério a desviar a água. «Oh meu filho da puta que não há meio de aprenderes.» A discussão foi breve. Subiram à quelha em voz alta, desceram ao pontilhão. Os códigos antigos não deixavam grande espaço à filosofia. António começou por empurrá-lo e por vê-lo, num desequilíbrio defensivo, a cair de costas. Eleutério estava no chão e aparentemente sem forças para reagir. Tinha sessenta e dois anos. Caíra desamparado e quase perdera os sentidos ao bater com as costas no lajedo irregular. Mas António Augusto media-o ainda como se uma labareda lhe poisasse nos olhos vidrados. Levantou a sachola, deixou-a parada na vertical por um instante breve, apontou-lhe às fontes, desferiu um golpe certeiro, misturou ao sobressaltado voo dos pássaros da ribeira o sangue que começava a correr como metal reluzente na tarde clara de Junho.
2.
Tudo tinha começado no domingo anterior. Ao fim de missa, no adro, Manuel Regedor leu em voz alta o rol das águas de aviação. Uma bátega imprevista caíra durante a noite a iludir a secura dos campos. Mas a manhã nascera clara, sem uma nuvem, transparente na sucessão das cumeadas dos montes. E a leitura do rol voltava a fazer sentido e a inscrever-se na lógica antiga da precaução e da prevenção dos desastres. Eleutério teve que esperar o rodar de todos os nomes com terrenos de herdeiros até que o seu, finalmente, já no decrescendo da ladainha, fosse anunciado por Manuel Regedor. E pediu uma troca. Que as suas terras, as mais afastadas da veiga, exigiam já a água do regadio comum. E que António Augusto bem poderia prescindir da vez. «Mas só os teus terrenos é que estarão precisos? E agora o rol já não é o que manda?», perguntou António, célere, numa voz firme, a cortar cerce a dúvida que pudesse chegar a instalar-se como um princípio de subversão dos costumes. «Olha que eu já nem te estou é a ver bem nem o caralho.» 

Segunda-feira, Setembro 14, 2009

Capítulo III

[Onde se recua a esses dias antigos (de Junho de mil novecentos e setenta e dois) das desavenças por mor das águas de rega.]

1.
Eleutério estava no chão e aparentemente sem forças para reagir. Tinha sessenta e dois anos. Caíra desamparado e quase perdera os sentidos ao bater com as costas no lajedo irregular do pontilhão de Valdarada. Nem chegou a pedir clemência. Ficou assim, em silêncio, estendido e com os braços abertos em cruz, a fixar o céu da tarde de Junho até que esse azul intenso se espelhou nos seus olhos muito abertos. Mas António Augusto Medeiros olhava-o como se a imobilidade não impedisse a progressão do veneno da insídia. E media-o como a um bicho ruim do mato que se prepara para morder no escuro.

10.
E eu, de novo, que não. Que não me parecia que conhecesse a história do Alcino Medeiros. 
9.
E foi então que o Miguel me olhou, surpreso, a perguntar se sabia quem era o de fato azul-clarinho e bigode fino. Eu que não. E ele, primeiro ainda a mirá-lo de revés, depois compenetrado num rosto dividido entre a melancolia e o júbilo: «Não me queres ver que será o Alcino Medeiros? Não lhe conheces a história?» 
8.
O padre Salomão esperava em silêncio, as páginas do missal marcadas por fitas coloridas, resignado do hábito, mortinho pelo fim da cerimónia: tinha combinado para essa tarde uma pescaria e estava de fé na pluma e do mesmo passo a lamber-se da lembrança do clafouti de maçã reineta poisado nas mesas corridas da Junta de Freguesia de que ouvira falar de passagem. 

Segunda-feira, Setembro 07, 2009

7.
O certo é que o cantador minhoto não havia meio de aparecer. Até que o meu tio Alberto (o meu tio Alberto dizia «o panasca do cantador minhoto») o fisgou na adega com o Zé Cândido, de caneca providencial, a fazer rimas e a filosofar sobre os desacertos do mundo limpando as beiças. Agarrou-o pelos colarinhos, trouxe-o quase de rastos até ao alpendre da casa, ajeitou-lhe o nó da gravata, olhou-o muito de frente na impossibilidade de lhe compor a linha das sobrancelhas, amanhou ele mesmo um sorriso de circunstância e só lhe disse entre dentes: «Ó meu caralho: tu vê se desafinas que te espeto um lareiro no olho que até te desdanças.» 
6.
As mulheres, na madrugada da cerimónia, aqueciam o forno do povo e começavam por conduzir ao fogo, antes dos cabritos com batatas cortadas em quadrados grossos, os tabuleiros de empada de presunto e salpicão. E sentavam-se na pedra do forno, insinuando coisas, a fazer chalaça de a noiva levar o vestido branco e as flores simbólicas da laranjeira. «Ai eu se me apanhasse na idade e soubesse o que sei hoje.» E também elas riam correndo à boca a mão estendida como se o tempo por um instante pudesse suspender-se para que fossem jovens de novo e gritassem o que por dentro delas ficou sempre por dizer. 

Sexta-feira, Setembro 04, 2009

5.
O almoço do casamento ainda vinha longe no salão da Junta. Mas a festa começara antes. Na sexta-feira mataram-se os cabritos no pátio do Zé Ventura suspendendo-os de paus espetados nos intervalos do perpianho grosseiro das paredes. O vinho corria a par das moscas rondando os alguidares das vísceras depois de os bichos serem soprados à cana para que as enxúndias viessem inteiras na precisão do corte. O Zé Ventura limpava as mãos e a navalha no pano de cozinha deixando escorrer as gotas de sangue no lajedo ao mesmo tempo que gritava para cima (e todos no escárnio) «ó Tila que o vinho parece que entupiu a torneira do pipo». Ao pai da noiva competia então, em sendo já o fim da manhã (é um supor), aparecer e pagar um copo aos rapazes na taberna do Pedro. «Estava a ver que adormeceras tarde, cabrão.» E ele a rir-se e a dizer (há variantes) «o que tu sabes já me esqueceu há muito». 
4.
Subo a Rua de Cima e chego enfim ao pequeno largo. Miguel aproxima-se («atão?»), põe-me ao corrente: o cantador minhoto não há meio de aparecer e o meu tio Alberto exalta-se na razão que a realidade lhe dá de ver-se armada a bronca cerimonial. E não se tem: «São sempre os mesmos panascas. Por mim não punham cá eles o cu.» Mas a minha tia fizera questão de que a noiva fosse recebida com músicas à antiga, com vénias e flores de laranjeira atadas em ramo, com um tapete de rosmaninho e alecrim a seguir em duas linhas da casa à igreja, passando pelo largo do meio da aldeia, atravessando o adro, entrando enfim pelo santuário quase até ao altar; e não tem preconceitos contra os minhotos gaiteiros. Os cantadores, de resto, eram a cereja no cimo do bolo: um a apresentar a noiva e a gabar-lhe as qualidades da temperança; outro em favor do prometido esposo exaltando em métrica relapsa a sua propensão às virtudes do trabalho. Havia ainda o Marcos de Romainho; e a esse ficava reservada a função de garantir na concertina o acerto dos versos com a prosápia quando a noiva seguisse até ao arco de loureiro e depois entrasse na igreja de braço dado com o futuro esposo. 

Quarta-feira, Setembro 02, 2009

3.
Como falar do cantador minhoto, por exemplo? Esta personagem regressa de um filme a preto e branco para que a minha tia possa ter a ilusão de resgatar um sonho que os meses e os anos foram riscando ou rasurando; regressa para que a minha tia Matilde procure nos olhos da filha a luz que nos seus próprios olhos se apagou há muito ou não chegou a acender-se. Por isso insistiu que o casamento fosse à tradição.

Terça-feira, Setembro 01, 2009

2.
Porque tudo isto me parece irreal ou desajustado do tempo em que vivo. Porque tudo isto me parece correr num intervalo entre o que verdadeiramente foi e o que ainda não é, entre o que sabíamos e o que procuramos saber, entre o temor da perda e a vontade de esquecer definitivamente. Procuro uma voz, portanto, que possa dar algum sentido à narrativa.
Capítulo II
 
[Onde se procura uma voz, se conta do cantador minhoto e da aparição do Alcino no casamento da minha prima.]

1.
Subo a Rua de Cima e procuro uma voz. E uma voz é um ritmo, um fio condutor imprevisível, uma onda com a amplitude das cristas e dos vales, remansos, oscilações, variações periódicas. Procuro uma voz que seja feita de repetições e inusitados lapsos, de permanências, de regressos e ausências. Procuro uma voz que me defenda e dê sentido ao que, renovando-se, não chega a mudar. Como se procurasse um estilo.

Segunda-feira, Agosto 31, 2009

6.
Podíamos começar por aqui. Talvez não se começasse mal. As antigas e boas regras do folhetim, no entanto, ensinam que cada coisa deve vir a seu tempo.

Domingo, Agosto 30, 2009

5.
Alcino Medeiros, muito mais tarde, sente que o tempo é o que fazemos dele; que o tempo não está sujeito a medições e que os calendários e os relógios nos dão imagens e retratos convencionais; que o tempo é o resultado do que somos e fazemos e sentimos. Alcino, muito mais tarde, procura subverter as regras, as normas; procura um ritmo que seja intrínseco a cada um de nós; um ritmo que subverta a cronologia simplista dos relógios. Não se trata já de medir ou compreender o tempo; mas de nos servirmos dele: usando-o em nosso favor contra as convenções e os usos; contra a sua ditadura e a imposição de parcelas abstractas com o mesmo comprimento de onda; definindo (controlando) essas oscilações, essa fita com marcas regulares: o tempo de olhar e dormir (correndo de forma diferente), de fugir e ficar a olhar o movimento dos elementos exteriores a cada um de nós e ao próprio mundo.

Sábado, Agosto 29, 2009

4.
Alcino intui que o tempo, essa realidade intangível, não existe se não lhe dermos sentido; que o tempo não é o somatório de fracções lineares; que medir o tempo é apenas um primeiro momento na compreensão dos seus segredos e mistérios. Alcino intui que a folha do amieiro que se desprende e cai numa elipse, vagarosamente, acontece fora dos princípios estabelecidos de medição do tempo. Como se houvesse uma realidade exterior às convenções. E, no entanto, o tempo é, simultaneamente, movimento e imobilidade: a água dos rios num percurso contínuo que parece partir e chegar, entre a nascente e a nuvem, de um mesmo e imperscrutável lugar; as crianças correndo nas avenidas de braços abertos a desafiar o vento ou a sua impossibilidade; a ilusão da teia imperceptível, silenciosa, da aranha invisível dos celeiros; a implosão das paredes do fundo dos poços; o plano de água dos açudes nas madrugadas dos meses de Outubro quando nenhuma aragem ergue a ondulação; um quarto fechado por dentro.

3.
O avô de Alcino está a morrer e chama-o ao quarto. Um sorriso desenhava-se nesse rosto sem razões de esperança na vida e no mundo: o avô estava a morrer. E no entanto, olhando-o, era como se tudo pudesse recomeçar. Nos seus olhos vagarosos de ter por eles passado o tempo, as tardes de Verão e Inverno, as nuvens, a luz imensa das águas subterrâneas dos princípios de Junho. Como se a morte anunciada fosse apenas um pretexto para outros nomes, outras palavras, outros sucessivos recomeços. Alcino via nele (nesse rosto) o passado correndo em si mesmo: as flores e os frutos, os tanques e as nascentes das encostas, o lavrar e o colher, a casa, a varanda suspensa sobre os caminhos que vêm de longe. E foi então que o avô o chamou; e lhe entregou um relógio. Com um sorriso desenhado no rosto. Como se tudo pudesse recomeçar.

Sexta-feira, Agosto 28, 2009

2. 
Alcino nasceu numa aldeia de montanha incrustada no terço inferior da encosta. Nada faria prever o seu interesse por manifestações simbólicas. Tudo, em redor, empurrava para a concretude e os aspectos práticos de sobrevivência num meio hostil: fazer os carretos de lenha, podar as videiras, lavrar, regar os campos quando a ameaça da escassez parece juntar-se à falta de sazão. É certo que havia os momentos de lazer: as ceias depois das pisadas em lagares de pedra, o jogo do fito nas manhãs de domingo, os bailes de concertina quando a noite, arrancadas as batatas, levadas em sacas de serapilheira nos carros de bois, e depois arrumadas no chão das adegas, trazia a ilusão de que há no universo um lugar de felicidade e encontro. 
Capítulo I

[Onde se começa por reflectir sobre as limitações da ideia de tempo marcado em fitas com intervalos regulares.]

1.
Medir o tempo. Procurar uma ordem entre os eventos e o seu carácter aleatório. Procurar estabelecer relações entre o voo das aves e a sombra estendida na tijoleira dos pátios. Compreender o que separa o movimento e a imobilidade. Entrar nos segredos da idade, da passagem das horas, da oscilação dos pêndulos abstractos. No entendimento de que o mundo só existe se o medirmos e se apreendermos o mistério da matéria volátil que faz mover as coisas.

Se Pudesses Regressar

[folhetim]

Quinta-feira, Agosto 27, 2009

UM FOLHETIM: AGORA A SÉRIO

Amanhã (re)começa aqui um folhetim com o título provisório de «Se Pudesses Regressar». Depois de alguns ameaços (neste mesmo blog, num outro que entretanto foi encerrado), correrá (espera-se) como é de costume nos folhetins: com regularidade. Aos quatro ou cinco leitores que foram seguindo já os primeiros textos, e que invectivaram por endereço de mail de não se lhes ter dado (aos textos) o devido seguimento, pede-se desculpa de (re)começar-se a coisa pelo princípio que já conhecem. Mas agora (procura-se prometer) é mesmo para andar de seguida, um texto após outro. O Verão está quase no fim. É tempo, pois, de (re)começar devagar e ir andando a esse vagaroso ritmo (mas, estima-se, continuado) dos folhetins.